Weekend Gonçalo Byrne: Goste-se ou não, a cidade é antes de tudo um produto financeiro

Gonçalo Byrne: Goste-se ou não, a cidade é antes de tudo um produto financeiro

A chamada gentrificação é uma das formas de reabilitar o centro da cidade, espero é que não seja a única, diz o arquitecto português, apontado como um dos grandes defensores de uma arquitectura ao serviço da vida. Acaba de ganhar um concurso internacional para a construção de uma “Cidade da Música”, em Genebra, disputado por nomes como Norman Foster e David Chipperfield.
Gonçalo Byrne: Goste-se ou não, a cidade é antes de tudo um produto financeiro
Miguel Baltazar
Tem sido apontado como um dos grandes defensores de uma arquitectura ao serviço da vida. "Nós projectamos contentores de vida", costuma dizer. Mostra-se satisfeito com as novas praças de Lisboa, mas receia que o centro da cidade fique órfão de cidadãos. Que fique despojado de vitalidade não turística.

Diz que a chamada gentrificação está a espelhar-se nos traços arquitectónicos. Com um trabalho reconhecido internacionalmente, Gonçalo Byrne assina projectos como o Teatro Thalia, em Lisboa, e a requalificação da zona envolvente ao Mosteiro de Alcobaça. Acaba de ganhar, com o suíço Pierre-Alain Dupraz, um concurso internacional para a construção de uma "Cidade da Música", em Genebra, disputado por nomes como Norman Foster e David Chipperfield. A arquitectura de diáspora evitou que fechasse o seu ateliê, mas não evitou um despedimento colectivo na empresa. Está lentamente a recuperar. Gonçalo Byrne regressou agora de um périplo por Itália para dar a conhecer a arquitectura portuguesa, uma iniciativa da nova Casa da Arquitectura, que abre as portas no dia 18 de Novembro em Matosinhos.


Gonçalo Nuno Pinheiro de Sousa Byrne nasceu há 76 anos na terra dos avós, em Alcobaça, e viveu muito tempo junto às antigas minas da Urgeiriça, na Beira Alta. Fez o segundo ciclo da escola em Leiria, onde conheceu o arquitecto Camilo Korrodi, filho do desenhador suíço naturalizado português, Ernesto Korrodi, autor de obras como o restauro do Castelo de Leiria e apontado como um dos arquitectos mais bem-sucedidos da Arte Nova em Portugal. Gonçalo Byrne gostou daquele mundo que conheceu por dentro. Mais tarde, cruzou-se com o romance "The Fountainhead", de Ayn Rand, inspirado na vida do arquitecto Frank Lloyd Wright. No 5.º ano de liceu, a opção estava tomada. Desviou-se do caminho do pai, que era engenheiro de minas, e seguiu arquitectura. Estudou na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, trabalhou com Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, bebeu conceitos políticos e herdou uma visão algo antropológica da arquitectura. Um ano após o 25 de Abril, abriu um ateliê na Rua Ivens com o arquitecto António Reis Cabrita, e, anos mais tarde, criou o seu gabinete, na Rua da Escola Politécnica, também em Lisboa. É lá que nos encontramos.

 

Tem cinco filhos e 11 netos. Algum deles seguiu a área de arquitectura?

A minha filha mais velha seguiu arquitectura paisagística. De resto, mais ninguém. O meu pai era engenheiro de minas, os meus irmãos também estão mais ligados à área de engenharia, assim como os meus filhos. O gene da engenharia está na família. E acho que os meus filhos também perceberam que os arquitectos estão pouco tempo em casa e que a profissão implica uma vida dura e muito vulnerável às oscilações de mercado, sobretudo em Portugal. Mas quem corre por gosto não cansa, e eu gosto. Estamos agora lentamente a sair da crise, mas durante quatro ou cinco anos houve momentos em que pensei que teria de fechar o ateliê. Sobrevivemos apenas porque continuámos a fazer concursos no estrangeiro, em países como Itália e Suíça. Recomeçamos agora a ter trabalho em Portugal. Neste momento, trabalham aqui 15 pessoas, em 2011 trabalhavam 43. Foi um período muito difícil, até porque havia arquitectos fantásticos a trabalhar connosco há muito tempo. A boa notícia é que, um ano após essa saída dolorosa chamada despedimento colectivo, praticamente todos esses arquitectos já tinham trabalho, mas mais de metade estavam no estrangeiro, em diversos países, onde foram muito bem recebidos.

