Cinema Jackie: O som da bala a quebrar um espelho

Jackie: O som da bala a quebrar um espelho

Quando a morte nos cai nos braços, não há como descrever esse momento. "Jackie" é uma tentativa cuidada, apurada de fazê-lo. Natalie Portman é soberba no compromisso. E, no nevoeiro dos corredores da Casa Branca, um raio de sol. Breve, brilhante.
Jackie: O som da bala a quebrar um espelho
Pablo Larraín
Wilson Ledo 11 de fevereiro de 2017 às 13:00
Jackie - O chileno Pablo Larraín retrata a figura da antiga primeira-dama norte-americana, Jacqueline Kennedy. O filme estreou esta quinta-feira.


O conjunto Chanel cor-de-rosa manchado de sangue. Sugerem-lhe que o mude para quando as objectivas fotográficas dispararem fora do avião. Jackie Kennedy recusa-se. "Deixem-nos ver o que fizeram".

É Novembro de 1963. Em Dallas, o trigésimo quinto presidente norte-americano é baleado na cabeça. No mesmo carro segue a mulher, Jacqueline Kennedy - a figura que Pablo Larraín escolhe para a sua estreia no cinema em inglês.

Para trás fica a estrutura dita tradicional - linear - dos filmes biográficos. "Jackie" é construído de camadas de memórias, como um espelho partido que já não pode voltar ao que era. Nesta construção caleidoscópia, a oportunidade para compreender de que é feita a força feminina.

"Nunca quis fama. Só me tornei uma Kennedy", admite a personagem interpretada por Natalie Portman perante o seu destino. JFK é apenas o mote, nunca o elemento principal, para se discutir o conflito entre o público e o privado.

"Jackie" é um exercício de descoberta entre o que é real e "performance" na função de primeira-dama. Larraín observa com distanciamento, mas não desapaixonado, a sua retratada. Toda ela é um poço de contradições, sendo assertiva e voltando atrás nas suas decisões em segundos.

Esta é a história de uma mulher magoada, a fazer o luto, e que tem ainda de entrar em disputa com a máquina do protocolo. O único objectivo: assegurar que o marido é lembrado com a grandiosidade que merece, que o seu legado permanece além da aparência, que o seu cortejo fúnebre é histórico.

Mesmo que nem sempre Jackie acredite nisto na sua plenitude e se questione dos seus verdadeiros propósitos. Entre o facto e a lenda, publique-se a lenda, como acaba por dizer ao jornalista que a entrevista. Pede-lhe "controlo editorial" para o caso de não dizer aquilo que queria. Compreende-se a posição de Jackie: quando o país perde o rumo, ela tem de manter os nervos, o sangue frio, a dignidade. E contar aos filhos que o pai não voltará para casa.

Natalie Portman oferece, de facto, a sua interpretação mais forte até à data e mostra ser digna da nomeação aos Óscares. Soberba, num papel que, como poucos, exige compromisso. Há um retrato, não uma caricatura da antiga primeira-dama. A começar pela voz, sempre trémula, mesmo nos momentos de maior segurança. Depois, os olhares onde o mais minúsculo movimento tem significado.

O restante cabe ao realizador, que coloca por várias vezes a personagem a percorrer os longos corredores da Casa Branca. Sempre ao centro, não raras vezes em plano apertado. Há um trabalho constante sobre o conceito de solidão. Sente-se o desconforto quando os cenários - salas impecavelmente decoradas e vestidos invejáveis, exemplos de bom gosto - mostram que algo está irremediavelmente ferido.

Para completar a composição visual, a música de Mica Levi. Instrumentos de cordas em destaque a forçar o sentimento de trauma, o incómodo. E, através das notas, sempre a postura aristocrática de Jackie. Paradoxal: determinação e vulnerabilidade em simultâneo.

Porque se quer mostrar que os Kennedy foram o mais próximo da realeza que os Estados Unidos da América tiveram. As malas feitas, as obras de arte encaixotadas, o destino traçado na Casa Branca. O cargo foi apenas uma passagem perante uma escolha divina.

E uma das canções preferidas do antigo presidente ressoa no vazio. "Não deixem que seja esquecido, que houve outrora um lugar conhecido, por um breve e brilhante momento, como Camelot".





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