Weekend João Soares: "Tive vergonha de ver o Ricardo Salgado ir de mão estendida ao Eduardo dos Santos"

João Soares: "Tive vergonha de ver o Ricardo Salgado ir de mão estendida ao Eduardo dos Santos"

Foi ministro da Cultura de António Costa durante cinco meses. Demitiu-se por causa da polémica que se gerou em torno das bofetadas prometidas a dois críticos. Fala de si, da política e dos seus pais.
João Soares: "Tive vergonha de ver o Ricardo Salgado ir de mão estendida ao Eduardo dos Santos"
Miguel Baltazar
João Soares tem Angola sempre na mira. Será uma obsessão? "Não, eu gosto de Angola. Quer nós, quer os angolanos, vivemos apaixonadamente a vida uns dos outros, porque nos sentimos irmãos." Foi ministro da Cultura de António Costa durante cinco meses. Demitiu-se por causa da polémica que se gerou em torno das bofetadas prometidas a dois críticos. À distância, sustenta que não teve um comportamento "indigno" e afirma que não quer "ministros nem responsáveis políticos que sejam plásticos e cinzentos". 


Como é que o João Soares se define?

Eu gostava é que os outros me definissem a mim, não eu a mim próprio. Gostava que as pessoas me definissem como um tipo decente que pensa pela sua cabeça, que é um homem livre e que tem, passe a imodéstia, firmeza de carácter e que tem sido sempre fiel às suas convicções. Alguém que tem procurado viver de acordo com aquilo que pensa da vida e do mundo. O que é que você quer que eu diga? Mas isto, dito pelo próprio, tem sempre um ar de auto-elogio. Na minha contabilidade de deve e haver, não tenho o sentimento de ter dívidas por pagar em relação aos outros, à nossa terra e aos nossos concidadãos.

 

É um homem livre, embora tenha militado sempre no PS?

Claro. Tenho camisola partidária, mas sou um homem livre. O Mário Cesariny tem uma frase muito bonita, num dos seus poemas inesquecíveis, em que diz: ninguém nos ouve, não ouvimos ninguém. E, de facto, cada vez mais, as sociedades contemporâneas, por causa do ruído de fundo das muitas interferências que por aí existem, têm menos disponibilidade para a memória e para ouvir os outros com tranquilidade. Acho que as pessoas que olham com atenção para o perfil de quem quer que seja reconhecerão que nunca deixei de dar a minha opinião por razões de natureza partidária.

 

Por exemplo, apoiou Maria de Belém nas presidenciais.

Não tem que ver com isso. Nessa matéria, o PS sempre foi e continua a ser um sinónimo claro de liberdade de expressão e de opinião. Nas últimas presidenciais houve gente do PS que apoiou qualquer uma das candidaturas, incluindo a do Presidente eleito, Marcelo Rebelo de Sousa. Estava a falar era de opções que têm que ver com questões mais substanciais. Estou a lembrar-me, por exemplo, numa fase já avançada do Governo do Sócrates, daquilo que foram as opções sobre a questão da construção de um aeroporto na Ota, que hoje volta a estar na ordem do dia por causa das teorias que defendem o Portela mais um, com o Montijo, que eu considero um disparate. Nunca deixei de dizer o que pensava sobre esta matéria [a favor da Ota]. Tenho muita simpatia pessoal pelo Mário Lino e por outros, mas sempre achei que aquele "jamais" era uma coisa que ia ficar marcada pela negativa.

 

O João Soares foi contra a substituição de António José Seguro como secretário-geral do PS.

Achei que aquele processo, talvez porque sou um tipo antiquado, não correspondia ao que considerava serem as regras necessárias da ética republicana. Mas também reconheço que a política não se pode fazer com meninos de coro e com santinhos. E no dia em que aquele processo teve o seu desenlace eleitoral, o António Costa passou a ser o meu líder.

cotacao Reconheço que a política não se pode fazer com meninos de coro e com santinhos. E no dia em que aquele processo teve o seu desenlace, António Costa passou a ser o meu líder. 

