Weekend Joana Craveiro: Portugal trata mal a sua memória

Joana Craveiro: Portugal trata mal a sua memória

A ditadura, o 25 de Abril, o PREC, a descolonização são os temas abordados na exposição performática Quando o Museu Vivo se Torna Físico, da autoria de Joana Craveiro, que vai estar no Teatro São Luiz entre 12 a 18 de Dezembro.
Joana Craveiro: Portugal trata mal a sua memória
Bruno Simão
Susana Moreira Marques 09 de dezembro de 2016 às 14:00
Durante vários anos, Joana Craveiro reuniu material documental para um espectáculo que dá voz aos cidadãos que viveram - e talvez nunca deixem de reviver - a ditadura, o 25 de Abril, o PREC, a descolonização. "Um Museu Vivo de Pequenas Memórias Pequenas e Esquecidas" é um espectáculo sobre a memória e a transmissão da memória ou a falta que temos dessa transmissão. Como um museu, vivo, nunca está terminado. Como num museu, Joana Craveiro ficou com colecções nos reservados, à espera, e decidiu agora mostrar esse material. Vai estar no Teatro São Luiz, entre 12 a 18 de Dezembro, com "Quando o Museu Vivo se Torna Físico", uma exposição performática. É mesmo ali ao pé da antiga sede da PIDE/DGS, agora condomínio de luxo, um exemplo da facilidade com que Portugal esquece ou da dificuldade que tem em lembrar os aspectos mais tenebrosos da sua história. Conversámos no São Luiz, num dos dias em que montava a exposição e o percurso das visitas, que começa onde o teatro sempre começa: na rua.


1. Sempre fui apaixonada por pessoas e pelas suas histórias. Sou apaixonada pela vivência individual de cada pessoa: acho que é um mundo. Às vezes, quando estou a entrevistar uma pessoa, penso: podia fazer um espectáculo só sobre esta pessoa. É de partir o coração, às vezes, só usar um parágrafo do que a pessoa contou.
Para o espectáculo "Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas", fiz pesquisa e recolha de fontes orais durante cinco anos, e não usei metade do que recolhi. Por isso vamos fazer esta exposição performática no São Luiz.
Tinha mesmo muito material: livros, documentos, muita imprensa, coisas que várias pessoas foram doando com carinho ao longo dos anos. O objectivo de ter reunido esta colecção de objectos não era ficarem encerrados em caixas num armazém do Teatro do Vestido. Parecia quase um crime ficar com esse material guardado.

2. A maioria das pessoas que entrevistei viveram directamente esses acontecimentos, mas também entrevistei algumas pessoas da minha geração. Acho que é um espectáculo muito da minha geração, porque reflecte uma inquietação de pós-memória, de pessoas que não viveram directamente os acontecimentos mas que os receberam de uma forma muito directa das suas famílias. É um projecto que reflecte sobre a transmissão de memória.
Não sei se alguém tem dúvidas de que Portugal trata mal a sua memória. Mas acho que já se tem falado bastante sobre as políticas da memória ou, melhor, sobre a ausência delas.
Há países que tiveram regimes ditatoriais, portanto são pós-ditatoriais como o nosso - nós tivemos uma ditadura, é esse o nome daquilo que vivemos - e um exemplo é uma política, em alguns desses países, de transformar locais emblemáticos de tortura em espaços museológicos. Não é aquilo que aconteceu aqui na Rua António Maria Cardoso. Sem dúvida, vou falar sobre isso no São Luiz: dessa ausência, que nesta rua se materializa na transformação num condomínio de luxo de um local com uma simbologia política, de repressão, que merecia ser preservada, a bem das gerações futuras.
Gostava que houvesse um diálogo de outro tipo sobre políticas de memória e que os governos se envolvessem de uma forma activa. Tem de haver uma estratégia, um pensamento. Mas, para isso acontecer, tem de ser algo importante e o que sinto é que não é importante, não é uma prioridade.

3. Muitas vezes comovi-me com as entrevistas que fiz. Lembro-me de algumas entrevistas a pessoas retornadas das ex-colónias que foram muito fortes para mim. Pela emoção das próprias pessoas. Eu nem sempre me identificava com o ponto de vista delas, mas identificava-me com o seu sofrimento: e isso para mim foi uma revelação. Tenho um ponto de vista político, evidentemente, mas isso não me impediu de me comover com alguns relatos, mesmo que ainda hoje me inquiete e me pergunte sobre a ingenuidade das pessoas - e a desinformação e a ignorância - que as levaram a aceitar uma coisa que é inaceitável que é o colonialismo.
As entrevistas de alguns revolucionários, pessoas muito engajadas politicamente no 25 de Abril, também me tocaram muito. Têm uma grande sensação de impotência perante o rumo que as coisas tomaram, que não era o que desejavam. Mas aquele momento da entrevista parecia possibilitar-lhes um reconciliar, um reviver da memória: ah, alguém quer ouvir a minha história, quer ouvir o que é que eu andava a fazer naqueles momentos do PREC, como nos organizámos naquelas comissões de moradores incríveis, como construímos uma creche…
A demonização que a comunicação social tem feito do PREC diminuiu aspectos do poder mais directo que, se calhar, eram absolutamente fulcrais que voltassem: porque trata-se de cidadania. O que se conseguiu em certos aspectos foi extraordinário. Aquilo que as pessoas conseguiram pela sua vontade foi extraordinário: por exemplo, construir algo tão simples como uma creche. As creches foram uma grande conquista do 25 de Abril, para as mulheres poderem trabalhar, poderem ter onde deixar os filhos. A alegria com que essas pessoas me contavam isso…

4. Estudei Antropologia e fazer trabalho de campo, recolher histórias de vida, fazia parte da metodologia. Desde o princípio, no Teatro do Vestido, trabalhamos com a nossa própria biografia e com a observação da realidade. Íamos para a rua falar com pessoas. O trabalho de campo foi-se tornando parte do processo.
Entretanto, fui descobrindo historiadores orais maravilhosos, que têm todo um discurso sobre a história oral e como a história oral dá voz aos que não têm voz.
Eu procuro determinar o que é que aconteceu para aquelas pessoas [com quem falo]. E quando se conta isso, em cena, há uma quantidade de outras pessoas que se identificam porque também têm uma versão daquilo que aconteceu. E há uma vontade em cascata: "Ah, eu também quero partilhar o que aconteceu." "Eu também tenho uma história."
Quando pomos em cena "Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas", é surpreendente o número de pessoas que vêm ter comigo no final e que querem que eu recolha a sua história também. Mesmo que não venha a ser parte do espectáculo.
É surpreendente que as pessoas sintam que a sua história não foi ouvida. O 25 de Abril não é um acontecimento que pertence a uma elite político-militar. A um nível, ele foi feito por essa elite político-militar, mas há um quantidade de outras pessoas - cidadãos anónimos - que viveram esses tempos de uma forma muito particular e que constituem um mosaico daquilo que foi o período revolucionário: com todas as suas contradições, com todos os seus excessos por vezes, com a sua beleza por outro lado, o seu idealismo, a sua utopia.
As pessoas não tiveram uma voz, mas as pessoas tem muita coisa para dizer e querem dizê-lo.
Cada vez que sei que alguém [que viveu determinados acontecimentos] morreu penso: estamos a ficar sem tempo. Estamos a ficar sem tempo de contar estas histórias. E, depois, as novas gerações não vão saber.





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