Weekend Grada Kilomba: Continuamos, gloriosamente, a contar quantos países falam português

Grada Kilomba: Continuamos, gloriosamente, a contar quantos países falam português

“Portugal ainda está na negação completa. Não sentimos nem culpa nem vergonha na cara em relação à história colonial”. As frases são da artista portuguesa Grada Kilomba. O seu trabalho tem corrido continentes e está pela primeira vez em Portugal, com as exposições “The Most Beautiful Language”, na Galeria Avenida da Índia, e “Secrets to Tell” no MAAT, em Lisboa.
Grada Kilomba: Continuamos, gloriosamente, a contar quantos países falam português
DR
Lúcia Crespo 10 de novembro de 2017 às 12:00
Grada Kilomba não faz "nice art", ela faz "challenging art", convida o público a entrar no seu mundo e a dar novos nomes aos nomes repetidos pela história contada nos livros. Na obra "Illusions", a artista reinterpreta os mitos de Narciso e Eco. Com Narciso obcecado pela reprodução de si próprio e Eco a confirmar a grandeza de Narciso. É uma parábola pós-colonial, descreve. O seu tema de trabalho está ligado às suas vivências. Cresceu na periferia de Lisboa como uma menina negra, como um corpo estranho sem direito a um lugar. "Vai para a tua terra." Estudou psicologia e psicanálise e, à linguagem académica, juntou a linguagem artística. Mora em Berlim, dá aulas na Humboldt-Universität, colabora com o Teatro Maxim Gorki. O seu trabalho tem corrido continentes e está pela primeira vez em Portugal, com as exposições "The Most Beautiful Language", na Galeria Avenida da Índia, e "Secrets to Tell", no MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa. É autora de livros como "Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism", que fala sobre negação, culpa, vergonha, reconhecimento e reparação. Ainda não está editado em Portugal.


O meu tema de trabalho está ligado à minha biografia, às minhas vivências, todas as questões relacionadas com a pós-colonialidade estiveram sempre presentes na minha história, não necessariamente por causa das raízes em São Tomé e Príncipe ou em Angola, ou noutro país, mas pelo facto de ser uma mulher negra ou de ter sido uma menina negra que cresceu na periferia, como muitas outras, e que viveu sempre esta exclusão e este silêncio à sua volta. A invisibilidade é também uma forma de violência e essa questão tornou-se central no meu trabalho: que silêncio é este, porque é que isto é silenciado, o que é que pode ser dito, como é que este passado se reencena no presente?

Quando és criança e te confrontas com determinadas formas de violência, com pessoas a chamarem-te nomes e a insultarem-te diariamente com um "vai para a tua terra", vais questionar: onde é que eu estou, porque é que o meu corpo é visto como um corpo que está fora do seu lugar, porque é que o meu corpo é o corpo onde tanta agressão é exibida e de onde é que vem esta agressão. Estas questões tornam-se proeminentes e, no fundo, começas a destapar toda uma história política e social que é maior do que tu.

Vivemos numa realidade extremamente violenta, que exclui, e que tem que ver com a falta de representação e com a falta de oportunidades para entrar em estruturas e em instituições, e isso é uma coisa constante e que nos tem acompanhado ao longo dos séculos. E ainda está presente. Nós não nos apercebemos, mas está sempre lá. Criamos uma narrativa de normalidade que não é normal. Podemos começar pela pergunta: qual é o teu nome? Temos todos os mesmos nomes e não nos questionamos. Como é que todos nós temos um nome, português, seja em Angola, seja em Moçambique, seja no Brasil ou em Portugal? O que é aconteceu para que milhões de pessoas tivessem perdido os seus nomes? Tudo isto, que nos parece normal, tem uma história de violentação por trás.


Gloriosamente, continuamos a contar quantos países falam português sem nos perguntarmos como é que isso aconteceu. 


Kilomba é o meu nome de família, mas foi um nome proibido durante a colonização portuguesa, tal como foram todos os nomes africanos, que eram erradicados e riscados do processo de registo. Há uma eliminação de toda uma cultura de milhões de pessoas, de línguas, de identidades e nós, gloriosamente, continuamos a contar quantos países falam português sem nos perguntarmos como é que isso aconteceu. Temos uma narrativa extremamente glorificada e romantizada do que foi a história colonial, que é uma história muito brutal e essa brutalidade sempre foi acamada com histórias românticas e muito sexualizadas também. Há toda uma narrativa em torno da sexualidade e da sexualização, que também é violenta e que tem, na verdade, muito mais que ver com violentação. A realidade é uma outra. E todos são maus, toda a violação é má, não interessa se foi duas vezes, se foi quatro, uma violação é uma violação.

É muito importante termos um outro olhar e tentarmos, através da arte, da literatura e de todas as produções de conhecimento, encontrar outro vocabulário e outra narrativa, porque as narrativas dominantes já não servem para contar a nossa história. Estes dois espaços tão bonitos, como a Galeria Avenida da Índia e o MAAT, estão a criar uma agenda nova, futurista, numa geografia tão problemática que é esta, junto ao Padrão dos Descobrimentos e junto de toda esta celebração que foi a história colonial, potenciada durante os anos 1940, no auge do fascismo, com Salazar, com Franco, com Hitler, com Mussolini, com todos estes ditadores, com toda esta força colonial, racista e patriarcal. Como é que interrompemos estas fantasias que perpetuamos?


O que é aconteceu para que milhões de pessoas tivessem perdido os seus nomes? 


