Weekend Claire de Santa Coloma: Gosto da frase “less is more”, mas às vezes penso que “more is more”

Claire de Santa Coloma: Gosto da frase “less is more”, mas às vezes penso que “more is more”

Claire de Santa Coloma ganhou a última edição do Prémio Novos Artistas Fundação EDP. Cresceu na Argentina, estudou em Paris, passou por Madrid e escolheu Lisboa. Tem até dia 13 de Janeiro uma exposição na Galeria 3+1 em Lisboa.
Claire de Santa Coloma: Gosto da frase “less is more”, mas às vezes penso que “more is more”
Miguel Baltazar
Susana Moreira Marques 15 de dezembro de 2017 às 15:00
O ateliê onde Claire de Santa Coloma trabalha diariamente em Lisboa é exactamente como se imagina um ateliê de artista: com materiais vários, cheiros intensos, formas em que apetece mexer e algum espaço vazio para dar tempo ao olhar. Claire de Santa Coloma ganhou a última edição do Prémio Novos Artistas Fundação EDP. Cresceu na Argentina, estudou em Paris, passou por Madrid e escolheu Lisboa. Tem até dia 13 de Janeiro uma exposição na Galeria 3+1 em Lisboa. É uma artista pouco comum precisamente porque até é comum: faz escultura, faz simplesmente objectos, assume um fazer tradicional. Trabalha sobretudo com madeira: um material que dura além de nós. O seu trabalho não procura um efeito imediato, mas o prolongamento do efeito: uma impressão, uma memória, um reconhecimento de quem verdadeiramente somos.  


1. Esta exposição [na Galeria 3+1 ] chama-se "Pausa". Porque quero mostrar situações, momentos. São seis ou sete peças: esculturas e dois desenhos novos que estão directamente relacionados com as esculturas.

O "Banco para Contemplação" é um dos trabalhos de onde vem o título "Pausa". É para as pessoas se sentarem e olharem e talvez assim possam exceder os três segundos "standard" que uma pessoa fica em frente de uma obra de arte. As instituições têm isso contabilizado: em média, uma pessoa não fica mais de três segundos em frente de uma obra de arte.

Não me incomoda que uma obra seja olhada por pouco tempo. O que é importante é a impressão que a obra provoca, é aquele momento. Às vezes, um encontro pode ser muito rápido, mas o efeito do encontro fica.

Penso que as pessoas que visitam uma exposição e tiram fotografias esquecem-se daquele momento, daquele encontro com uma obra.

Raramente tiro fotografias de momentos felizes. Quando gosto muito de um momento, a minha reacção nunca é fotografar. Porque, às vezes, penso que tudo o que sentimos naquele momento fica na fotografia. E não fica no espaço interior que temos dentro de nós.

2. Tive uma infância privilegiada e mimada e a minha mãe fez todos os esforços para nós sermos felizes ou para termos todas as oportunidades para sermos felizes.

Uma vez, até lhe disse: mas imagina que eu queria ser uma bailarina clássica e nunca me levaste ao ballet e eu até podia ter tido um grande talento? Ela olhou para mim e disse: "Mas tu já viste o teu tamanho? Desculpa, mas fui realista." Eu era muito grande. Sempre fui enorme.


Não me incomoda que uma obra seja olhada por pouco tempo. O importante é a impressão que a obra provoca, é aquele momento.  


Aos três anos, a minha mãe levou-me a um ateliê de artes para crianças. Eu gostava muito de desenhar, mas não se tratava apenas de gostar de desenhar: lembro-me de achar que era um acto importante. Eu fazia aquilo com seriedade. No infantário pediram-me para ser eu a fazer pinturas nas janelas da sala e eu fi-lo como se fosse mesmo um trabalho. E tenho essa memória: de estar a pintar uns castelos enormes nas janelas.

Depois, aos nove, comecei a fazer escultura. O dia da semana mais importante para mim era a quinta-feira, quando ia para o ateliê, à tarde, depois da escola. Quando descobri que se podia ser artista, achei aquilo o máximo. Se podia escolher qualquer coisa e podia ser artista, para mim era como ser Presidente da República: era o máximo que se podia atingir.