E foi por isso que aceitou ser ministro da Cultura de António Costa?

Voltando atrás. Há que reconhecer que o António José Seguro, por quem tenho grande admiração, abriu em Portugal um precedente importantíssimo e verdadeiramente revolucionário, que foi o processo das primárias dentro do Partido Socialista. Nenhum outro partido ainda seguiu isso. Aceitei ser ministro de António Costa não só por isso, mas também. Mas, fundamentalmente, porque eu estou profundamente de acordo com a solução política que foi encontrada para governar o país e com a construção de uma maioria de esquerda. Houve uma comissão política que teve lugar dois dias depois das eleições e eu pedi a palavra depois do secretário-geral, António Costa, para defender que nós, PS, não podíamos perder a oportunidade que a História nos tinha dado com aquele resultado, que era a de construir uma maioria que governasse o país à esquerda, que achava absolutamente indispensável, e que felizmente se fez. 

 

Uma solução que tinha experimentado na Câmara de Lisboa.

O único antecedente que havia tinha sido a conquista da Câmara Municipal de Lisboa por uma coligação de toda a esquerda unida sob a liderança do Jorge Sampaio. Mas também aí, quem quiser ser rigoroso, certamente se lembrará que eu estive muito isolado dentro da comissão política, quando o PS era liderado pelo Jorge Sampaio, a defender essa solução, que a esmagadora maioria considerou, durante uma certa fase, completamente impossível. Incluindo o próprio Jorge Sampaio, que foi depois quem encabeçou e negociou, com a ajuda do António Costa e do Ferro Rodrigues, diga­-se, com as outras forças de esquerda, nomeadamente com o PCP. O Bloco ainda não existia, mas entraram dois dos partidos que lhe deram origem, a UDP e o PSR.

 

Acha que a "geringonça" vai chegar até ao fim da legislatura?

Não gosto da expressão "geringonça", até porque ela foi inventada por aquela figura inenarrável que está sempre de mal com o mundo que é o Vasco Pulido Valente. Acho que é uma solução política sólida, ao contrário daquilo que se designa tradicionalmente por geringonça, por isso não uso essa expressão, que vai durar até ao final do mandato e que eu espero que se prolongue de uma forma ainda mais imaginativa para o futuro, porque tem feito a prova de que é capaz de governar o país, respeitando as pessoas. Não tenho a menor dúvida de que este Governo encabeçado pelo António Costa é substancialmente melhor, mas muito melhor, do que os governos que o antecederam dirigidos pelo Passos Coelho.

 

Teve aquele episódio marcante, o acidente na Jamba, Angola, onde quase perdeu a vida. Já foi há muitos anos, mas de que forma é que essa experiência o marcou?

Já respondi dezenas de vezes a essa questão. Não acho que tenha mudado a minha vida nem que tenha mudado substancialmente a minha maneira de olhar para a vida. Ajudou talvez a distinguir com mais nitidez o essencial do acessório. Você está a obrigar-me a formas de auto­-elogio que não têm nada que ver comigo, embora a imagem possa ser outra em termos públicos. Mas, passe a imodéstia mais uma vez, sempre soube distinguir bem o essencial do acessório.

 

E o que é o essencial?

O essencial é estarmos de bem com os outros e connosco. Mas, para estarmos de bem com os outros, é essencial começarmos por estar bem connosco. E procurar estar do lado das soluções, melhorando as condições da nossa vida e da vida dos outros.

 

É filho de duas figuras marcantes da sociedade portuguesa, Mário Soares e Maria Barroso. Enveredou pela carreira política tal como o seu pai. Sente-se prejudicado pelo facto de as pessoas tentarem sempre comparar a sua acção com a do seu pai?