Venho anualmente a Portugal, a minha família vive aqui, a minha mãe vive aqui, o meu pai vive aqui, sempre vim a Portugal e nunca recebi um convite para mostrar o meu trabalho - o MAAT e a Galeria Avenida da Índia foram os primeiros, depois de o João Mourão e de o Pedro Gadanho terem conhecido o meu trabalho através da Bienal de São Paulo, o que espelha, mais uma vez, a relação colonial muito fechada que Portugal tem com o mundo. Tenho apresentado o meu trabalho em museus de vários países, mas foi de novo na relação colonial que me encontraram e procuraram para fazer uma exposição, e acho que isso tem mesmo que ver com a particularidade de Portugal ter uma narrativa extremamente colonial e patriarcal, mais do que outros países.

Nós ainda falamos palavras como os "descobrimentos" e acreditamos que descobrimos o mundo. Nós comemoramos coisas que não são para ser comemoradas. Há um atraso cronológico grande em relação ao que se faz lá fora ou ao que se pensa que é preciso fazer porque construímos toda a nossa identidade em torno da história colonial, à volta da ideia de que somos os maiores e que temos a língua mais bela, que é o título da exposição "The Most Beautiful Language", que está na Galeria Avenida da Índia.

Nessa exposição, há uma obra que se chama "O dicionário", uma instalação composta por cinco vídeos que aparecem cronologicamente, com definições de várias palavras. Começa pela palavra Negação. Depois da definição de negação, aparece a Culpa, depois da definição da culpa, aparece a Vergonha, depois da definição da vergonha, aparece o Reconhecimento, depois da definição de reconhecimento, aparece a definição de Reparação… Portugal encontra-se na negação completa. Ainda. Não temos nem culpa nem vergonha na cara em relação à história colonial.

Onde eu trabalho, na Alemanha, estamos um bocadinho noutro sítio. Há uma certa culpa e, acima de tudo, há vergonha, e a vergonha permite uma coisa muito importante e que é pensar: mas afinal quem sou eu, o que é que andei a fazer. A vergonha permite essa reflexão que leva ao reconhecimento, e isso, aqui, ainda não existe.

Cresci na periferia de Lisboa e fui uma das poucas meninas da minha região, pelo menos na minha família, que conseguiu estudar, e estudar queria dizer aprender uma "coisa a sério" - a arte era uma paixão para libertar e satisfazer nos tempos livres. Comecei por estudar psicologia clínica e depois psicanálise, mas não inconscientemente porque a psicanálise trabalha com o mesmo elemento que a arte, e que é o inconsciente. A psicanálise trabalha com imagens, com metáforas e com associações. Tal como a arte. Por exemplo, na instalação "Illusions", uma reinterpretação de Narciso e Eco, Narciso está completamente obcecado pela reprodução de si próprio e Eco repete as palavras que escuta, dá consenso e confirma tudo o que Narciso diz. Então, trata-se aqui de uma parábola pós-colonial que pergunta porque é que nos repetimos constantemente, porque é que existe esta lealdade ao legado colonial patriarcal.

"Illusions" é um dos trabalhos de que eu mais gosto porque fala exactamente sobre estas lealdades e sobre estas repetições de coisas que sabemos, mas não queremos saber, fala sobre este simultâneo de ignorâncias que às vezes sabemos que são ignorâncias, mas não queremos saber. É um privilégio não ter de saber. É um privilégio que eu, por exemplo, não tenho.





A sua opinião17
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado JCG Há 1 semana

Coisa bizarra: a mulher fala da língua portuguesa, mas em inglês. Bom se Portugal não é a sua terra e se a língua portuguesa não é a sua pátria, vá à sua vida e não nos chateie.
Creio que uma grande parte dos pretos que vivem actualmente em Portugal entraram de forma manhosa, através de artifícios e instalaram-se de forma ilegal. Compreendo que os mais antigos, as pessoas mais velhas das ex-colónias, a quem os portugueses disseram toda a vida que eram portugueses, tivessem um forte argumento para terem um tratamento mais favorecido. Mas o que é que queriam chegar cá e ter imediatamente cama, roupa lavada, prato na mesa e uns euros no bolso? E quem é que paga? Eu nasci cá. Os meus pais, avós e até onde a vista alcança, também, e ninguém me deu nada. Comecei a trabalhar aos 10 anos e só aos 20 e tal, quase 30 é que deixei de viver em quartos alugados.

comentários mais recentes
Anónimo Há 6 dias

O mundo ocidental está em decadência e por isso assistimos a estas e outras entrevistas similares e defesas socio-politicas ditas fraturantes.Vamos acabar por enforcar Adâo e Eva ,fica o problema resolvido.

ATREVIDA...BLOODY IGNORANT..! Há 1 semana

Antes de abrires a boca...porque nao lees p.ex; "Indian Summer" de Alex Von Tunzelmann ou "The Great Partition" de Yasmin Khan?
Pra nao referir tantos outros locais e casos q envolveram outras potencias Europeias em Africa. Comparados com elas os Portugs foram anjinhos. Senao nem passprt tinhas.

IDIOTICE CHAPADA! Há 1 semana

Esta senhora gaja q va apanhar onde apanham as galinhas.Tem direito a sua opiniao mas pla manifesta falta de objetividade historica merece troco na mesma moeda. Escreve em ingles para insultar os Portugueses ignorando o context historico como se "meio mundo" nao tivesse nomes ingleses ou franceses

Rog]erio Maciel Há 1 semana

..."continuamos" quem?! Você não é Portuguêsa.
Não pode falar pelos Portuguêses!
Deixe-se de Demagogia e volte para a sua terra.

ver mais comentários
pub