 

Tem havido uma arquitectura de diáspora, como costuma dizer.

Durante os anos de crise, a arquitectura portuguesa foi sobretudo uma arquitectura de diáspora. Foram poucos os ateliês que sobreviveram com trabalhos exclusivamente em Portugal e muitos jovens procuraram trabalho na Europa, no Médio Oriente, em África, na Tailândia, na China… Foram muito bem recebidos porque, de facto, existe uma boa formação em Portugal. Vou frequentemente à Suíça, onde existem gabinetes de arquitectos que têm dois, três, cinco ou seis jovens arquitectos portugueses. Na Dinamarca, acontece o mesmo. Ou na Finlândia. Em Inglaterra...

 

Muito do investimento na reabilitação do património está a ser gerido por gabinetes de arquitectura estrangeiros. 

 

O mercado português voltou a chamar os arquitectos?

Recomeça a aparecer trabalho em Portugal na área da reabilitação do património, mas há um fenómeno pouco conhecido: muito do investimento na reabilitação do património português está a ser gerido por gabinetes de projecto estrangeiros. As grandes empresas imobiliárias estrangeiras trazem os seus arquitectos e, quando muito, pedem ajuda aos portugueses para tudo aquilo que tem que ver com problemas locais e burocráticos. Toda esta reabilitação de grande escala está a ser feita por promotores imobiliários que vêm da China, dos Estados Unidos, Inglaterra, Europa, Brasil…, que compram tudo, tudo mesmo, até escritórios que estavam completamente parados.

 

O facto de as imobiliárias estrangeiras trazerem consigo os seus próprios gabinetes reflectir-se-á em termos arquitectónicos, não?  

Esses gabinetes, geralmente, têm formas de actuação muito particulares, com modelos que têm pouco que ver com uma visão mais local. Isso é algo que está muito presente na hotelaria, por exemplo. A chamada gentrificação está a espelhar-se na arquitectura. Conheço muitas intervenções de arquitectos portugueses, por exemplo, na reabilitação de edifícios na Baixa Pombalina e duvido muito de que uma imobiliária inglesa seguisse o mesmo tipo de intervenção. É outro mundo, é outra cultura, estão mais interessadas, por exemplo, em apostar num bom decorador para o interior dos edifícios… Mas existe uma boa arquitectura portuguesa que já consegue chegar a um mercado de uma certa qualidade e de um certo luxo e que, embora seja uma expressão contemporânea, está interessada nessa relação com o local onde está inserida.

 

Em 2008, dizia numa entrevista: Lisboa está a perder protagonismo e potência económica. Veja-se este exemplo da Baixa da cidade. Primeiro despovoou-se de residentes e vieram os bancos. Depois saíram os bancos que foram para a periferia! A seguir vieram os escritórios que, entretanto, também já saíram e que estão naqueles cachos juntos à auto-estrada. E agora, como olha para Lisboa?

Em Portugal, o movimento da decadência dos centros históricos arrastou-se durante muito tempo. Não falo apenas de Lisboa, falo de Alcobaça, de Leiria, de Portalegre, entre outras cidades de província. Entre 1980 e 2000, o concelho de Lisboa perdeu 200 mil habitantes, e esses habitantes estavam sobretudo na zona histórica. Os edifícios ficaram vazios, não houve manutenção e começou um processo de ruína. Hoje existe claramente uma retoma. E, pela primeira vez, de há oito a dez anos para cá, assistimos a um trabalho de planificação com medidas concretas de investimento. Um dos grandes instrumentos para reabilitar uma cidade é o investimento no espaço público – essa foi a lição de Barcelona a partir de 1972 até aos Jogos Olímpicos. Se se melhorarem as praças e as ruas, reabilita-se a cidade. Só que tudo isto começou a acontecer muito tardiamente e essa é a minha grande crítica à Câmara de Lisboa.