Sempre vivi bem com esse peso e aguento-me bem. E isso deu-me uma capacidade de resistir a outras dificuldades. Mas reconheço que é um peso significativo e, ao mesmo tempo, um grande privilégio. Sempre. Ser filho do meu pai e da minha mãe foi qualquer coisa que me enriqueceu profundamente. Para já, eu nunca olhei para a minha vida, seja em que plano for, numa perspectiva daquilo que se designa por carreira, mas no meu percurso foi sempre prejudicial. No balanço mesquinho das coisas materiais, claro que foi prejudicial. No plano político, então, foi terrível, porque há um sentimento muito republicano em Portugal. Nunca tive hipóteses de fazer muito diferente daquilo que tenho feito, mas nunca me condicionou, como reparará se olhar para o meu percurso.

 

Começou como editor na Perspectivas & Realidade e o primeiro livro que editou, em 1975, foi "O Triunfo dos Porcos". Lembra-se disso?

A ideia da edição não foi minha, mas sim do Victor Cunha Rego. Eu já tinha lido o Orwell e fiquei entusiasmado com a possibilidade de, naquela altura e naquele ano, se editar o "Animal Farm", que depois foi traduzido por nós como "O Triunfo dos Porcos". Tinha havido uma versão nos anos 40, de uma livraria/editora que trabalhava com livros escolares, ali no Poço do Borratém. Nós pusemo-nos em contacto com os herdeiros do Orwell e eles disseram-nos que já havia uma editora portuguesa que tinha publicado o livro. Eu fui lá a essa livraria, falar com o senhor responsável, e ele disse-me para não me meter naquilo, que tinha sido um buraco total. Que eles tinham feito 4.000 exemplares e ainda tinham três mil e tal… O título era "A Revolução dos Porcos". Acho que até nos cederam a tradução por um preço simbólico. Nós mudámos o título, o José Brandão, que é um grande professor na Escola de Belas Artes e na altura era um jovem designer, fez uma capa muita adequada ao tempo, que ainda hoje é marcante, que é um porco com uma farda soviética e um chicote na mão sob um fundo amarelo, e o livro foi um grande sucesso e um pulmão para a editora.

 

Toda a gente sabe que os pseudónimos literários Hans Nurlufts e John Sowinds são seus. Porque é que não os assume?

Não sei quem é que sabe essas coisas… Eu nunca usei pseudónimos.

 

Mas estes não são seus?

Dá-me algum gozo saber que as pessoas pensam que são meus. Deixo esse mistério com as pessoas. Não me atribuam méritos no âmbito da inventiva romanesca para esse tipo de coisas.

 

Mas também não desmente.

Não tenho de desmentir.

 

É maçon porquê?

Por simpatia, por amor e por fidelidade aos valores da maçonaria, que são os da Revolução Francesa, liberdade, igualdade, fraternidade. Se quiser uma linha de rumo para aquilo que tem sido a minha vida ao longo destes 67 anos, foi a de que procurei sempre ser fiel a estes três valores fundamentais da maçonaria.

 

Mas fala-se de muitos lóbis e grupos de interesse que funcionam na maçonaria.

Como em todas as organizações. Como nos partidos políticos. Há muita gente que está na maçonaria por razões que não têm que ver com a fidelidade a esses valores, mas que também são legítimas, boa parte delas. A maioria das pessoas move-se por interesses materiais.

 

E você move-se por valores?

Procuro mover-me por valores. E acho que, naquilo que tem sido o percurso da minha vida, nunca questões de natureza material foram decisivas nas opções que eu fiz. Evidentemente procuro o bem-estar daqueles que me estão mais próximos e daqueles de quem eu gosto, familiares e amigos, mas também nesse plano aceito ir à balança com quem quer que seja.

 

É uma pessoa que se deixa arrebatar pelas causas?

Sempre que estou envolvido em alguma coisa, procuro fazê-lo com empenho e entusiasmo. Há coisas que não são entusiasmantes, de todo, mas procuro sobretudo fazer as coisas com bom humor. A vida tem-me ensinado, e já me ensinou há muito, que não vale a pena ser pessimista nem mal-humorado. Não ajuda rigorosamente nada. Também não acho que se deva ser optimista em excesso.

 

O que o atrai na política?

Sobretudo a possibilidade de fazer coisas que possam ser úteis aos outros.

 

E, neste seu percurso político, quando é que acha que foi mais útil?

