Weekend Cláudia de Castro Caldeirinha: “Os maiores massacres ocorrem quando não existem testemunhas"

Cláudia de Castro Caldeirinha: “Os maiores massacres ocorrem quando não existem testemunhas"

Nasceu na maternidade de Lahane, em Díli, no meio da comunidade portuguesa, saiu de lá a bordo de um “hovercraft”. Já em Portugal, ouviu as histórias que os refugiados timorenses lhe contavam no Vale do Jamor. Abraçou a causa de Timor, tornou-se activista de direitos humanos. Viveu em vários países. Trabalhou na fundação de George Soros e no Club de Madrid. Fundou a Redscope Consulting, que trabalha questões de liderança. Escreveu o livro “Women Leading the Way in Brussels”, em co-autoria com Corinna Horst. Cláudia de Castro Caldeirinha conta-nos aqui a sua história.
Cláudia de Castro Caldeirinha: “Os maiores massacres ocorrem quando não existem testemunhas"
Bruno Simão
Lúcia Crespo 08 de setembro de 2017 às 12:00
Nasci na pequena maternidade de Lahane, em Díli, Timor-Leste, um sítio que visitei há 12 anos, já como adulta. Estava com o antigo Presidente cabo-verdiano António Mascarenhas Monteiro, uma pessoa adorável, e ele disse-me: vou contigo ao sítio onde enterraste o teu umbigo. Em Cabo Verde, quando a criança nasce, cortam-lhe o cordão umbilical e enterram-no no local onde nasceu. Esse sítio representa a raiz da pessoa. A pessoa pertence àquela terra. É algo muito bonito.

Vivi em Timor até aos três anos. Durante muitos anos, tinha uma memória que eu não sabia se correspondia a algo real, aparecia-me em sonhos de forma tão repetitiva que acabei por falar com o meu pai. Era uma memória verdadeira, passada no famoso Rio das Pérolas, na China. Timor estava numa situação de violência total e nós fomos retirados a partir daqueles barcos muito rápidos, os "hovercraft". Era de noite, estava escuro, havia muita gente, o barco fazia imenso barulho. Toda essa experiência ficou em mim. Não era apenas um sonho.

O meu pai estava em Timor por causa do serviço militar obrigatório e ele conta histórias sobre aquela pequena colónia de portugueses no meio da selva, dos mosquitos e das doenças e eu pude recontactar com estas memórias nas vezes que fui a Timor já depois da independência. Fui, senão a primeira, uma das primeiras crianças a ter nascido naquela comunidade e, portanto, eu era a coisa mais mimada do planeta, a quem toda a gente dava doces!


Portugal estava tão focado nos seus problemas de transição democrática que não tinha capacidade para acompanhar os refugiados timorenses que chegavam com histórias horripilantes.  


Quando vim para Portugal, na altura do 25 de Abril, lembro-me de ir, já com 10 anos, ao Vale do Jamor, onde os refugiados de Timor eram acolhidos e estavam totalmente dependentes da solidariedade dos portugueses que tinham estado lá, como os meus pais, ou de outras pessoas mais atentas à situação - nessa altura, Portugal estava tão focado nos seus próprios problemas de transição democrática que, evidentemente, não tinha capacidade política e socioeconómica para acompanhar aqueles refugiados que chegavam com histórias horripilantes. Então, nós íamos lá levar-lhes roupa, cobertores e comida em lata.

De cada vez que chegávamos ao Vale do Jamor, havia cerimónias e rituais de danças e cantares. No início, eu olhava para aquilo como se fosse uma festa mas, a pouco e pouco, comecei a perceber o que se passava e a conhecer as histórias das pessoas que ali viviam - histórias inaceitáveis de violações e de massacres. Comecei a desenvolver a minha própria consciência política do que era certo e errado, justo ou injusto, e isso foi determinante para tudo aquilo que me tornei. A justiça é dos principais valores que me move, tudo o que fiz tem que ver com justiça.

Houve um "blackout" total sobre a situação em Timor e quando fui estudar Relações Internacionais no ISCSP comecei a fazer abaixo-assinados pela causa timorense. Na altura, em torno do CIDAC (Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral) começaram a organizar-se conferências para aumentar o nível de consciencialização e, num desses encontros, conheci o Ramos-Horta, já com o seu lacinho. Ele era então um jovem advogado que andava a bater em todas as portas para que alguém começasse a falar de Timor. Quando ele soube que eu tinha nascido lá, que estudava Relações Internacionais e que conhecia o Adriano Moreira, meu professor e mentor em muitas coisas, foi ouro sobre azul. Quando tive o meu primeiro carro, um Renault 5 preto, andava com o Ramos-Horta para todo o lado.

Na altura, a Paula Escarameia, que era uma professora fabulosa e é uma das mulheres da minha história, criou, com o Pedro Pinto Leite, professor de Direito Internacional, a Plataforma Internacional de Juristas por Timor-Leste para mobilizar a opinião pública internacional. Depois havia também as Jornadas de Timor da Universidade do Porto, criaram-se redes internacionais e começámos a ter activistas das Filipinas, da Austrália, do Canadá, e até indonésios que estavam no exílio. Criou-se uma vaga de consciencialização global.

Aquando do referendo sobre o futuro de Timor-Leste, fui com as Nações Unidas para Jacarta fazer a observação do referendo com as comunidades timorenses dentro da Indonésia, e lá conheci a Ana Gomes, que tem sido uma cúmplice em casos de direitos humanos desesperados. A situação começou a tornar-se instável em Timor, a base das Nações Unidas estava a ser atacada pelas milícias, o aeroporto foi encerrado, mas nós só queríamos ir para lá. Quando não há olhos, não existem testemunhas e, quando não existem testemunhas, podem ser cometidos os maiores massacres. Mas não nos deixaram ir, mandaram-nos para Lisboa. Quando chegámos, tínhamos vários jornalistas à nossa espera no aeroporto. Portugal tinha acordado para Timor.

