Weekend Girl, you’ll be a woman soon

Girl, you’ll be a woman soon

Poderá o universo dos filmes de Quentin Tarantino ganhar uma nova vida em palco? As personagens surgem num noutro contexto, mas não se deslocam do passado. Preguiça do espectador? Longe disso.
Wilson Ledo 21 de julho de 2018 às 09:00
Motel QT - Os alunos finalistas da ESTC apresentaram-se no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, de 11 a 15 de julho.

O desafio era um tanto ou quanto ingrato: apropriar-se das personagens da filmografia de Quentin Tarantino, tirá-las do contexto e criar uma nova história. Poderia dizer que é a de um filme, o 11º, que o realizador nunca fará.

Cocaína sem necessidade de pesar, uma corrente de palavrões que o português permite diversificar em relação ao inglês, artes marciais e sabres orientais sempre afiados e certeiros nos golpes. E tudo se junta no deserto da Califórnia, no espaço do solitário Motel QT. QT, as iniciais do realizador que, lidas em inglês, fazem ouvier "cutie". Fofinho, lá está.

Misturar as personagens e os enredos dos filmes não é uma tarefa sem precedentes. Basta visitar alguns fóruns e ler alguns artigos para perceber que o universo ficcional de Tarantino é coeso. Filmes como "Pulp Fiction", "Kill Bill" ou "Cães Danados" têm ligações, seja pelo enquadramento dos planos, pelas deixas ou parentescos das personagens.

Um dos casos mais vezes citado é quando, em "Pulp Fiction", a protagonista Mia Wallace conta o enredo do filme em que participou como actriz. Bate, certeiro, com o que se passa em "Kill Bill". Nos dois casos, é Uma Thurman quem dá vida às personagens. Há, assim, nos filmes de Tarantino dois níveis de ficção: o nível das personagens e o nível dos filmes que elas vêem.

Apesar da tentativa de distanciação, os alunos finalistas da Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC) não deixam de utilizar, na íntegra, frases do grande ecrã. Tão icónicas e tão facilmente reconhecíveis. É o caso dos diálogos entre Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) em "Pulp Fiction" sobre massagens nos pés ou sobre a diferença do nome dos hambúrgueres do McDonald's em França e nos Estados Unidos. De "Kill Bill" vem um motivo para reflectir: "Clark Kent é a crítica do Super-Homem a toda raça humana".

Na encenação, Ricardo Neves Neves não cultiva a geometria de trabalhos anteriores: não podia, até pela dinâmica de movimentos das personagens de Tarantino. O seu cunho torna-se mais visível na componente gráfica do espectáculo, onde uma projecção introduz amiúde o seu bom humor. É aqui que o sangue, tão recorrente nos filmes do realizador, marca presença em palco. Muitos tiros, muitos risos. De resto, um palco muito limpinho.

Outro dos momentos interessantes é aquele em que duas personagens, em grande intimidade, desconstroem a própria estrutura do teatro através das suas palavras, dando conta de que ali existe sinaléctica e uma luz de emergência que "em pleno século XXI impede o 'blackout' no teatro".

Descolar do mundo do cinema de Quentin Tarantino é difícil, repetimos. Não porque o espectador seja preguiçoso, mas antes porque estas personagens têm tanto carisma, tanta história associada, que vivem já por si. Para estes futuros actores, que agora iniciam o seu percurso profissional, foi uma tentativa arriscada e um exercício importante de (re)leitura dos argumentos. É preciso que eles agora cresçam, façam um "pouco de autocrítica". Como na canção dos Urge Overkill, indissociável da narrativa de "Pulp Fiction": "Girl, you'll be a woman soon…" .





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