3. Nasci na Argentina, onde fiquei até aos 19. Depois, estudei em Paris e aí ganhei uma bolsa para ir para Madrid durante dois anos.

Foi nessa altura que tive uma crise e continuo a falar dessa crise porque o meu trabalho de hoje ainda vem dessa crise.

Quando me mudei para Madrid, tinha óptimas condições de trabalho. Tinha ganho esta bolsa importante, onde te dão um ateliê com cozinha e um quarto para viveres, e dão-te um salário. Durante dois anos, não tens de te preocupar com nada, a não ser com o teu trabalho.

Mas eu tinha acabado de sair da escola, e tive uma educação ligeiramente diferente da educação tradicional dos artistas contemporâneos. Não tinha andado numa escola de Belas-Artes. Tinha andado num ateliê onde só havia um ponto de vista, durante quatro anos. No tipo de formação que tive, não se estudava o contexto. Era tudo sobre a criação: uma criação mais livre, a criação plástica em si, o pensar em fazer obras que transmitam alguma coisa.


Quando gosto muito de um momento, a minha reacção nunca é fotografar. Às vezes, penso que tudo o que sentimos naquele momento fica na fotografia. E não no espaço interior.


Foi quando cheguei a Madrid que me confrontei com o mundo da arte contemporânea. Os meus colegas eram todos mais velhos. Eu era a mais miúda. Tinha só 24 anos. Dei-me conta de que muitas coisas no meu discurso não funcionavam - nem para mim própria. Na altura, fazia muito trabalho que tinha que ver com a paisagem e a natureza e, de repente, comecei a ficar céptica. Pensava: se quero fazer uma escultura que tenha a sensação da paisagem, porque não olhar directamente para a paisagem? Porquê estar a representar coisas que são mais interessantes na vida real? De repente, a representação de algo parecia-me inútil. Comecei a questionar tudo e, de repente, já não sabia o que fazer. Porque é que trabalho com um material tão nobre, a madeira, que vai durar toda a vida? Quem é que diz que este objecto que faço é mais interessante do que um pedaço de árvore que se encontra por ali?

4. Durante um tempo, deixei de fazer escultura e comecei a fazer desenho. O desenho parecia-me menos pesado, menos permanente. A desenhar sentia menos peso. Não tinha toda a carga de anos e anos de educação como tinha quando fazia escultura. Ninguém me tinha ensinado e eu não tinha mostrado a ninguém os meus desenhos. Fazia desenhos um pouco como fazia escultura, mas mais levemente. Acho que tinha que ver com uma necessidade de leveza.

Hoje em dia, os meus desenhos têm por trás um trabalho enorme. São muitas horas, muitas semanas para cada desenho, em que corto papel e vou repetindo um gesto. Acho que é através desse gesto repetitivo, que se vai repetindo, repetindo, repetindo, de maneira quase obsessiva, que consigo chegar a um resultado - não sei se a palavra é exactamente esta - silencioso.

Gosto muito da frase "less is more", mas, às vezes, penso que "more is more", que com muita coisa, pela acumulação, se pode chegar a dizer algo simples.

5. Não me dá medo a quantidade de trabalho. Sou minuciosa. Talvez mesmo obsessiva. Mas acho que só dessa maneira, obsessiva, se conseguem dizer coisas mais poéticas.

Mas isso é dentro do ateliê. Fora dele é um trabalho de observação: das relações entre as pessoas, das pessoas com os objectos, como vivemos.

Lembro-me de passar férias com pessoas que não têm nada que ver com as artes e de me perguntarem: o que fazes? Quando respondo que sou artista, perguntam-me: e o que estás a fazer em Lisboa? E eu digo: a viver a minha vida. E viver a minha vida faz parte do meu trabalho. Nesse aspecto, quase todos os artistas concordariam que estamos sempre a trabalhar.





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