Livros Democracia: sangue, poder e vinho

Democracia: sangue, poder e vinho

No livro “Democracia”, Abraham Kawa e Alecos Papadatos quiseram recordar Clístenes – aquele que foi “uma adivinha embrulhada num mistério e escondida dentro de um enigma”. Mais conhecido por “o pai da democracia”.
Democracia: sangue, poder e vinho
Alecos Papadatos e Abraham kawa, "Democracia" Bertrand Editora, 240 páginas, 2016
Isabel Aveiro 18 de Novembro de 2016 às 12:00
Estamos no século V antes de Cristo e a cidade-Estado de Atenas prepara-se para a batalha da Maratona. Assim começa o livro "Democracia", de Alecos Papadatos e Abraham Kawa. O ateniense Leandro vai recordar o que o levou até aquele momento. Pessoalmente, isso significa lembrar a morte do pai, a sua fuga para Delfos, (e como as profecias podem ser manipuladas no oráculo) e a paixão por Hero ("ela era o Verão"). Narra a sua história pessoal para narrar um pedaço da história da transformação de Atenas. E, para isso, há que apresentar Clístenes - "uma adivinha embrulhada num mistério e escondida dentro de um enigma".

Estamos em 2016. Numa mesa-redonda no Festival Amadora BD - onde o livro "Democracia" está a ser lançado em Portugal -, Pedro Vieira modera um debate que, além dos autores, inclui Francisco Louçã e Pedro Moura. "Na Grécia, somos malucos por política", reconhece o argumentista Abraham Kawa. "Desde novo, lembro-me de ver os adultos reunidos para discutir política", recorda o desenhador Alecos Papadatos. O livro "Democracia" tem o seu traço - o mesmo, mas diferente, do anterior "Logicomix".

Para contar a história de Leandro, explicam Papadatos e Kawa, nada como a realidade que conhecem e que foi concebida em diálogo permanente entre texto e desenho, que Annie di Donna coloriu, numa Grécia contemporânea, entre 2010 e 2015. "A história [de Leandro, a personagem principal do livro] é sobre um homem comum, não sobre grandes figuras históricas", que tem de enfrentar "uma onda que vem contra si e que não sabe o que fazer", explica o argumentista. "Tentámos colocar o máximo de nós na personagem" Leandro, que tem o dom de dominar a arte do desenho. "Entendo o mundo através de imagens" e estas "contam histórias". E esta "é uma história que é contada para frisar um ponto", acrescenta o desenhador. Entre a puberdade e a maturidade, Leandro vive parte da história complexa de Atenas e conhece (em Delfos) Clístenes. Nas notas com que o livro "Democracia" termina - uma espécie de resumo da história da Grécia clássica para iniciados e esquecidos, e que são importantes para ler em plenitude as 200 páginas de banda desenhada que as antecedem - Clístenes é recordado como "pai da democracia".

"Um oportunista, um grande homem", afirma Alecos Papadatos, Clístenes "era muita coisa para muita gente", mas "o que ele fez mudou a cidade para sempre". Ao organizar a administração sob 10 novas tribos - com representação da costa, cidade e planície do "velho sistema tribal" pelo qual Atenas se regera até então - e elegendo cada 50 conselheiros, estendeu o poder a quem não o tinha. "Por causa das novas tribos", explica na pág. 136 a personagem Leandro a Cinegiro, Térsipo e Ésquilo, "o poder passaria a pertencer à massa do povo, e não só aos aristocratas" que dominavam a cidade-Estado.

"Fascinou-me que tenha acontecido, mais do que porquê", reconhece Kawa na sessão no Festival da Amadora. "As pessoas são complicadas - carne e sangue é complicado." "As pessoas não são desenhos na parede", diz, parafraseando a seu personagem: "A vida não é tão simples como um desenho na parede", diz Leandro na página 16 do livro.

Assumindo um problema de fontes de informação, Kawa explica no livro que o mais "próximo que temos de uma fonte original" são "Histórias" (Heródoto), "História da Guerra do Peloponeso" ( Tucídides) e "A Constituição dos Atenienses" (Aristóteles). "Em alguns casos", escreve, "os historiadores da Antiguidade parecem jornalistas contemporâneos: o que uns apresentam como factos, outros apresentam como rumores sem fundamento, e vice-versa".

Estamos a 22 de Outubro de 2016, a duas semanas e meia das eleições nos EUA, e na mesma mesa-redonda no Festival da Amadora BD, Francisco Louçã admite que "é a primeira vez" que comenta "uma novela gráfica". E argumenta: "Um livro não é um manifesto, é uma forma muito boa de começar uma discussão." Pedro Vieira pergunta aos autores: "O processo de democracia implica sempre sacrifício?" "Não é tanto sobre sacrifício", responde primeiro Papadatos, "mas de esforço" - "um fino encontro entre massa e elite" que visa "consensos", mas que poderá causar "alguma dor", reconhece. "É uma certa dose de dor e sacrifício, sim", concorda, por seu turno, Kawa. Para ele, "a vida" é alternância de "experiências negativas com positivas". Tudo tem de acontecer "com sangue e vinho, sempre", conclui, recordando o mito dos deuses Apolo e Dionísio.







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