Weekend Cláudia Varejão: Num país onde não dominamos a língua, exploramos os outros sentidos

Cláudia Varejão: Num país onde não dominamos a língua, exploramos os outros sentidos

“Ama-San” é o primeiro filme de Cláudia Varejão a ter distribuição nas salas. Um filme sobre mergulhadoras em apneia, que é também sobre a vida quotidiana de um grupo de mulheres de várias gerações – ou de como as nossas vidas estão preenchidas por gestos.
Cláudia Varejão: Num país onde não dominamos a língua, exploramos os outros sentidos
Pedro Elias
Susana Moreira Marques 03 de fevereiro de 2017 às 14:00
Por causa de um poema e de uma imagem de mulheres no fundo do mar a apanhar pérolas, Cláudia Varejão foi ao Japão procurar as "Ama-San", mulheres pescadoras que mantêm uma tradição milenar que está prestes a desaparecer. Fez um filme sobre mergulhadoras em apneia, que é também sobre a vida quotidiana de um grupo de mulheres de várias gerações - ou de como as nossas vidas estão preenchidas por gestos. Há uma curiosa beleza e justiça na maneira como os gestos no fundo do mar se parecem equilibrar com os gestos em casa, num jantar com a família, numa reza, num deitar a cabeça numa almofada. "Ama-San" é o primeiro filme de Cláudia Varejão a ter distribuição nas salas. Cláudia Varejão cresceu no Porto, vive em Lisboa e quer poder filmar em qualquer lugar. Quer continuar a trabalhar com pessoas reais, a filmar sem necessidade de manipular a realidade e a deixar-se surpreender pelos heroísmos do dia-a-dia.


1. Estava a ler um livro de poesia e encontrei uma referência a estas mulheres. Achei que era uma metáfora: mulheres que iam ao fundo do mar buscar pérolas. Tudo aquilo me parecia uma figura de ficção muito bem criada. Mas depois, no final do livro, aparecia uma nota com uma descrição exacta de quem elas eram, onde mergulhavam no Japão, e explicava que era uma tradição milenar. Isto existe, pensei. Será que ainda existe?

Fui procurar e encontrei logo umas fotografias da década de 50, de mulheres nuas, a preto e branco, lindas, muito erotizadas. E depois, por oposição, encontrei imagens contemporâneas delas, de fato de borracha e velhinhas. Achei que era um filme. Foi imediato. Nem pensei que o Japão era do outro lado do mundo. Acho que quando se tem ideias - e ainda bem que assim é - não se pensa logo em termos de produção, nas dificuldades que vamos encontrar.

2. Não foi fácil. Eram comunidades muito fechadas, pouco disponíveis, quase tribais.

Não fui muito bem-sucedida na primeira viagem. Fui a várias aldeias piscatórias e já estava muito frustrada - não tinha ido ao mar, não tinha conseguido ver nada - quando encontrei uma aldeia que nem sequer estava na minha lista. Foi a última aldeia que visitei. Aí, encontrei uma mulher muito simpática, muito bonita, muito dada, com quem tive uma empatia imediata. Ela levou-me logo para o mar e apresentou-me às "amas" todas daquele barco. Foi sorte. A dificuldade ficou toda para trás.

3. Só me apercebi o quanto as vidas delas eram duras quando voltei no ano seguinte para filmar.

Fora de água, fui eu que filmei. Dentro de água, foi um mergulhador japonês. Quando chegou, disse: vou mergulhar em apneia como elas para ser mais real. Deu dois mergulhos e disse que não tinha pulmões.

Quando comecei a ver as imagens debaixo de água e comecei a conversar com elas, percebi que não era tão romântico quanto parecia. Primeiro, percebi que todos os anos morriam mulheres: ficavam presas nas algas no fundo do mar.

Depois, comecei a assistir ao cansaço delas e à dependência do estado do tempo: não é um trabalho contínuo, é muito instável. E é muito duro, todas têm problemas de saúde. Há um reverso da medalha que não é nada apelativo - e é por isso que elas estão a deixar de existir, porque não há raparigas novas a querer passar por aquilo.