No plano do trabalho autárquico, eu tive 16 anos a trabalhar como autarca, acho, passo a imodéstia mais uma vez, que fiz coisas que foram marcantes, como a Casa Fernando Pessoa, ter acabado com o Casal Ventoso e o projecto do elevador para o Castelo.

cotacao Não gosto da expressão 'geringonça', até porque ela foi inventada por aquela figura inenarrável que está sempre de mal com o mundo que é o Vasco Pulido Valente.

Ser filho de Mário Soares e Maria Barroso, no balanço mesquinho das coisas, foi prejudicial. No plano político, então, foi terrível. 

Que teve de abandonar.

Pois abandonei, mas não me arrependo de maneira nenhuma. Abandonei porque sou democrata e não posso fazer coisas contra uma pressão avassaladora de uma parte da opinião pública. Se não tivesse sido derrotado nas últimas eleições autárquicas, que disputei em 2001, provavelmente teria arranjado maneira de fazer. Mas estava a referir coisas que fiz. Já falei da Casa Pessoa. Lembro-me da forma como recuperei o próprio edifício dos Paços do Concelho em menos de um ano depois de um incêndio absolutamente devastador. Recuperou-se a Praça do Rossio, acabou-se com as barracas. Quando assumi a presidência da Câmara, não havia uma cama para os sem­-abrigo, quando deixei a presidência havia mais de 500 camas.

 

Como vê a escolha de António Guterres para secretário-geral da ONU?

Foi uma das maiores alegrias que tive nos últimos tempos e penso que é partilhada pela esmagadora maioria dos portugueses. Porque é um sinal de que os tais valores de liberdade, igualdade e fraternidade, às vezes, ainda vencem. Tinha tido também uma alegria comparável quando estava a chefiar uma missão de observação internacional da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa), da qual fui presidente, que foi a de observar as primeiras eleições norte-americanas em que o Obama foi eleito Presidente. Foi em 2008, quando começou a crise. Estava lá com o actual presidente da Câmara de Viseu, o Almeida Henriques, que é meu amigo, não político, mas pessoal. Eu sempre tive um grande fascínio pela América e pelos democratas americanos e a eleição do Obama foi uma alegria que não imagina… Gente jovem, branca sobretudo, que foi para as portas da Casa Branca gritar para o Bush se ir embora.

 

Como é que o mesmo país que elegeu Obama pode agora eleger Trump?

Se eu fosse americano, não teria a menor dúvida e votaria na Hillary, mas não é uma figura que me encha as medidas. Mas entre a Hillary e o Trump não há a menor dúvida. Espero que não o elejam. Aliás, gente com responsabilidade no Partido Republicano está a demarcar-se desta aventura completamente disparatada.

 

E o que é que o irrita mais na política?

A conversa fiada. Eu não sou um homem da linha das grandes teorias. Acho que o futuro faz-se caminhando e o caminho tem de se fazer passo a passo. Há muita gente que formula grandes teorias sobre tudo e mais alguma coisa. Há muitos treinadores da bancada. Só que há uma grande diferença entre treinar a partir da bancada e estar no campo a jogar, e sobretudo jogar para conseguir marcar golos.

 

Os treinadores de bancada irritam-no?

Um bocadinho. Dificilmente me irrito, mas às vezes acontece. A minha imagem, agora, ficou marcada por esta cena que eu ainda hoje tenho dificuldade em entender e que interpreto como um sinal de humor, mas ao mesmo tempo perigoso, do que se passa na nossa terra. Eu reconheço que nós vivemos numa sociedade do espectáculo completamente hipermediatizada e com os media, que vão para além dos media tradicionais. As reacções que suscitaram três linhas minhas, uma metáfora, suave, escritas às sete da manhã aqui em casa e colocadas no Facebook, ainda hoje me espantam. Quando escrevi o post não era uma figura desconhecida.

