Gastronomia Haverá sempre festa no Brasil

Haverá sempre festa no Brasil

No Brasil e por cá, claro. O afamado vinho que modernizou o perfil dos tintos alentejanos chega ao mercado com cerca de 19 mil garrafas. E vão 14 colheitas de Pêra-Manca.
Edgardo Pacheco 11 de novembro de 2017 às 13:00
Em tese, cada garrafa custará €200. Em tese... Caro? É relativo. Mas fica uma dica para quem quiser provar o tinto a preços moderados. Juntam-se quatro amigos para almoçar ou jantar na Enoteca da Cartuxa, onde o vinho é vendido à garrafa pelo mesmo valor que é praticado na loja da Cartuxa. Pelo que, dividindo por quatro, dá €50, que é tipo o valor de um par de calças numa qualquer dessas lojas espanholas e que, por regra, não fica para a História.


Os senhores da Cartuxa que me perdoem, mas começo o texto de apresentação do Pêra-Manca tinto 2013 com uma "petite histoire" contada por José Bento dos Santos, a propósito do jantar de lançamento de um Grand Échezeaux - tinto emblemático da Romanée-Conti - no qual alguns dos presentes foram convidados a dissertar sobre o vinho em si, na presença dessa figura que é Aubert de Villaine, na altura co-director do mítico Domaine. Cada um, Bento dos Santos incluído, puxou da sua alta cultura vínica para, com ar solene - quais senadores perante César - espalhar um rol de aromas e sabores. Se um dizia casca de cereja, outro salientava ameixa madura, eventualmente envolta em chocolate negro. Se um terceiro falava em notas de bosque, logo o quarto mencionava o nome em latim de certo cogumelo que crescia nesse tal bosque.

Quando os discursos terminaram, toda a gente dirigiu o olhar para Aubert de Villaine: estaria ele de acordo? Rebateria? Acrescentaria novos aromas? Depois de algum silêncio, o veredicto: "Meus senhores, a única coisa que se me afigura dizer sobre este vinho é que ele é.... um grande, grande Échezeaux. Nada mais."

Lembrei-me da história porque, ao provar o novo Pêra-Manca 2013, fiquei mais ou menos como os cavalheiros do tal jantar, à procura da família mais complexa de aromas e sabores, porque, lá está, trata-se de um Pêra-Manca, não é? Mas, na realidade, estamos perante um tinto que nos chega com fruta, notas de madeira e correspondente carácter balsâmico, bom volume da boca, com pingue-pongue entre o doce e um vegetal ligeiro, equilíbrio entre álcool e acidez e uma persistência elegante e suave, mas não longa.

Ora, isto é o quê? É, na opinião do enólogo Pedro Baptista, seu criador, um Pêra-Manca. Ponto final. Ou, com a clareza e capacidade sintética que faz parte da inteligência alentejana: "Um Pêra-Manca tem sempre fruta, corpo e equilíbrio entre todas as componentes." Como diria Aubert de Villaine: "Nada mais."

Nada mais, enfim, é como quem diz, porque estamos perante o mais exigente vinho com o selo da Cartuxa, que é um ícone no país e no estrangeiro, em particular no Brasil, onde beber um Pêra-Manca é sinal de status e bom gosto.

E o curioso neste tinto é que ele resulta de um processo produtivo que tem tanto de simplicidade como de tecnologia de ponta. Ou seja, as uvas das castas Trincadeira e Aragonês são originárias de vinhas com 35 anos e tratadas com técnicas biodinâmicas. Depois, no processo de fermentação em balseiros de madeira só participam as leveduras das próprias uvas. Mas, a selecção dos bagos é feita por um complexo sistema electrónico que só deixa entrar no tal balseiro os bagos na máxima perfeição. Bagos verdes ou com estados de maturação deficiente são eliminados (o meu avô, que espremia as uvas pela técnica do ripanço, haveria de achar este moderno sistema de escolha óptica uma coisa do diabo).

Depois dos bagos inteiros fermentarem durante 35 a 45 dias, o vinho é colocado em tonéis de 3 mil e 5 mil litros, onde ganhará complexidade durante 18 meses. Após o estágio, e caso Pedro Baptista entenda que está efectivamente perante um Pêra-Manca, o vinho é engarrafado, continuando a ganhar mistério durante dois anos e meio. Da vindima até ao dia do lançamento decorrem quatro anos

É o tempo necessário para sentirmos um tinto que, desde 1990, testemunha a modernidade e a suavidade dos tintos alentejanos, sem se desviar um milímetro daquilo que foi sempre o perfil Pêra-Manca. Outros tintos icónicos de Portugal realçam aquilo que o ano climático dá de diferente ao vinho (mais fresco ou mais quente, mais frutado ou mais austero). No caso do Pêra-Manca tudo se faz para que os clientes com um certo pendor conservador não se distraiam com novas nuances do vinho. Isso não seria bom para o negócio.

E quando falamos de clientes conservadores falamos de consumidores brasileiros. Em teoria, cerca de 20 por cento da produção irá para o Brasil, mas isso é muito curto para sustentar a paixão que as classes altas de São Paulo e do Rio de Janeiro têm pelo vinho, visto que, primeiro, quando estão em Portugal mandam abrir Pêra-Manca nos restaurantes e, em segundo, há sempre lugar na bagagem para uma ou duas garrafas compradas a preços em conta. De resto, é impressionante ver o número de turistas brasileiros na velha Adega da Cartuxa e nas mesas da Enoteca da Cartuxa.

Donde, haverá sempre tinto da Cartuxa para fazer festa no Brasil. No fundo, no fundo, um Pêra-Manca é um Pêra-Manca, e o resto é conversa. Incluindo a minha, claro.





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