4. Elas sabem que é uma sorte regressarem todos os dias vivas. Talvez saber que tudo isto é uma sorte as faça estar mais ligadas ao sagrado. É muito simbólico o lenço [tradicional] que usam.

No lenço, vêem-se uns carimbos vermelhos e são carimbos que trazem dos templos: são os deuses que as protegem no fundo do mar. Portanto, quando não se usa o lenço quer dizer que ainda não se está ligado a todos os níveis de entendimento da profissão.

Pôr o lenço tem um técnica exacta. E elas fazem-no [no barco, antes de mergulhar] sem um espelho. A mais nova ainda não consegue pôr o lenço. A mais nova ainda está um bocadinho à toa espiritualmente. E também fisicamente. A mais nova não é como um futebolista no auge da sua condição física: é a mais perdida, a que tem mais dificuldade em mergulhar e em pescar.

Como em todos os trabalhos artesanais - como um sapateiro, por exemplo - quanto mais idade e mais experiência, mais se sabe. Elas, quanto mais velhas, mais sabem onde mergulhar e como pescar. São as mais sábias da profissão. A mais velha daquelas mulheres tem 83 anos.

5. Desde a leitura do livro e a ideia de fazer o filme até hoje, com a sua estreia em sala, passaram cinco anos. Foi lento, mas não foi difícil. Foi difícil nas coisas mais básicas de sempre, que é o dinheiro. Agora, o chegar às pessoas, o falar com elas, o filmá-las, é igual a ir filmar aqui ao Alentejo. Sem falsa modéstia nenhuma. Eu não falava a língua, mas entendia-as de outra forma. Se calhar, por isso é que é um filme mais sensorial. Não passa tanto pela narrativa falada. Quando estamos num país onde não dominamos a língua, exploramos ao máximo os nossos outros sentidos. Foi um exercício importante para mim: prestar atenção a outras coisas.

Prestei atenção aos gestos. A vivência é feita de pequenos gestos. Tudo são gestos: gestos no fundo do mar, gestos na preparação, gestos em casa. Essa repetição do gesto e da beleza do gesto interessava-me.

Talvez porque venho da ficção, de contar histórias sobre pessoas, interessava-me olhar para elas no seu quotidiano. Elas têm vidas tão quotidianas, tão idênticas às nossas em última análise: cozinhar, ir buscar os miúdos, ir para casa, ir trabalhar...

Para percebermos a bravura de determinados gestos, temos de perceber a fragilidade do que está por trás. As vidas delas não têm nada de heróico, são vidas absolutamente normais - e são bonitas por isso.

6. Ainda troco mensagens com elas: mando-lhes fotografias e elas mandam-me fotografias. Mas, quando viram o filme, enviaram-me uma mensagem escrita em japonês, que eu depois arranjei forma de traduzir. Diziam que estavam muito agradecidas e diziam uma coisa muito bonita, qualquer coisa como: é um filme sobre a celebração da vida, ficámos felizes. De facto, acho que é sobre a celebração da vida mais do que sobre uma profissão ou sobre mulheres. É sobre a vida: como preencher a vida em toda a sua amplitude.

7. Depois deste filme, dificilmente volto a trabalhar com guiões escritos e com actores. [A ficção] foi uma escola, muito importante, para depois poder ir para a vida; ir, com essas ferramentas mais formais, olhar para a vida.

Na ficção, tudo é mais frustrante porque se quer muito encenar e manipular e mesmo assim não sai como está escrito e é impossível sair como está escrito. Então, o prazer de filmar, estando disponível para aquilo que pode acontecer, que não sabemos o que é, é muito mais interessante. É quase como ir pescar. Tu vais pescar e não podes decidir que queres pescar uma dourada; pode sair uma dourada, pode sair um robalo, não sabemos... [No documentário] aprende-se não só no nosso trabalho, mas na nossa vida, como pessoas. O trabalho e a vida ficam mais ligados.





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