Weekend Eduarda Abbondanza: Os criadores portugueses não podem ter roupa barata

Eduarda Abbondanza: Os criadores portugueses não podem ter roupa barata

A Modalisboa muda de casa, pela primeira vez em seis anos. É o mote para fazer um retrato de um sector onde faltam investidores. Eduarda Abbondanza crê que o esforço pode ir além. Qualidade é a chave para vender criatividade. Sem barreiras.
Eduarda Abbondanza: Os criadores portugueses não podem ter roupa barata
Bruno Simão
Wilson Ledo 10 de março de 2017 às 14:00
Primeiro, a moda como arte. O desfile, a maquilhagem arrojada, a leveza dos tecidos. E, por trás de tudo isso, um negócio em potencial. Não haja dúvidas: a criatividade também tem de se saber vender.

É uma missão da Modalisboa desde a primeira edição. A directora Eduarda Abbondanza reconhece de imediato. "A nossa grande dificuldade neste processo todo de 25 anos foi que a moda também fosse encarada como uma actividade, uma transacção, um comércio."

O chavão das indústrias criativas soube afirmar-se, colocar-se acima das tendências passageiras. E a moda lá assumiu o seu lugar. "Em termos formais, a aceitação da moda portuguesa está feita." O "comum" português conhece os criadores, segue os seus trabalhos, nutre admiração.


Um dos destaques desta Modalisboa vai para as conferências, com a Global Fashion Exchange, sobre sustentabilidade na moda. Há ainda Sangue Novo, a plataforma que procura novos talentos. Outro dos pontos fortes é o Wonder Room, dedicado às start-ups na área das indústrias criativas. Sem esquecer os desfiles de nomes consagrados.


Comprar é outra conversa. "Os criadores portugueses não podem ter roupa barata. Trabalham em séries limitadas e isso tem um valor acrescentado. A produção em Portugal é relativamente sustentável." Nem vale a pena ter a ilusão de que é possível competir com as marcas de massas. Ninguém lhes consegue resistir.

"Muitas vezes não estamos sequer à procura de qualidade, mas de uma peça para vestir logo à noite para jantar. Resolve ali o problema, tapa aquele buraquinho." E vai-se prolongando o paradigma. A montante, torna-se mais notório um problema: falta de investimento em moda.

Os radares mundiais têm apontado para outras geografias. "Portugal não teve nunca esse investimento para moda. E não tem porque é preciso muita informação, muita cultura do próprio sector." Trabalhar marcas nesta área implica tempo, impede resultados imediatos. É preciso conquistar quem tem dinheiro para aplicar. "Depois começar a colher, sim."

Conta, peso, medida

A moda portuguesa tem-se afirmado além-fronteiras. "É inevitável. Não vou pensar que todo este trabalho não resulta em nada." Eduarda Abbondanza sabe que os números também são precisos. "Só com bases reais, se a indústria está a exportar e a vender, é que é possível avaliar."

Avalie-se então. Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística citados pela Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) mostram que, no ano passado, as exportações do sector ultrapassaram a fasquia dos cinco mil milhões de euros, antecipando um objectivo que estava traçado apenas para 2020.

Dados mais completos só estão disponíveis para 2015. Nesse ano, a produção superou os 6.350 milhões de euros, com 75% desse total a ser exportado: Espanha, França e Reino Unido são os principais destinos.

Os dados da ATP mostram ainda que a indústria têxtil e de vestuário representa quase 130 mil postos de trabalho, fazendo-se sentir a sua influência sobretudo no Norte do país. São cerca de seis mil empresas, sobretudo de pequena e média dimensão.
Os modelos desfilam na  "passerelle" improvisada no Pátio da Galé, durante a passagem dos novos criadores Sangue Novo, em Outubro de 2016.
Os modelos desfilam na "passerelle" improvisada no Pátio da Galé, durante a passagem dos novos criadores Sangue Novo, em Outubro de 2016.
João Miguel Rodrigues/Correio da Manhã
"Em Portugal, temos uma indústria relativamente organizada e de boa qualidade. É muito importante isso, num mundo global. Não se vai competir com uma China em termos de produção." É então na qualidade que está o mote. E há bons exemplos para mostrar que isso é possível.

À cabeça vem, de imediato, o sector dos sapatos, que se afirmou como a "indústria mais sexy do mundo". "Está comprovado, é inquestionável. Quando um sector toma a primazia, tem o arrojo de a tomar, os outros vão atrás. Nem que seja por uma questão de competição. Isso é muito bom. Não acontecia há muitos anos." Mas fica o conselho: não é para ser igual, é para ser um exemplo, diz a directora da Modalisboa.

Ciclos e mudanças

Eduarda Abbondanza acredita que os estágios são "a melhor maneira" de ingressar no mercado de trabalho em moda depois da universidade. Numa empresa que funciona, o estagiário "não é propriamente a última bolacha do pacote. É esforço."

Por isso, é preciso desmontar um sistema que só assenta nesse tipo de força de trabalho. "Estamos a viver um mundo em que a qualidade está muito em baixo. Vamos lá com calma, estamos mesmo a bater no fundo. Não há nenhuma história de mérito. Procura-se até currículos mais baixos para se pagar o mais baixo possível, para contratos miseráveis. Isso não produz excelência."


Para as histórias que contrariam esta tendência, há o palco da Modalisboa. De 9 a 12 de Março, no Centro Cultural de Belém - a primeira mudança de casa depois de seis anos no Pátio da Galé. E, a partir daqui, um novo espaço a cada edição. "Boundless", sem limites, como o lema que define o evento. A criatividade não deve ter barreiras até porque a moda deixou de ser uma "coisa de extravagantes".

Para a directora da Modalisboa, Portugal veste-se bem. "Já lá vai o tempo de se falar mal das coisas. Os portugueses têm é poucos recursos ainda. O país não tem tradição de marcas." É difícil para as insígnias portuguesas afirmarem-se. E as estrangeiras? "Já era horinha de virem mais. Tudo era horinha de mexer."

E, para fim de conversa, um pedido. "Posso deixar? Não é Natal, mas fica já a carta. Gostava que existissem mais lojas multimarca na área dos criadores nacionais em Portugal. É só um desejo. Alguém começa e tem sucesso e vai ver a praga que é. Nós adoramos copiar."



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