Gastronomia Comida tradicional em espaço de luxo

Comida tradicional em espaço de luxo

Pois, o título pode levantar dúvidas, mas não se encontrou melhor formulação para descrever o restaurante JNcQuoi. Em tese, comeríamos aqui esferificações de inhame; na realidade, servem-se tachinhos de arroz, bacalhaus, pastas ou aquela que será provavelmente a melhor paletilla de borrego na Pensínsula Ibérica e arredores.
Comida tradicional em espaço de luxo
Edgardo Pacheco 02 de dezembro de 2017 às 11:00
O JNcQUOI fica na Avenida da Liberdade (182-188), funciona entre as 10 e as 24 e encerra ao domingo.

Ao certo, não me recordo da altura em que conheci António Bóia, mas lembro-me de um amigo destas lides me ter dito que António Bóia era o seleccionador das equipas portuguesas das olimpíadas da gastronomia.... "Desculpa!? Olimpíadas de quê?!" Pois, se o leitor é daqueles que também está agora aos papéis, fique a saber que existem competições internacionais de equipas de gastronomia à moda de umas olimpíadas quaisquer, com dois escalões: juniores e seniores. E que Portugal costuma dar cartas nessas competições. E que chefes de nomeada já participaram nestes eventos. E que, por fim, António Bóia é nosso Fernando Santos na cozinha, sendo responsável pela selecção, treino e exibição dos nossos craques dos tachos.

De resto, desde que sei desta história, ando com ideias de juntar o corpo técnico da selecção nacional de futebol com a equipa nacional das olimpíadas de cozinha. Coisa que seria, por assim dizer, uma maneira de os meus superiores hierárquicos me mandarem no próximo Verão para a Rússia. A ver se pega.

Tempos depois, e sempre com muita gente a falar-me de António Bóia, desafiei-o para fazer uma cataplana de lavagante, no restaurante Rio's, em Oeiras. E foi nesse dia que fiquei ciente de estar perante alguém que, desde a selecção dos produtos à execução da técnica de confecção, tem um domínio técnico impressionante. Reparem nisto. A maioria dos chefes trabalha com fichas técnicas e controlo de tempos e temperaturas. Pois, no caso de António Bóia, e perante uma cataplana que tinha colocada ao lume, os seus olhos sempre vibrantes e os pequenos passos à volta do fogão borrifavam-se para fichas. Ele olhava para o recipiente, baixava a cabeça para escutar o som da cozedura, esperava por algum vapor a sair das juntas e zás, "está no ponto". E estava mesmo.

Ainda impressionando com o raio do marisco finório, fui num domingo a um almoço no Rio's, provar um cozido à portuguesa, em que os ingredientes estavam todos numas pequenas panelas de ferro no meio da sala. Enchidos, carnes, legumes e - dessa nunca me esquecerei - uma sopa que nunca me voltou a passar pela frente. Lembro-me perfeitamente de estar na Marina de Oeiras a beber chás e a pedir perdão pelo pecado de gula.

De maneira que quando o próprio António me confidenciou que seria o chefe executivo responsável pelo mais luxuoso e badalado projecto gastronómico da cidade - o JNcQuoi - eu, tenho de confessar, fiquei a pensar que alguma coisa não bateria certo. Não por duvidar de alguém que, entre outros cargos, foi sub-chef nessa instituição que é o Ritz, mas por não perceber - num país ainda rendido ao encanto das estrelas Michelin - como se compatibilizaria um espaço de híper luxo (com lojas onde um par de sapatos pode chegar aos 1000 euros) e comida de conforto inspirada em pratos portugueses e internacionais. Sim, esta espécie de "brasserie" concebida com muito bom gosto, com um delibar associado e as tais lojas de marcas só ao alcance de alguns, estaria mesmo a pedir um conceito de "fine dining".

Mas, e vamos a ver, a clientela é mesmo de "fine dining", mas anda felicíssima a provar, nas entradas, salmão fumado, presunto, gambas, burratas, espargos, ostras, caranguejo do Alasca, para seguir com pratos mais a sério, como lombo de bacalhau, caril de gambas, tranche de robalo, piano caramelizado, plumas, costeleta de vitela e essa coisa extraordinária que é a paletilla de cordeiro, que é, por assim dizer, a coxa dos pequenos ovinos antes de começarem a pastar a sério. Servido com um arroz de forno, é um dos pratos mais pedidos no restaurante da Avenida da Liberdade. É ver gente de todas as nacionalidades e habituada a mesas estreladas a abanar a cabeça em sinal de aprovação. Carne tenríssima e gulosa, servida com um arroz viciante. Só não se rapa o fundo do tacho com um pedaço de pão porque, enfim, o ambiente inibe.

Coloco o cordeiro nos píncaros, mas poderia fazer isso com o caril (perfumado como poucos) ou com umas simples fatias de presunto Maldonado. O que verdadeiramente interessa é sublinhar que a selecção exigente dos produtos está a cargo de um chefe que os transforma em pratos cheios de sabor e que, de alguma forma, nos ajudam a desenjoar de uma certa cozinha experimentalista (certa, não toda).

Não sei quem na família Amorim se lembrou de conceber um projecto de luxo com comida tradicional, mas que teve rasgo, lá isso teve. E é bem provável que tenha inaugurado um novo conceito de restauração.

Quanto a preços, pois, bom, duas pessoas poderão, no restaurante, almoçar ou jantar por €100 (vinhos incluídos). No Delibar, fica bem mais barato. O preço das farpelas e das loiças é que é mais complicado. Talvez com saldos a 90% se possa comprar um par de sapatos. Talvez.





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comentários mais recentes
EM PORTUGAL, EXISTEM COZINHEIROS E NÃO "CHEFS" ! Há 1 semana

Nós, Portugueses, não somos pequenos.
Fazemo-nos pequenos.
Porque digo isto ?

Em matéria de gastronomia e doçaria, Portugal dá cartas, em qq parte do mundo, deixando a salivar, quem prova a nossa cozinha.
Não nos diminuamos, pois, e deixemo-nos de "fine-dinigs", estrelas Michelin e "chefs".

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