Weekend Cinco homens em Belém

Cinco homens em Belém

No livro “Presidentes que mudaram Portugal”, Filipe Luís faz um retrato da política portuguesa nos últimos 40 anos, com o foco apontado ao Palácio de Belém. Nesta páginas conhecemos melhor os cinco homens que foram eleitos para exercer o mais alto cargo da nação desde a Revolução de Abril e os bastidores das grandes decisões que marcaram a história do País.
Cinco homens em Belém
Filipa Lino 03 de novembro de 2017 às 10:59
Os factos políticos que lemos nos jornais têm uma história por trás que raramente vem a público. Normalmente, só anos depois, quando os protagonistas escrevem as suas memórias, esses episódios são revelados. Mas, sendo contados na primeira pessoa, serão sempre apenas uma visão dos acontecimentos. E, sabe-se, uma história tem sempre várias versões.

No livro "Presidentes que mudaram Portugal", lançado ontem, o jornalista Filipe Luís mostra os bastidores da política através dos cinco homens que foram eleitos para o lugar de Presidente da República desde o 25 de Abril. Para o escrever, o autor recorreu aos seus arquivos, quer da memória quer escritos, e a conversas que teve ao longo de 30 anos com várias personalidades, algumas delas protagonistas deste livro.

Estas páginas incluem "uma espécie minibiografias", explica o jornalista ao Negócios, mas não se trata apenas de apresentar uma sucessão de factos. Há uma análise assumida do autor aos mandatos de cada um dos cinco presidentes. O retrato individual, que mistura vida pessoal com política, permite encaixar as peças deste puzzle que tem sido a democracia portuguesa nos últimos 40 anos. E ajuda a perceber a forma como "as pessoas se cruzaram na vida política".

Segundo Filipe Luís, o mote para o livro foi a eleição do actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em Janeiro de 2016, que funcionou como uma lufada de ar fresco na história dos homens que ocuparam o mais alto cargo da nação desde o 25 de Abril. "Marcelo trouxe um novo tipo de expectativas à Presidência da República" e, acrescenta, tudo isto aconteceu numa altura em que "o país vivia uma situação política governativa completamente inédita", com um Governo socialista apoiado no Parlamento pelos partidos mais à esquerda. Marcelo substituiu em Belém alguém muito diferente dele. E percebeu que teria de ganhar o coração dos portugueses, marcados pelos anos da troika. Um trabalho facilitado pelo longo tempo em que o Presidente foi comentador na televisão. Isso tornou-o num rosto conhecido dos portugueses.

O nível de popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa era já elevado quando tomou posse enquanto Presidente. É disso prova uma das histórias no livro contada ao autor pelo próprio professor. "Nos seus primeiros tempos de comentador na TVI, ele recebia centenas de cartas por semana. E guardou uma, de uma espectadora que lhe agradecia muito porque, graças a ele, o seu bebé passou do biberão para a papa sem nenhum problema, distraído, a olhar embasbacado para o professor na televisão". Parece um "fait divers", afirma o jornalista, mas demonstra "o tipo de popularidade que ele foi conseguindo ao longo dos anos para um dia vir a ser Presidente da República".

O Presidente dos afectos

Quando chegou a Belém, Marcelo quis marcar uma nova era. E "estabeleceu o princípio de que aquele 'emprego' exerce-se, não no Palácio, mas todos os dias na rua", escreve o autor. Com esta atitude, "Marcelo pode estar a contribuir para relançar a relevância deste órgão de soberania, que parecia esgotado, e a garantir por mais décadas o actual desenho institucional do regime". Este será, por ventura, o legado que o actual "inquilino" do Palácio de Belém deixará ao país.


"Presidentes que mudaram Portugal" não mostra apenas o lado positivo de cada um dos presidentes. Pelo contrário, o lado "humano" é destapado, sem entrar na vida íntima, sublinha Filipe Luís. Afinal, este "é um livro sobre política", mas com homens de carne e osso. Com virtudes, defeitos e ódios de estimação. Mário Soares, por exemplo, tinha um problema de "pele" com Ramalho Eanes e Cavaco Silva. "Para ele, havia uma linha de fronteira entre a rivalidade política e o ódio de estimação", refere o autor do livro. Se pelo líder histórico comunista Álvaro Cunhal e pelo fundador do CDS, Freitas do Amaral, Mário Soares tinha admiração pessoal, apesar de ter sido implacável com eles na luta política, com Cavaco Silva e Eanes, a coisa era diferente. Nestes dois casos, o histórico socialista "não tinha consideração alguma". Este tipo de sentimentos interferiu, de alguma forma, na política, na medida em que tiveram de lidar uns com os outros nos vários cargos que foram desempenhando. Mas também há casos com final feliz.

"Jorge Sampaio e Marcelo Rebelo de Sousa começaram por ser rivais e acabaram grandes amigos. Ainda hoje o são."

Os cinco homens que estiveram em Belém são muito diferentes. Ramalho Eanes ficou conhecido como o "general que não ria". O seu sucessor, Mário Soares, de pose mais descontraída, foi apelidado pelo povo de "bochechas". Logo a seguir, Jorge Sampaio era o homem que se emocionava a discursar. Cavaco foi o Presidente distante, "o político contrafeito", como lhe chama Filipe Luís. E, por último, Marcelo Rebelo de Sousa é o professor que gosta de andar na rua a distribuir abraços e sorrisos. São vários os rostos e os capítulos de uma história que continua a ser escrita todos os dias.





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