Livros Ishiguro não dispara

Ishiguro não dispara

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Kazuo Ishiguro ainda não inflacionou o valor das suas obras no mercado global do livro raro e valioso. Os investidores têm aqui uma oportunidade.
Ishiguro não dispara
Toby Melville/Reuters
Fernando Sobral 21 de outubro de 2017 às 09:15
O mais curioso na atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Kazuo Ishiguro é que não haverá autor contemporâneo mais discreto. Poderíamos escrever o mesmo do americano DeLillo, por exemplo, mas mesmo ele tem de se submeter às máquinas de comunicação do seu país e, claro, nunca o poderíamos escrever sobre Martin Amis ou Julian Barnes, verdadeiras estrelas mediáticas.

Ishiguro, inglês de origem japonesa, é verdadeiramente um caso singular, no sentido em que a sua personalidade é tão silenciosa como a sua obra. Este silêncio pouco tem que ver com o facto de o autor viver longe do mundo que o rodeia, pelo contrário - ele escreveu, por exemplo, um texto memorável quando os ingleses escolheram o Brexit -, mas sim com uma espécie de marca pessoal, que nasce nos seus livros e contamina o seu comportamento, ou está na sua personalidade e prolonga-se nos seus textos.

O que determina esta discrição é, antes de tudo o mais, a tipologia de linguagem. A escrita de Ishiguro tem uma harmonia de tal modo encantadora que quase não se sente o seu poder. E, certamente, a linguagem serve uma partilha de um olhar sobre o mundo, da clonagem às classes sociais, passando pelos temas sagrados da condição humana, que é profundo mas que, no caso de Ishiguro, é tudo menos facilmente perceptível.

Dentro deste contexto, é importante saber se a atribuição do Nobel interferiu no valor do autor no mercado do livro raro e valioso que, como tem vindo aqui a ser anotado, vive essencialmente, a nível global, de edições inglesas e americanas, e, no capítulo do valor, de "first edition, first printing", com a variante de topo a ser o exemplar assinado. A realidade, medida na plataforma virtual de referência, a Abebooks, e na oferta dos principais "dealers" do meio, é que interferiu muito pouco.

Na verdade, após a atribuição do Nobel, o preço das edições mais valiosas de Ishiguro sofreu um pequeno aumento de 7 a 15%, o que não é notável e não foi suficiente para o colocar ao mesmo nível, em termos de cotação, dos seus contemporâneos mais famosos. Assim, o ainda mais famoso livro de Ishiguro, "Os Despojos do Dia", continua cotado entre os 900 e os 1.200 euros, e apenas o mais recente, "O Gigante Enterrado", sofreu um aumento de valor importante, estando agora a ser vendido entre os 1.300 e os 1.500 euros. Todos os outros, a começar pelo "Nunca me Deixes", estão situados na faixa dos 500 euros.

Uma pequena comparação mostra-nos que os livros de Julian Barnes estão entre os 1.500 e os 6.200 euros, DeLillo anda também na faixa dos 1.500, e Orhan Pamuk, talvez o melhor exemplo de comparação, porque só se tornou visível após a atribuição do Nobel, atinge já, em algumas das suas obras, entre 2.300 a 2.600 euros.

Assim, podem ser retirados alguns racionais daquilo que o mercado pensa. Primeiro, apesar de ser Nobel, Ishiguro continua a ser o mesmo autor silencioso de sempre. No entanto, tal não impede, de modo algum, que não venha a ter uma valorização significativa no futuro, porque certamente a qualidade da sua produção será mantida. Em síntese, um enigma para os investidores.


Nota ao leitor: Os bens culturais, também classificados como bens de paixão, deixaram de ser um investimento de elite, e a designação inclui hoje uma panóplia gigantesca de temas, que vão dos mais tradicionais, como a arte ou os automóveis clássicos, a outros totalmente contemporâneos, como são os têxteis, o mobiliário de design ou a moda. Ao mesmo tempo, os bens culturais são activos acessíveis e disputados em mercados globais extremamente competitivos. Semanalmente, o Negócios irá revelar algumas das histórias fascinantes relacionadas com estes mercados, partilhando assim, de forma independente, a informação mais preciosa.





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