 

Por vezes, sente-se que as obras estão a ser realizadas sem atenção ao dia-a­-dia dos habitantes, numa ânsia de recuperar "tempo perdido". 

Para mim, tudo aquilo que se fizer em Lisboa, nesse sentido, já vem com atraso. Finalmente, a cidade tem um Plano Director Municipal que está claramente em vigor e há, pela primeira vez, uma visão dinâmica da gestão urbana. Um dos projectos mais interessantes foi o programa "Uma Praça em cada Bairro", e daí decorreu a continuidade das ciclovias, a restrição do estacionamento e, sobretudo, a restrição do trânsito que vem de fora para o centro da cidade. Trata-se da sobrevivência da cidade.


 

Mas não há transportes públicos a responder às necessidades dos cidadãos.

Agora, a Carris já é gerida pela Câmara mas, de facto, esteve completamente descapitalizada durante os últimos anos, reduziu a frota de autocarros quase para metade, reduziu o número de condutores, e ficou exausta e desequipada. Mas agora existem programas de reinvestimento. Se não estou tão optimista em relação à cidade, é apenas porque acho que tudo isto demorou demasiado tempo.

 

Foi um defensor do projecto de requalificação da Segunda Circular, que envolve um corredor arborizado, plano que gerou alguma polémica.

Este tipo de operações foi feito em Londres, por exemplo, a partir dos anos 50. A Segunda Circular, hoje em dia, é uma via urbana, não faz sentido algum ser entendida como uma auto-estrada. É uma das zonas mais densas de Lisboa, que engloba Benfica, Sete Rios, Lumiar, Campo Grande e estende-se até a uma zona que, quanto a mim, constitui uma das centralidades mais fortes de Lisboa, e que é o Parque das Nações. Do ponto de vista da vitalidade, o Parque das Nações é hoje mais forte do que a Baixa de Lisboa.

 

A gentrificação é uma das formas de reabilitar o centro, espero é que não seja a única. Se Lisboa pode ser uma Dubrovnik? Pode.  

 

Mais forte do ponto de vista de vitalidade cidadã?

Sim, de vitalidade não turística. Há uma grande diferença entre a vivência do cidadão e a vivência do turista. Também existe muito turismo no Parque das Nações – o crescimento do movimento turístico na cidade disparou a partir de 1998, com a Expo, que marca claramente o "turning point" –, mas existem mais residentes permanentes do que residentes turistas, enquanto na Baixa começa a acontecer o contrário. Com os Airbnb, o valor das rendas de longa duração disparou e as pessoas estão de novo a sair da Baixa. Estão a ser tomadas medidas para normalizar a situação, mas a legislação não consegue acompanhar a velocidade daqueles mecanismos de mercado e de aluguer da cidade. São mecanismos que surgem para responder às grandes avalanchas turísticas e que se apoiam em tecnologias emergentes potentes. Há um efeito surpresa e a legislação não consegue responder de imediato.

 

Há pouco, falava da chamada gentrificação…

…a  gentrificação é uma das formas de reabilitar o centro, espero é que não seja a única. Caso contrário, Lisboa corre o risco de gerar mecanismos de exclusão, um dos dramas das cidades contemporâneas. É um problema global. Ao visitarmos o Terraço Itália, em São Paulo, por exemplo, parece que estamos a assistir ao "Blade Runner". Ao pôr-do-sol, a cidade começa a escurecer e há um movimento louco de luzinhas. São dezenas ou centenas de helicópteros dos senhores que saem dos seus escritórios e vão para casa. Os condomínios têm heliportos e os seus donos já nem sequer põem os pés no chão. Existem as ilhas dos ricos, mas também as ilhas dos pobres. Em Lima, no Peru, há um bairro social projectado pelo arquitecto Enrique Ciriani. Era belíssimo. Hoje está murado e às suas portas estão habitantes armados que não deixam entrar nem sair ninguém. É um gueto.

 

É a segregação nas grandes cidades.

