Weekend João Paulo Esteves da Silva: É sendo português que eu vou mais longe de Portugal

João Paulo Esteves da Silva: É sendo português que eu vou mais longe de Portugal

O pianista João Paulo Esteves da Silva lançou o disco “Brightbird” com o contrabaixista Mário Franco e o baterista suíço Samuel Rohrer e regressou à música de Cole Porter com o guitarrista Afonso Pais. Filho de pai amante de filosofia e de mãe (e avó) professora de piano, o músico também publica poesia e faz traduções de peças de teatro.
João Paulo Esteves da Silva: É sendo português que eu vou mais longe de Portugal
Miguel Baltazar
Lúcia Crespo 30 de dezembro de 2017 às 14:00
O pianista João Paulo Esteves da Silva regressou à música de Cole Porter com o guitarrista Afonso Pais. O projecto Silent Words, nascido em 2014 no âmbito do Ciclo de Histórias de Jazz em Portugal, foi objecto de concertos gravados ao vivo. Parte desse material deverá ser editado em disco. Filho de pai amante de filosofia e de mãe (e avó) professora de piano, João Paulo Esteves da Silva aprendeu a tocar quase como aprendeu a falar. Teve bandas de rock, conheceu o jazz, estudou em França, regressou a Portugal. E por cá ficou. Lançou recentemente o disco "Brightbird" com o contrabaixista Mário Franco e o baterista suíço Samuel Rohrer. Tem também um trio de nome No Project com Nélson Cascais (contrabaixo) e João Lencastre (bateria) e mantém um projecto de canções com a filha, Nazaré da Silva. Dedica-se ainda à actividade literária, publica poesia e faz traduções de peças de teatro, como "Credores", de Strindberg, ou "Rei Lear", de Shakespeare.


O meu pai, João Esteves da Silva, publicou alguns livros de filosofia, como "Para uma teoria da História. De Althusser a Marx", e tem artigos dispersos por várias revistas. Formou-se como advogado, mas não seguiu a carreira de advocacia. Aliás, ele era empregado bancário, chegou a ter cargos de direcção, mas o que gostava mesmo era de estudar e de escrever sobre filosofia. Morreu no ano passado e eu e o meu filho, que está a tirar um mestrado em teoria da literatura, estamos calmamente a tentar organizar e republicar o que é publicável da obra do meu pai, que tem muitas coisas inéditas. Os seus últimos escritos foram sobre Wittgenstein, mas ele tem muitos outros.

Despertei para a filosofia desde cedo, nas conversas que tinha em casa, e houve vários filósofos que me marcaram, alguns por iniciativa do meu pai, outros contra o meu pai... Por iniciativa do meu pai, li Descartes, do qual ainda gosto muito. Também gosto de Freud enquanto pensador, não tanto como terapeuta. E tive a minha fase Jacques Derrida, aí foi um pouco contra o meu pai...

Já não me lembro muito bem como é que aprendi a tocar [piano], às tantas já sabia tocar. A minha avó, Isaura Fernandes, era professora de piano, e a casa dela tinha aquele ambiente de lições de piano, onde desfilavam meninos, uns atrás dos outros. Mas eu era muito rebelde e, para mim, o piano era apenas mais uma brincadeira como outras. Também gostava de jogar aos "cowboys", mais tarde tive uma fixação pelos homens das cavernas, queria saber tudo sobre a Pré-História, depois tive uma pancada pelo xadrez. A paixão pela música só apareceu no início da adolescência, com as canções, com o rock, com as bandas lá em casa, num quinto andar. Fazíamos algum barulho e os vizinhos sofriam simpaticamente…


Muitos portugueses perdem a língua e dissolvem-se no estrangeiro. E se uma pessoa perde a sua língua de origem, perde também a criatividade.


Queria ser guitarrista, mas descobri que estava muito mais avançado no piano e cheguei a tocar teclados. Tive um grupo chamado Flumen, palavra que significa rio em latim, pois o nosso primeiro concerto foi dado no outro lado do rio, acho que foi durante um Carnaval no Pinhal Novo. Era tudo meio a brincar, só mais tarde, por volta dos 17 anos, é que comecei a pensar na música a sério. Estudei no Conservatório e ao mesmo tempo estava na Academia de Música de Santa Cecília e na Academia de Amadores de Música.

