Cinema DocLisboa: Chegar ao destino

DocLisboa: Chegar ao destino

Nesta montra do mundo nada é estanque. O cinema documental tem provado que tudo se cruza. Os tempos, os lugares, as experiências. São cartas visuais que vivem com um fim: levar-nos na viagem. Porque não até à lua?
DocLisboa: Chegar ao destino
Wilson Ledo 22 de Outubro de 2016 às 13:00
Foto em cima: Cláudia Rita Oliveira traz um filme sobre o artista português Cruzeiro Seixas. 


Não tenhamos dúvidas: este é o trabalho de uma equipa com diferentes histórias de vida. Juntemos, na dose apropriada, diálogo e pesquisa. "Há muitos momentos de discussão", conta a directora do DocLisboa, Cíntia Gil. E ainda bem. É desta matéria que se faz o festival.

Já lá vão 14 edições. A vontade mantém-se forte como no primeiro dia. Como trazer o melhor do cinema documental sem fechá-lo, colocar-lhe rótulos ou repetir fórmulas gastas? Não daremos a resposta. Para a ter, nada melhor que circular, de 20 a 30 de Outubro, entre quatros salas de Lisboa. Da Culturgest à Fundação Calouste Gulbenkian, do Cinema São Jorge à Cinemateca Portuguesa.

Há 259 filmes para descobrir. Neles, 41 países, comprovando o lema de que, "em Outubro, o mundo cabe todo em Lisboa". Não se esquece o espaço de Portugal, nem sempre com a dimensão que se deseja. "Isso é uma fatalidade. Todos os festivais têm menos filmes portugueses do que gostariam", admite a directora. Cíntia Gil e a equipa não baixam os braços perante os constrangimentos financeiros e a escala do país. A amostra que aqui se dá a conhecer é "muito forte e diversificada": 46 filmes, 13 deles a disputar prémios.

Já "Correspondências" recupera as cartas entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena.
Já "Correspondências" recupera as cartas entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena.

Um na competição internacional. Falamos de "Correspondências", longa-metragem inspirada nas cartas trocadas entre os escritores Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena durante o Estado Novo. Rita Azevedo Gomes apresentou-o, no passado mês de Agosto, em Locarno. O cinema é, também ele, "correspondência com os outros, uma ligação com aquilo que está distante", diz Cíntia Gil. Mais perto ou mais longe, com diferentes interlocutores, de forma e conteúdo sempre variáveis. É como se o conceito explodisse e contaminasse toda a programação, com a apoteose na secção Riscos.

Mais do que uma mera viagem no espaço, também um rasgar do tempo. De onde viemos e para onde queremos ir? O DocLisboa transforma-se no momento ideal para regressar a Manoel de Oliveira - pelo olhar de Augusto M. Seabra e José Nascimento - e a António de Macedo. É a história deste realizador, exemplo do Cinema Novo Português, que encerra o festival, contada por João Monteiro em "Nos Interstícios da Realidade". Para Cíntia Gil, António de Macedo "não é passado, é presente". Numa longa conversa, desvendam-se etapas do cinema português. Como num espelho, "em que construímos a nossa história".

No percurso não faltam nomes mais contemporâneos como Cláudia Varejão, Edgar Pêra ou Catarina Alves Costa, nunca estanques na prateleira do cinema português. Nunca poderia ser assim no DocLisboa: esta é uma zona de cruzamento. Nada se fixa, como o próprio mundo que se retrata sem que seja possível fixar uma única imagem nessa definição.

Catarina Alves Costa mostra casas rurais do interior algarvio em "Pedra e Cal". A estreia é mundial.
Catarina Alves Costa mostra casas rurais do interior algarvio em "Pedra e Cal". A estreia é mundial.

Tudo à velocidade da luz. Nesta edição, estreia-se uma nova secção: Da Terra à Lua. O nome é culpa do escritor francês Júlio Verne. Aqui se reúnem, fora de competição, autores consagrados do cinema documental. Wang Bing, Avi Mograbi e Werner Herzog são apenas três exemplos. Para quê? Criar um "panorama do presente para discutir o futuro", sintetiza a directora do festival. No fundo, entrar nesta cápsula para ver com outros olhos o que aí vem.

Esse futuro trará mais DocLisboa? "O festival está para durar, mas tem de se adaptar às circunstâncias", reconhece Cíntia Gil. Reconheçamos nele uma equipa "combativa e reactiva" e saibamos que "deixar de o fazer seria um vazio muito grande". Seria uma troca que se perde, como uma carta muito esperada que nunca chega ao destino.

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