Do Saara Ocidental à Bósnia

Ao longo dos anos, as minhas teses académicas foram sempre ligadas a questões de direitos humanos, a processos de transição democrática, a lutas pela autodeterminação e, como parte desse trabalho, tive a minha primeira missão profissional nos campos de refugiados do Saara Ocidental, no Sul da Argélia - infelizmente, não mudou nada, só estão ainda mais esquecidos do que estavam - e essa missão permitiu-me ter a consciência de que essas pessoas que nós, do Norte e dos países chamados democráticos, achamos que são frágeis e vulneráveis - e são - na realidade têm muito mais para nos dar do que aquilo que nós temos. Mostram-nos a resiliência, a coragem, a capacidade de lutar - os saarauís são teimosos como tudo e resistem àquele deserto de pedras que não tem nada!

Essa minha primeira missão foi um grande choque, foi a primeira vez que senti a impotência. Podemos ter toda a boa vontade do mundo e investir esforço numa mudança de sociedade ou num processo de autodeterminação, mas se, de facto, não existir a vontade política a nível de topo, as coisas não mudam ou mudam muito mais dificilmente. Pouco a pouco, comecei a trabalhar ao nível das lideranças. Não é possível mudar o mundo só a partir de baixo, como não é possível só a partir de cima. As duas coisas, juntas, é que fazem o mundo evoluir.

Tenho andado a correr o planeta inteiro. Vivi em Lisboa, Madrid, Londres, Gales, Roma, Florença, Bruxelas, e em cada um desses sítios tinha missões. Fui para a Bósnia logo a seguir à guerra, foi a minha primeira experiência directa com uma situação de guerra. Quando voltei a Roma, onde vivia, ouvia o ruído dos "motorinos" e o meu primeiro reflexo era baixar-me…

De George Soros ao Club de Madrid

Fiz o doutoramento no Instituto Universitário Europeu de Florença, que é o sítio onde fazem um "brainwashing" e nos dizem que somos a elite da Europa, as pessoas saem de lá com um ego gigantesco, sem perceberem que "this is not the real life", é preciso muito trabalho de terreno, que eu fui fazendo enquanto tirava o doutoramento... Na altura, estudava questões europeias e comecei a ir muito a Bruxelas. Fui então contactada por uns americanos que estavam à procura de um director regional para a Europa para um programa da fundação de George Soros. Gostaram das minhas ideias e contrataram-me!


Maria de Lourdes Pintasilgo teve coragem de ser primeira-ministra num mundo, e certamente num Portugal, que não tinha a mínima noção da importância da igualdade de género. 


Liderei um projecto global chamado "Democracy Coalition Project", e entrei num mundo diferente. Eu não venho de uma família com nome ou reputação, com fortuna e, de repente, passei a andar pelo mundo inteiro a conhecer toda a gente, e foi nessa altura que trabalhei com a Emma Bonino, uma das minhas "role-models". Mas antes dela, quando estava no Instituto de Florença, já tinha conhecido a Maria de Lourdes Pintasilgo, uma mulher-referência. Ela teve coragem de ser primeira-ministra num mundo, e certamente num Portugal, que não tinha a mínima ideia da importância da igualdade de género. Tinha paixão, tinha coragem, tinha uma grande consciência da justiça e era extremamente generosa. Liguei-me muito a ela.

Já a Emma Bonino, ou se ama ou se detesta, houve momentos em que a detestei mas, no geral, adoro-a. Provavelmente, não consigo apontar ninguém com mais carisma do que ela. A Emma foi sempre uma europeísta convicta, uma defensora dos direitos das mulheres, foi uma das primeiras feministas de Itália, foi a primeira figura pública europeia a ter coragem de ir para o Afeganistão em pleno período "hot hot hot". Tem a coragem de dizer A quando todos os carneiros dizem B, tem a firmeza de dizer: eu posso ser tão boa ou tão má como qualquer homem, os homens não têm o monopólio de serem maus líderes, eu também tomo más decisões e cometo erros, "so what?", não me venham criticar de forma desproporcional só porque sou mulher.

A mulher que encarna mais o tipo de liderança que promovo e gosto é a Mary Robinson. Conhecia-a no Club de Madrid, onde comecei a trabalhar como directora do escritório de Madrid em Bruxelas. Eu tratava das relações com as instituições europeias. Nessa altura, conheci o Gorbachev, o Clinton, o Václav Havel - outra figura que encarna uma liderança que eu promovo. Também tive homens mentores!

O Club de Madrid era composto maioritariamente por homens, tinha apenas quatro ou cinco mulheres. É desta forma que sentimos o confronto com a realidade. Entretanto, tive o meu filho. Amamentei até aos sete meses, só que, como todas as mulheres neste tipo de cargos, senti uma grande pressão. Não tive tempo nenhum de maternidade, o meu filho era o mais pequenino da creche, depois vinham os sentimentos de culpa... Eu ando de mota. Então, amamentava antes de ir trabalhar, ia a casa a meio da manhã e a meio da tarde. Amamentava, dava beijinhos, e lá ia eu para as reuniões a tentar parecer superprofissional. Hoje, através da minha empresa Redscope Consulting, faço "coaching" a mulheres executivas com o mesmo tipo de problemas que eu tive. Conciliar a maternidade com a carreira continua a ser a grande questão... 





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