[Texto integral publicado no Facebook a 7 de Abril de 2016: Em 1999, prometi-lhe publicamente um par de bofetadas. Foi uma promessa que ainda não pude cumprir. Não me cruzei com a personagem, Augusto M. Seabra, ao longo de todos estes anos. Mas continuo a esperar ter essa sorte. Lá chegará o dia. Ele tinha, então, bolçado sobre mim umas aleivosias e calúnias. Agora volta a bolçar, no "Público". É estória de "tempo velho" na cultura. Uma amiga escreveu: "Vale o que vale, isto é: nada vale, pois o combustível que o faz escrever é o azedume, o álcool e a consequente degradação cerebral. Eis o verdadeiro vampiro, pois alimenta-se do trabalho (para ele sempre mau) dos outros." Estou a ver que tenho de o procurar, a ele e já agora ao Vasco Pulido Valente, para as salutares bofetadas. Só lhes podem fazer bem. A mim também.]

Já fiz centenas de debates radiofónicos e televisivos muito mais intensos e aquelas duas personagens tinham-me ofendido profundamente com coisas pessoais, quer o Correia Guedes, dito Pulido Valente, como o outro, que eu não sabia que já estava naquele estado físico porque, senão, ter-me-ia contido. E nos debates televisivos que fiz, normalmente, se pecava por alguma coisa, era por excesso de delicadeza com as pessoas com que me confrontava. E tinha muitos amigos, políticos e pessoais, a dizer, mas tu és tão delicado, dizes sempre com tanta consideração… E de repente passo a ser um ferrabrás que dá bofetadas a toda a gente, quando eu nunca andei à pancada com ninguém, tirando os tempos do movimento estudantil na Faculdade de Direito de Lisboa.

 

Como é que interpreta essa indignação que surgiu por causa das bofetadas?

Eu coloco essas três linhas no Facebook às sete da manhã de uma quinta­-feira. Saí de casa para ir para o Conselho de Ministros, que durou toda a manhã e até terminou mais cedo que o costume porque tanto o primeiro-ministro como o ministro das Finanças tiveram de sair, pelo menos um deles, para um almoço no Palácio de Belém com o presidente do Banco Central Europeu, que tinha sido convidado pelo Presidente da República para vir a Portugal. Nessa tarde, houve o primeiro Conselho de Estado convocado pelo recém-eleito Presidente da República e o ministro das Finanças foi ao Parlamento para discutir a questão do Banif que, na altura, estava ao rubro. Ou seja, num dia em que houve um Conselho de Ministros que discutiu temas importantes que foram reportados à opinião pública, num dia em que vem o presidente do Banco Central Europeu para participar na primeira parte do Conselho de Estado, e que há o primeiro Conselho de Estado convocado por Marcelo Rebelo de Sousa, se você for ver o que se passou nas redes sociais e nos canais de televisão, o tema dominante – evidentemente que, para o meu ego, isso é qualquer coisa que me acariciaria se eu fosse um tipo que me enchesse como um balão – foram as bofetadas do João Soares, que é um gajo violentíssimo e que tem um comportamento que é indigno de um ministro. Eu não acho que tenha tido, passe a imodéstia, já sei que isto é politicamente incorrecto, um comportamento indigno de um ministro. Eu não quero ministros nem responsáveis políticos, a que nível for, que sejam plásticos e cinzentos. E tenho orgulho em não ser plástico nem cinzento. Quando poucas horas depois percebi que ia ser um problema para o Governo, apresentei a demissão ao primeiro-ministro, que aliás nunca me pôs a questão de eu me demitir. Se há alguma coisa que acho que dei, passe outra vez a imodéstia, foi um sinal de desapego pelo poder. Eu gostava do que estava a fazer e até cometo mais uma vez a imodéstia de achar que não estava a fazer mal. Tive menos de cinco meses no cargo, mas esses cinco meses foram vividos com intensidade.

 

Porque é que acha que nasceu essa bola de neve que culminou no seu pedido de demissão?