O Colombo, por exemplo, é um espaço aberto ao público, mas está discretamente vigiado. Se entrarem dois ou três pedintes ou um tipo com mau aspecto, há um tipo da Securitas que os expulsa. O "shopping mall" da Baixa não é o Colombo e eu espero que não venha a ser. A questão é: porque é que a cidade segrega grupos?

 

A capital corre o risco de ficar uma cidade vazia de cidadãos, uma não-cidade?

Espero que não, mas em Veneza, onde vou com frequência, isso já acontece. Aquela cidade é tendencialmente uma Disneylândia. Imagino-a como um barco de cruzeiros gigantesco ancorado num sítio.

 

E Lisboa pode ser uma Dubrovnik?

Pode. Devo salientar que, apesar de tudo, estou optimista porque sinto que, pelo menos, quem faz a gestão urbana – conheço bem o responsável, o arquitecto Manuel Salgado – está muito consciente do problema. Mas a questão é complexa… Quem é que tem capacidade de fazer cidade? A cidade é de todos e não é de ninguém. Nós, arquitectos, estamos convencidos de que se nos deixassem fazer a cidade, a cidade seria um paraíso. Mas, se um dia, me disserem que a cidade vai ser entregue aos arquitectos, eu emigro para outro país. Ia ser o fim da picada….

 

Porquê?

Os arquitectos, por si só, não fazem nada. Se não tiverem um cliente, não há arquitectura. Sempre foi assim na História. Quem é que decide, de facto, sobre a cidade? É quem investe nela. Goste-se ou não, a cidade é, antes de tudo, um produto financeiro.

 

Assistimos à reabilitação de prédios e fachadas. O antigo é sempre bom?

Hoje em dia, parece que um edifício velho ganhou um direito especial só por ser velho.

 

 Existe medo do contemporâneo?

Sim. Ainda por cima, é um falso medo. As cidades têm memória e por isso fala-se do património histórico que é, obviamente, importante porque construiu um pouco daquilo que é a identidade das pessoas. Qualquer cidade é como uma impressão digital. Não existem duas cidades iguais. Todas têm uma história em particular e, de certo modo, essa história é uma herança que é interpretada a vários níveis. A memória, para um cidadão de Alfama ou de outro bairro, se calhar, não vai muito além do avô e do bisavô. Um historiador poderá dizer que há ali uma estrutura romana com dois mil anos. Ou seja, existem leituras de vários níveis. E depois há a Direcção­-geral do Património Cultural, feito por historiadores, arqueólogos, arquitectos, engenheiros... E, na gestão desta tutela, nem tudo é pacífico. Por isso é que digo que todos são donos da cidade e nenhum é particularmente dono, ou seja, a cidade é compartilhada. E depois há quem tem poder sobre a cidade, que são aqueles que investem, públicos ou privados. Existem os políticos, que têm de coordenar, e os cidadãos, que também têm uma palavra a dizer. O problema é que não existe uma verdadeira cultura de diálogo. E por isso é fácil aparecer um grupo de cidadãos, como aconteceu há pouco tempo, a insurgir-se contra a demolição de um edifício na Praça das Flores, uma estrutura que não vale um caracol, e contra a construção, em seu lugar, de um edifício contemporâneo do arquitecto Souto de Moura. Se for construído, será provavelmente o melhor edifício da Praça das Flores. Mas, como é contemporâneo…

 

Durante os anos de crise, a arquitectura portuguesa foi sobretudo uma arquitectura de diáspora.  

 

Mas é bom que existam movimentos de cidadãos a exercer, precisamente, a sua cidadania.

Claro que é, o problema é que não existe diálogo. Temos de dialogar mais. Todos nós! Falo dos arquitectos, dos historiadores, dos arqueólogos, dos moradores. Existe um problema cultural de falta de debate e não há a consciência de que a cidade é de todos. Um exemplo: durante a apresentação de um plano de um colega para um parque na zona da Segunda Circular, houve uma sessão pública organizada pela Câmara Municipal. Quando se mostrou o plano, alguns senhores levantaram-se e disseram: esse parque tem de estar todo murado porque nós não queremos pretos lá dentro. Outro senhor levantou-se e disse: não, então onde é que eu vou passear os meus cães…? Nestas discussões, na verdade, não se fala de cidade. Não existe aqui uma verdadeira cidadania. É preciso perceber que, além do interesse pessoal, há uma coisa que se chama cidade, e a cidade é, sobretudo, espaço público.