O jazz resulta dos encontros da vida. Eu ouvia músicos que tinham uns laivos de jazz como, por exemplo, os grupos do Carlos Santana. E depois os próprios músicos de jazz começaram a tocar rock. Há uma zona, ali no final dos anos 60, início dos anos 70, em que a coisa se misturou, o grupo que o Miles Davis trouxe a Cascais era um grupo de rock progressivo, não era de jazz. Com 18 anos, eu estava integrado no meio do jazz nacional, onde havia sobretudo pessoas mais velhas, como o José Eduardo Conceição e Silva, o António Pinho Vargas e o Rui Cardoso. E iam aparecendo pessoas da minha idade, como o Mário (Laginha) - nós éramos amigos e tocávamos aos domingos lá em casa. Também tive um grupo, o Quinto Crescente, com o Laurent Filipe, o Pedro Wallenstein, o José Martins e o Luís Caldeira. Tocámos no festival de jazz de Cascais, evento que era o centro da cultura jazzística em Portugal.

Nunca me interessei por música assim ou assado, o meu interesse foi sempre pela música, que pode vir de sítios muito diferentes. Claro que tenho a minha história, a minha cultura, as minhas influências: a música clássica está lá sempre e, na música clássica, coisas que aconteceram há séculos ainda estão vivas. Mozart, Beethoven, Bach... E alguns românticos continuam a ser muito importantes para mim, como Chopin e Schumann. No rock, eu era grande fã dos Beatles, e dos Pink Floyd, e ainda sou. Ouço muitas coisas, e agora ainda mais, é só uma questão de estar com o ouvido aberto, algo que faz parte da minha maneira de ser e de estar.

Nos anos 80, fui estudar para Paris e regressei no início dos anos 90. Queria sair de Portugal, não sabia bem porquê, tinha de sair e descobrir a minha música. E assim foi, demorou tempo, mas descobri. E ao descobrir tive vontade de voltar. Estar em França foi também descobrir-me como português e perceber a conexão profunda que existe entre a música e a língua. Somos marcados pelos ritmos, pelo pensamento, pelos sentimentos, e tudo isso acontece-nos sobretudo em português, aquilo que somos é português.

Tive uma experiência de perda de língua, comecei a deixar de falar português, e esse foi o grande sinal de alarme, foi o começo do meu regresso de França. Muitas pessoas não dão por isso, perdem a língua e dissolvem-se no estrangeiro. E, se uma pessoa perde a sua língua de origem, a criatividade vai para o galheiro. Por isso comecei a cultivar a língua, agarrei-a. Obriguei-me a falar, a ler em voz alta, a conversar com os portugueses que vendiam bacalhau no mercado. Se não se falar português todos os dias, o português começa a falhar. Existe mesmo uma sensação de dissolução, como se fôssemos uma espécie de alga e ficássemos ali no mar, um pouco ao sabor da corrente e sem grande vontade própria. Se esse for o destino da pessoa e se ela se sentir bem, não há problema. No meu caso, era a angústia total.


Estar em França foi também descobrir-me como português e perceber a conexão profunda que existe entre a música e a língua.


No sentido de não ser isto ou aquilo e de ser tudo, não, não sou um cidadão do mundo, pelo contrário, mas acho que consigo ir mais perto de cada uma das culturas partindo de Portugal - ou seja, quando a pessoa tem o pé bem assente numa base sólida, a impulsão para longe pode ser maior. Sentindo bem o chão onde piso, consigo afastar-me, continuando a ser português. É uma sensação paradoxal, mas é sendo português que vou mais longe de Portugal. Posso chegar muito mais longe porque chego longe de qualquer coisa.

A poesia também começou muito cedo na minha vida, mas só mais recentemente comecei a aparecer publicamente como poeta. A coisa esteve quase sempre lá e intensificou-se à minha vinda de França. Passo por várias fases e direcções possíveis na escrita. E depois tenho umas obsessões, como a obsessão com o país e com o ser português. Outra paixão é o judaísmo e o hebraico. Não só tenho uma relação forte com a língua hebraica como até sou tradutor de literatura israelita para português. Não tenho outra razão para esta paixão a não ser um encontro frutuoso. Ao vir de França e começar a escrever, senti que há um lado oculto ou um lado não dito do ser português. Há qualquer coisa que estava calada e eu identifiquei esse lado como um lado semita, que podia ser árabe, que podia ser hebraico e, por alguma razão, o hebraico fez um barulho muito especial e entrei por ali, algo que tem vindo a crescer até hoje.





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