Weekend Cristina Fonseca: Uma mulher ambiciosa é malvista

Cristina Fonseca: Uma mulher ambiciosa é malvista

É uma jovem estrela do empreendedorismo. Mas para chegar ao sucesso trabalhou dia e noite na Talkdesk, a start-up que criou com um ex-colega do Técnico. Quando estava na crista da onda, decidiu sair de cena. Agora é conselheira e investidora em start-ups. Foi uma das oradoras da conferência “Creating an Innovation Economy”, da Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento.
Cristina Fonseca: Uma mulher ambiciosa é malvista
Bruno Simão
Filipa Lino 07 de dezembro de 2017 às 10:57
Aconteceu tudo muito depressa. De engenheira recém-diplomada a jovem estrela do empreendedorismo foi um pulo. Mas para lá chegar teve de trabalhar dia e noite na Talkdesk, a start-up que criou em 2011 com um ex-colega do Técnico e que a levou para Silicon Valley. Quando estava na crista da onda, decidiu sair de cena. Agora é conselheira e investidora em start-ups. Foi uma das oradoras da conferência "Creating an Innovation Economy", promovida pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.


"Toda a sociedade diz: se trabalhares muito, a probabilidade de colheres frutos é maior. Cheguei à conclusão de que não é necessariamente assim." Foi preciso tempo para Cristina Fonseca aprender esta lição. A co-fundadora da start-up Talkdesk, uma plataforma que permite criar um call-center na internet em poucos minutos, escalou a montanha do sucesso muito rapidamente. Tão rápido que deu nas vistas e foi distinguida pela revista Forbes, juntamente com o sócio Tiago Paiva, na lista "30 under 30", que destaca jovens talentos do empreendedorismo em várias áreas. No início de 2016, surpreendeu o mercado quando anunciou que iria deixar o "leme" da empresa. "Aconteceu tudo ao dobro da velocidade", começa por dizer. No mundo das start-ups, é preciso ser mais rápido para poder competir com grandes empresas. A engenheira de telecomunicações teve de aprender a gerir e a contratar num curto espaço de tempo. O ritmo era frenético. "Trabalhei durante cinco, seis anos de dia e de noite. Fazia o turno de Portugal, dos EUA, nunca parava. Eu respirava Talkdesk 20 horas por dia", recorda. "Estava muito cansada."

A falta de descanso alterou-lhe o metabolismo e chegou a ter uma tendinite grave por uso excessivo do computador. Na sua história clínica já tinha registado um susto. Foi quando ainda estava a tirar o mestrado. Ficou gravemente doente com uma pneumonia e esteve uma semana internada nos cuidados intensivos, ligada ao ventilador. "Os médicos disseram aos meus pais que havia 50% de probabilidades de eu sobreviver", conta. Em parte, foi essa experiência negativa que a fez não querer ir trabalhar para uma empresa quando terminou os estudos. Uma decisão incompreendida pelos professores, tendo em conta que era uma boa aluna, o que lhe garantia boas oportunidades de trabalho em grandes empresas. "Não queria ser só mais uma pessoa numa PT ou numa consultora. Queria fazer alguma coisa com impacto." O caminho que lhe pareceu mais óbvio foi ser empreendedora. E levou essa decisão a sério. Tão a sério, que foi "sugada" pelo trabalho.

Estava a chegar aos 30 anos (completou-os este mês) e havia uma "lista cada vez maior de coisas que queria fazer na vida". Angustiava-a pensar que, afinal de contas, aquele ritmo acelerado não era só uma fase. Agora continua como accionista maioritária da Talkdesk, mas não interfere nas decisões do dia-a-dia. Gosta de dizer que tem um ritmo de vida "sustentável". Dorme mais, tira fins-de-semana, tem mais tempo para a família. Voltou a ter uma rotina. "Consigo ler, ir para casa e não ligar o computador", algo que era impensável quando estava na empresa, diz.

A Talkdesk tornou-se um "barco" muito grande. Emprega actualmente cerca de 300 pessoas que estão repartidas por três escritórios, dois em Portugal e um nos EUA. E pensar que tudo começou quase como uma brincadeira de dois jovens engenheiros que resolveram candidatar-se a um concurso de empreendedorismo lançado por uma empresa norte-americana em 2011, cujo prémio era um computador. Cristina Fonseca e o colega de curso Tiago Paiva, acabadinhos de sair do Instituto Superior Técnico com um diploma em Engenharia de Telecomunicações, andavam a testar umas "coisas". Decidiram concorrer com o projecto de um call-center armazenado na internet. A ideia ganhou o primeiro prémio e um passaporte para uma das melhores incubadoras do mundo, em Silicon Valley, a 500 start-ups. Rapidamente entraram na mira dos investidores. Foi assim que, em Outubro de 2011, nasceu a Talkdesk que, desde o início, levantou mais de 24 milhões de dólares em quatro rondas de financiamento.