Em parte porque eu existo. Justamente porque não sou uma figura cinzenta e as pessoas sabem que eu tenho opinião e, passe a imodéstia, tenho carácter. Um bocadinho o que acontece com a Mariana Mortágua, a que se junta a beleza da figura. Ela aparece a fazer uma proposta que é absolutamente pacífica e banal em matéria de um eventual novo imposto e arma-se um banzé de todo o tamanho. Porque ela existe, porque ela tem opinião e provou que tinha qualidade na comissão parlamentar ao caso BES. Ainda por cima é bonita. No meu caso, a beleza não se acrescenta.

 

Os seus amigos estão todos na política?

Não. Tenho muitos amigos que não estão na política e que estão noutras áreas. Não confundo a amizade a sério, autêntica, com a amizade facebookiana. Amigos a sério, provavelmente sobrarão dedos nas duas mãos. Atenção, a amizade é uma coisa muito séria. De um certo ponto de vista, é uma coisa mais exigente do que o amor.

cotacao De repente, passo a ser um ferrabrás que dá bofetadas a toda a gente, quando eu nunca andei à porrada com ninguém.  

Angola é uma obsessão sua?

Não. Eu gosto muito de Angola. Não é obsessão nenhuma. Eu tenho amor aos sítios onde nós, portugueses, tivemos. E, evidentemente que depois do Brasil, Angola foi uma jóia da coroa durante muito tempo. E os portugueses, apesar de tudo, não têm razões para se envergonhar, fomos um bocadinho diferentes e para melhor do que as outras potências coloniais, nomeadamente no entrosamento com as populações locais. Quer nós, quer os angolanos, vivemos apaixonadamente a vida uns dos outros, porque nos sentimos irmãos. E muita da irritação que existe dos dois lados tem que ver com a profundidade dessa relação fraterna. Eu não quero com isto dizer que Moçambique é menos, ou a Guiné-Bissau, ou São Tomé, ou Cabo Verde, com os quais as afinidades também são muitas.

 

Mas tem sido sempre um crítico regular e muito assertivo do Governo do MPLA.

Eu sempre fui um crítico dos regimes de partido único. Angola hoje já não é uma ditadura, mas é ainda, e infelizmente, um regime autocrático, dominado pela corrupção no sistema político. Há um nível de corrupção em Angola que bate recordes mundiais. Infelizmente. Eu conheço o Presidente José Eduardo dos Santos pessoalmente, fui o primeiro não angolano que já tinha estado duas ou três vezes na Jamba [território que era controlado pela UNITA de Jonas Savimbi], a ser convidado para ir a Luanda em 1989 e encontrei-me com ele no Futungo de Belas [antiga residência oficial do Presidente da República angolano]. A mensagem que transmito, numa abordagem benigna, para a nomenclatura que tem dominado Angola há quarenta anos a esta parte, é esta: deixem o senhor reformar-se, ele está na idade de se reformar. Ele está a competir com um péssimo exemplo, que é o homem da Guiné Equatorial, um torcionário miserável que infelizmente meteram na CPLP de forma infame, com a cumplicidade daqueles tipos que fazem promiscuidade entre política e negócios, como é o caso do Luís Amado, que foi ministro de um governo socialista, coisa contra a qual eu me indignei com muita veemência.

 

Se Jonas Savimbi estivesse vivo, as coisas seriam diferentes?

E se os alemães do Hitler têm invadido a Inglaterra em vez da Rússia… O Savimbi era um tipo que tinha grandes qualidades, tinha defeitos como todos, ali não há ninguém com as mãos limpas de sangue.

 

Há muita crítica sobre o investimento angolano em Portugal e que tem que ver com a origem do dinheiro…

Eu critico de duas maneiras. Por um lado, porque a origem do dinheiro é indiscutivelmente aquela que a gente sabe. A senhora tem seguramente talentos, além de ser bonita, não a conheço pessoalmente, mas como é que é possível que a filha do Presidente [Isabel dos Santos] consiga amontoar uma fortuna com as dimensões do que se tem visto? E aquela envolvente toda. Não é a filha. É a filha, são os filhos, é o vice-presidente, que é o tipo que cai sempre em desgraça. Com o povo a viver na mais cruel das misérias. Por outro lado, eu até compreendo, do ponto de vista psicológico, o gozo que lhes dá, tendo sido colónia, em tornarem-se quase uma potência colonizadora. Deve dar uma grande satisfação. Mas é inaceitável o que aquele dinheiro tentou fazer da comunicação social em Portugal. Houve uma fase em que eles se preparavam para comprar a RTP e a Lusa e estavam com o Relvas e aquela tropa fandanga toda. Em nome das privatizações.