 

Também enfrentou uma acção cautelar por um movimento de cidadania aquando da remodelação da área envolvente ao Mosteiro de Alcobaça.

Sim. Recebemos uma encomenda da Câmara Municipal de Alcobaça para fazer a remodelação do espaço público à volta do Mosteiro. Fomos divulgando o nosso trabalho, com maquetes, desenhos, folhetos e sessões abertas no Cine-Teatro. Assim que colocámos tapumes à volta da obra, foi organizado um pequeno grupo "ad hoc" de lojistas, políticos da oposição da Câmara e uns tantos moradores, que colocaram uma acção cautelar em tribunal contra nós. Foi uma acção relativamente rápida e ganhámos porque, efectivamente, o nosso trabalho tinha sido divulgado dentro do possível. Antes destas obras, o rossio do Mosteiro era um estacionamento – o nosso projecto contemplava um estacionamento por baixo do largo, mas a oposição da Câmara fez uma guerra ao estacionamento, que acabou por não ser construído. Cinco anos depois das obras, perguntaram-me se seria possível construí-lo. É possível, mas, infelizmente, custará duas ou três vezes mais. Aquele espaço agora é um rossio, usado para eventos como a feira dos doces conventuais, concertos…

 

Costuma citar o arquitecto do Renascimento Leon Battista Alberti, que afirmava que, entre o "restauratio" e o "inovatio", existe o "instituitio". E que "instituir" é, de facto, aquilo que a arquitectura faz. Fala em "contentores de vida".

A arquitectura é feita para ter vida, tem que ver com a relação entre a História e o património e a vida das cidades. O problema dos arqueólogos mais fundamentalistas e dos grupos mais conservadores da cidadania, porque também existem, é que olham para a cidade como se a cidade se pudesse congelar no tempo. Congelar as formas de uma cidade é uma operação impraticável, e ainda bem que o é. Se nada se transformar e adaptar à cidade, ela perde vida. Uma coisa é a cidade construída, outra coisa é a vida que se desenvolve dentro dela. E a vida dos edifícios também acaba quando deixa de haver vida dentro deles. Um edifício pode viver eternamente se eu conseguir adaptá-lo à forma como as pessoas vivem. O centro da cidade de Siena, em Itália, é praticamente todo do Renascimento e está vivíssimo. Os prédios à volta da Piazza del Campo estão completamente habitados.


 

Estudou na Escola Superior de Belas­-Artes de Lisboa em 1968, abriu um ateliê em 1975 e, antes disso, trabalhou com os arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. Imagino que tenha sido influenciado pela sua visão.

Sim, trabalhei num dos melhores ateliês de Lisboa, de Nuno Teotónio Pereira e de Nuno Portas. Entre 1970 e 1974, tivemos uma série de projectos interessantes, como a Universidade de Évora, um grande projecto em Chelas – O Conjunto Residencial "Pantera Cor-de-Rosa". O nosso gabinete era bastante interessante, tinha cerca de vinte e tal arquitectos, quase todos jovens, com a presença muito forte do arquitecto Nuno Teotónio Pereira, excepto nos últimos anos, quando ele esteve preso, e de Nuno Portas, uma das pessoas mais informadas da altura, com uma visão crítica extraordinária da arquitectura, da cidade, da sociedade. Com uma visão muito social.

 

Eram todos politicamente envolvidos?

No 25 de Abril, o arquitecto Nuno Teotónio Pereira estava na prisão, saiu no dia 26, fomos a Caxias e foi uma festa! Antes disso, recebemos umas três visitas da PIDE e era sempre um alvoroço. O ateliê estava muito conotado com os movimentos católicos progressistas, dos quais fazia parte uma série de gente, como Francisco Sousa Tavares, e pessoas de diferentes movimentos políticos, algumas ligadas à cooperativa Pragma. Vivíamos um período de plena ebulição na universidade, havia muitos contactos com a RIA (Reunião Inter-Associações), cheguei a ser representante dessa estrutura na Escola de Belas-Artes e até fui chamado pela PIDE para interrogatórios por causa de coisas relativamente absurdas, mas nunca estive preso.

