Weekend Esta coisa a palpitar-me nas mãos

Esta coisa a palpitar-me nas mãos

As palavras não são as mesmas quando lidas ou ditas. A morte sabe diferente. Neste jogo de frases há uma plateia, iluminada, que lê. Ou assiste. Aqui podemos escolher.
Esta coisa a palpitar-me nas mãos
Vitorino Coragem
Wilson Ledo 10 de fevereiro de 2018 às 11:00
Se eu vivesse tu morrias - O espectáculo de miguel castro caldas, reconhecido com o prémio de melhor texto representado em 2016 pela sociedade portuguesa de autores, voltou esta semana à culturgest, em Lisboa.


À entrada, é-nos entregue um livro. Com ele, a necessidade de escolher. "Se eu vivesse tu morrias" inicia-se ainda antes de os actores entrarem em palco. Começa no exacto momento em que os primeiros espectadores folheiam o volume que têm em mãos - intrigados ou talvez movidos pela tendência natural de enfrentar o desconhecido.

A abrir, ouve-se a leitura de uma errata. Um aviso claro de que o processo de escrita, como aquilo que pode acontecer em cena, tem falhas. Durante hora e meia, é-se confrontado com um dos limites do próprio teatro: o texto. Enquanto espectador, é preciso decidir o que acompanhar. O palco e a leitura disputam a atenção, mesmo que ler também seja ver (de outra forma).

A princípio dá-se tempo para que o público possa ler. Os actores esperam, depois fazem. Há um desconforto pela sinceridade e pela simplicidade com que se desconstrói a barreira textual. Partimos com a ilusão de quem quer ver algo pela primeira vez. E deixamos de tê-la pouco depois. Deixamos também de ter esse tempo para nos prepararmos.


Lígia Soares, Miguel Loureiro e Tiago Barbosa são os anfitriões desta aventura. A escuridão do palco mantém-se. Apenas os seus rostos são visíveis. Ao contrário do habitual, é o público que está iluminado. Miguel Castro Caldas, o encenador, sabe também quando inverter esta nova ordem que se toma como natural - o espectador deixa de decidir qual dos suportes quer seguir, tem de se concentrar na cena.

As palavras aqui não pertencem ao passado, não estão mortas. Vêm em fluxos, como raízes que se instalam nas nossas cabeças. Aprendemos o seu poder para criar realidades, para descrever o que nos parece impossível, para fazer amor. Vemos o que não está em frente dos nossos olhos. E, quando elas falham - por efeito de luz ou pelos actores que deixam, propositadamente, de seguir à risca o que está no texto entregue à plateia - sentimo-nos perdidos.

"Se eu vivesse tu morrias" é feito de metáforas e pistas. História simples de um casal caído em rotina até que surge um amigo de longa data e, com a sua presença, se ergue um plano de traição. Bem-disposta, leve, quase a contrastar com o exercício de reflexão que se espera do outro lado da acção, na plateia que lê.

Só na fase final da peça, quando já este desafio da leitura e da visão parece interiorizado, a morte começa a protagonizar, de forma clara, o discurso. Durante todo aquele tempo, a actriz teve um coração cosido do lado esquerdo da camisola cinzenta, a avisar-nos do que aconteceria. Talvez não tivéssemos prestado atenção, entretidos que estávamos com os livros. Multiplica-se a urgência da despedida. Morrer é da ordem natural, ouve-se. Mas o medo é algo que estará sempre lá, a espreitar.





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