 

Porque é que a avaliação do investimento chinês é diferente? A China não é uma democracia?

Há quem faça também essa avaliação. Eu acho que há um balanço que deve ser feito entre as vantagens e os inconvenientes do ponto de vista dos angolanos e estavam demasiado à vista. Eu posso dar exemplos que se passaram comigo. Pode parecer que estou só a olhar para o meu umbigo, mas os inconvenientes eram óbvios e punham em causa liberdades fundamentais cá. Os gajos do i andaram um mês a chatear-me para me entrevistarem. Então eu disse, temos de ter uma conversa pessoal antes. Um dia, há dois, três anos telefonaram-me a marcar a entrevista, e eu disse que queria ter uma conversa antes porque, fosse qual fosse a primeira pergunta que me fizessem, havia duas linhas que tinham de entrar: que eu condeno veementemente a presença de dinheiro da cleptocracia angolana na comunicação social portuguesa. Desfez-se a entrevista. Não me disseram mais nada. Passada uma semana, contei a história na SIC Notícias e, passada outra semana, veio na primeira página do i que eu tinha pago à Bragaparques, dez anos antes, dinheiro em excesso em relação à obra do Martim Moniz. Isto é uma coisa que está para além de tudo o mais. É uma vergonha num jornal que se diz independente, onde há gente capaz e que eu gosto de ler. Foi o efeito perverso do dinheiro dos angolanos. Boa parte do que se passou na banca portuguesa tem que ver com a porcaria desta promiscuidade. Você vai ver o BES... e eu tive vergonha de ver o Ricardo Salgado ir de mão estendida ao José Eduardo dos Santos pedir uma ajuda e levar uma tapona. E quanto dinheiro é que eles meteram no bolso daquela cleptocracia toda que está em Angola só com o BES Angola? Foi mais do que aquilo que custa o Sistema Nacional de Saúde por ano. Mais de seis mil milhões. E eles no BPI e no BCP. O que é isto? É péssimo. Eu sou socialista, sou um gajo moderado, mas sou contra estas poucas vergonhas. E não sou politicamente correcto, por isso não tenho problema algum. Já que tenho de dar bofetadas, ao menos que dê algumas de luva branca.

 

Por estes dias, a quem é que gostaria de dar uma bofetada?

Há uma coisa que devo aos meus pais, ao meu pai e sobretudo à minha mãe. Nunca levei uma bofetada na vida e nunca dei nenhuma a qualquer um dos meus filhos, e tenho cinco. Não sou um homem de bofetadas e acho que nada se resolve com violência. 





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mais votado joaoaviador Há 3 semanas

De mão estendida era para ver se também sacava algumas pedritas daquelas que o Joãozinho sabe!

comentários mais recentes
Anónimo Há 2 semanas

Agora percebo a má educação, foi falta de umas boas bofetadas.

Anónimo Há 2 semanas

As bofetadas educativas ao pé das viagens de borla a fFrança, são umas criancinhas.

Anónimo Há 2 semanas


PS - PCP - BE --- ROUBAM OS TRABALHADORES E PENSIONISTAS DO PRIVADO


Novas pensões mínimas serão sujeitas a prova de rendimento...

para se gastar mais dinheiros com os subsídios às pensões douradas da CGA.


(As pensões da CGA são subsidiadas em 500€, 1000€, 1500€ e mais, por mês.

Estas pensões sim, devem ser sujeitas a condição de recursos.

E não as mínimas.)

Anónimo Há 2 semanas

Uma avioneta na JAMBA carregada de MARFIM e DIAMANTES!A carga era tal que a coitada da avioneta caiu!Adivinhem, quem é que acompanhou a queda da avioneta?

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