Livros Com vista para o futuro

Com vista para o futuro

Na década de 30, na sequência da devastadora Grande Depressão, Sinclair Lewis vislumbrou a possibilidade de um populista chegar ao poder nos EUA. Leitura do futuro?
Fernando Sobral 25 de novembro de 2017 às 09:15
Sinclair Lewis
Isso Não Pode Acontecer Aqui
D. Quixote, 437 páginas, 2017


Há livros assustadores. Ou melhor, sendo premonitórios, acabam por causar um tremor em todas as nossas certezas mais luminosas. É o que sucede com este livro de 1935 de Sinclair Lewis, numa altura em que Adolf Hitler estava a fazer da "Alemanha grande outra vez", e Benito Mussolini invadia a Etiópia. Nos EUA, as coisas não estavam definitivamente melhores: havia confrontos raciais no Harlem e, após a crise de 1929, o New Deal de Roosevelt ainda não era uma benção universal. O presidente da New Jersey Bankers Association dizia que a "América está farta de aventuras e está ansiosa" e que, por isso, os americanos queriam "segurança e conservadorismo outra vez".

Muito deste sentimento está presente neste devastador livro, que cria uma ficção em que, numa improvável eleição, um político autoritário chamado Buzz Windrip ganha a Roosevelt e torna-se Presidente dos EUA. Na Casa Branca, desenvolve uma versão do fascismo que está a conquistar a Europa. Lewis sempre foi acusado de não ser um mestre do estilo, mas a sua capacidade ficcional acaba por se impor a essa fragilidade. E, lido tantos anos depois, este livro é de uma actualidade arrepiante. Segundo parece, Windrip inspirou-se num demagogo de Louisiana chamado Huey Long que, curiosamente, foi assassinado um mês antes de este livro ser lançado.

É o país dos "homens esquecidos" que traz Doremus Jessup para o palco. Há algo subterrâneo e terrível germinando na política americana, mas ele, no fundo, é o gerador de Berzelius Windrop. Jessup, o editor de um pequeno jornal de Vermont, ouve os amigos a dizer que uma coisa assim, um populista fascista, não pode acontecer na América. Mas sucede. Jessup está aterrado com o que vê à sua volta e isso traz à superfície a importância de pilares fundamentais na democracia, como a imprensa, para aclarar este chamamento das trevas. Os seus editoriais que alertam para o que se pode passar não conduzem a nada. Windrip ganha. A nação caminha para as trevas e ninguém pode fazer muito sobre isso.

A obra acaba por ser uma fantasia aterradora sobre a forma como um homem imagina o fascismo a impor-se nos EUA. Lewis oferece o lado escondido do espelho: o horror também pode acontecer aqui, no país das liberdades.

Na altura, o livro era também um libelo: numa sociedade estilhaçada pela miséria, os apelos de um populista poderiam muito bem tornar-se algo que muitos gostariam de ouvir.

A inspiração de Lewis não caiu do céu. Em 1931, a segunda mulher do escritor, a jornalista Dorothy Thompson, tinha entrevistado Hitler e ficado sem palavras perante a sua "insignificância". De regresso aos EUA, tinha falado com o populista Huey Long, que queria desafiar Roosevelt nas presidenciais de 1936. Ela tinha reparado que a mensagem dele e o seu estilo tinham algo que ver com o de Hitler. E Lewis bebeu estes receios. E transformou parte deles nesta obra obsessiva obra. De tal forma que, quando se olha hoje para a América de Trump, sente-se que ficaram por ali sementes que só muito mais tarde germinaram. As forças das trevas tinham sido libertadas. E, em 1935, tal como agora, esvoaçavam à espera de quem as quisesse apanhar.






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