Quando saiu da empresa, Cristina tirou seis meses para viajar, precisava de "descomprimir". Depois foi estudar para os EUA. Esteve cinco meses no "campus" da NASA, em Silicon Valley, a fazer um curso integrado no programa Singularity University, que liga as novas tecnologias às soluções para os problemas da humanidade. Um tema que muito a motiva. Nos últimos tempos, tem trabalhado com start-ups portuguesas. Umas vezes como conselheira, outras fazendo "pequenos investimentos" em empresas na área tecnológica, "que estão feitas para escalar, para ir para fora e serem referência no mercado mundial". Está entusiasmada com os projectos que tem em mãos. "Dá-me um gozo especial fazer nascer alguma coisa."

A experiência acumulada faz com que seja chamada muitas vezes para falar de empreendedorismo. Recentemente foi uma das oradoras da conferência "Creating an Innovation Economy", em Lisboa, organizada pelo programa da Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento, "Connect to Success", cuja missão é apoiar o crescimento de PME detidas e geridas por mulheres. Cristina Fonseca considera que, na Europa, ser ambicioso é socialmente malvisto. E, nas mulheres, a ambição ainda é mais censurada. "Nos Estados Unidos é normalíssimo", afirma, "é fundamental, eu tenho de ser a primeira a querer o melhor para mim".

Ser mulher no "Bro Club"

O mundo das tecnologias ainda é sobretudo masculino. Este ano, a Web Summit, a maior feira de tecnologia e empreendedorismo do mundo, que decorreu em Lisboa, onde estiveram quase 60 mil pessoas, teve a maior participação feminina de sempre: 42%. O problema começa logo nas universidades, onde a área da engenharia ainda atrai poucas mulheres. No curso de Cristina formaram-se três raparigas numa turma de 40 alunos. Porque é que este é ainda um mundo de homens? Porque há poucas "role models" femininas, responde. Mulheres com as quais as raparigas se possam identificar, desejar ser como elas. Mas, acima de tudo, o grande problema das mulheres, na esfera profissional, é "uma falta de confiança e baixa auto-estima que faz com que não arrisquem mais". Isso nota-se no empreendedorismo, onde elas são "muito mais receosas."

A jovem engenheira teve, de forma "um bocadinho inconscientemente", a preocupação de contratar mulheres para a Talkdesk. E não tem dúvidas: "O facto de eu ser mulher e de ter estado numa equipa de engenharia inicial ajudou a atrair outras mulheres." De facto, explica, "quando no grupo inicial não há uma mulher ou não se consegue resolver esse problema nas primeiras 10 pessoas da empresa, é muito mais difícil a seguir atrair mulheres para as equipas. Cria-se uma cultura dos homens, é o "Bro club". "É por isso que as mulheres às vezes têm problemas na área tecnológica", refere.

Em Silicon Valley sente-se em casa. Mas, neste "habitat" fantástico para empreendedores, não há só virtudes. Aquela "bolha" pode ser perigosa e "há comportamentos que não são saudáveis". Dá como exemplo uma nova moda que circula por lá. Chama-se "microdosing" e consiste em "snifar cocaína em doses muito pequeninas de x em x dias". As pessoas começam a "inventar formas de conseguirem lidar com o stress". No seu caso, ajudou-a o facto de ter estado sempre muito ligada a Portugal. "Isso deu-me uma perspectiva diferente. Estou dentro da bolha, mas consigo distanciar-me o suficiente para ter perspectiva. Quem só está naquele ambiente, "acha que aquilo é normal". Mas não é, sublinha.

Também há coisas positivas. Falhar, por exemplo, é visto como algo natural, faz parte do caminho. E nisso, revela, já tinha experiência. "Quando saímos da faculdade, eu e o Tiago lançámos três produtos e nenhum deles funcionou." Foi com essa aprendizagem adquirida que surgiu a Talkdesk. "Nos Estados Unidos reconhece-se uma pessoa como experiente quando já falhou duas ou três vezes. Faz parte do currículo. Aqui, se eu for a uma universidade e tentar convencer uma pessoa a criar um negócio quando sair da faculdade 'versus' ir para uma grande empresa, ela vai-me dizer: 'Eh pá, se falhar depois não tenho nada no currículo.' É uma visão completamente diferente." Cristina só faz planos a dois ou três meses. O seu lema é: "Ir fazendo aquilo a que a cada altura faz sentido". E se isso significar voltar para os EUA? "Eu vou. Sem problema nenhum!"





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