 

Houve momentos em que pensei que teria de fechar o ateliê. Sobrevivemos apenas porque continuámos a fazer concursos no estrangeiro.

 

Havia oposição política, mas o gabinete mantinha projectos para o Estado.

A relação do regime com este grupo católico progressista era uma relação de desconfiança mas, ao mesmo tempo, havia uma certa tolerância. O Nuno Teotónio Pereira, ele próprio, era sobrinho de um senhor que tinha sido uma figura do regime, o embaixador Teotónio Pereira, embora mantivessem pouco contacto. Mas, claro, nos últimos três anos, a situação extremou-se.

 

O Gonçalo Byrne criou depois o seu próprio ateliê.

O gabinete sobreviveu quase um ano a seguir ao 25 de Abril, eu saí em Março de 1975 e fundei, com o António Reis Cabrita, um pequeníssimo ateliê na Rua Ivens. Tivemos um trabalho da operação SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local), montada pelo arquitecto Nuno Portas quando ele foi secretário de Estado da Habitação. Essa operação incluía equipas com arquitectos, engenheiros e assistentes sociais que trabalhavam uma série de bairros periféricos do país e era um trabalho participado pelos próprios moradores. Havia uma visão inclusiva da arquitectura e da sociedade.  


 

O Centro Português de Arquitectura anunciou um périplo de arquitectos portugueses por várias cidades para dar a conhecer a arquitectura portuguesa e assinalar a inauguração da Casa da Arquitectura – abre as portas em Novembro. Podemos falar numa arquitectura portuguesa? 

Existe uma certa visão portuguesa da arquitectura, que tem uma história que se pode traçar dos anos 50 para diante e que provavelmente tem que ver com um trabalho desenvolvido pelo então chamado Sindicato Nacional dos Arquitectos, e que foi o Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal. É uma obra notável, resultante de várias equipas espalhadas pelo país que andaram a fazer uma recolha sobre arquitectura espontânea portuguesa. Chegou-se à conclusão de que existem diferenças abissais entre a arquitectura no Minho e a arquitectura no Alentejo e no Algarve, ou seja, há uma variação riquíssima de uma arquitectura popular, e isso está na origem de uma visão um pouco antropológica da arquitectura portuguesa, muito ligada aos hábitos locais. É uma arquitectura espontânea, não é uma arquitectura erudita, não é uma arquitectura de arquitectos, é uma arquitectura que as populações constroem, reagindo ao clima, reagindo aos sítios e reagindo aos materiais.

 

Do ponto de vista da vitalidade não turística, o Parque das Nações é hoje mais forte do que a Baixa de Lisboa. 

 

Essa arquitectura espontânea teve repercussões na arquitectura de autor?

Sim, esse Inquérito tem grandes repercussões, em especial na Escola do Porto – mais tarde, Faculdade de Arquitectura do Porto – com figuras autorais ou tutelares como o arquitecto Carlos Ramos, depois com o arquitecto Fernando Távora e, mais tarde, com o arquitecto Siza Vieira – que tem uma obra extremamente informada pela paisagem. E existem outros, como o arquitecto Octávio Lixa Filgueiras e o arquitecto Viana de Lima. Já em Lisboa, este fenómeno da relação com os sítios não entra propriamente na escola de arquitectura, mas entra em determinados ateliês, nomeadamente através dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, e muitos outros.

 

Esta visão algo antropológica da arquitectura continua a manifestar-se?

Essa herança de uma visão muito portuguesa da arquitectura existe, tem é outras formas de se manifestar. Por exemplo, em Lisboa há uma série de arquitectos, até mais jovens, que seguem um pouco essa linha. Existem outras manifestações que formalmente já não têm nada que ver com esta arquitectura histórica, mas que mantêm preocupações em termos da relação com o lugar. A Escola do Porto acabou por ser fundamental para traduzir esta visão da arquitectura mais antropológica, que foi passada de geração em geração, até hoje.






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