Weekend Joaquim Albergaria: Somos daqui, mas somos de muitos sítios ao mesmo tempo

Joaquim Albergaria: Somos daqui, mas somos de muitos sítios ao mesmo tempo

Joaquim Albergaria, baterista dos Paus, desafiou os amigos Ivo Santos e Rui Pité para criarem uma banda de clubbing nacional. Chama-se Bateu Matou, vai viver sobretudo ao vivo e estará em palco este sábado no Musicbox, em Lisboa.
Joaquim Albergaria: Somos daqui, mas somos de muitos sítios ao mesmo tempo
Bruno Simão
Lúcia Crespo 27 de outubro de 2017 às 14:00

Os subúrbios eram os lugares de verdadeira mistura. E foi nos subúrbios que Joaquim Albergaria cresceu. O baterista era o miúdo branco do rock e do punk rock, bebendo também do drum and bass do kuduro. Pertenceu a várias bandas, como os Caveira e os The Vicious Five e, em 2009, fundou os Paus, que vão lançar um novo disco no início do ano. Em paralelo, e na constante procura por novas linguagens, Joaquim Albergaria desafiou os amigos Ivo Santos e Rui Pitê para criarem uma banda de clubbing nacional. Chama-se Bateu Matou, vai viver sobretudo ao vivo e estará em palco este sábado no Music Box, em Lisboa, durante o festival Jameson Urban Rout. Sempre acompanhado pelas (suas) palavras "livreza" e "bacanidão", Joaquim Albergaria mantém uma terceira banda, a MQNQ, trabalha em estratégia de marca e tem o programa de rádio "Disco Disse" na Antena 3. "Ouvimos um disco do princípio até ao fim e depois comentamos. Há aqui uma tentativa de desacelerar o modo de consumo".


O que é que eu posso aprender ou o que é que eu posso fazer que ainda não fiz? Vivo sempre numa lógica de procurar lugares estranhos, aquilo que me dá entusiasmo é descobrir coisas novas, e isso passa também por tentar convencer músicos melhores do que eu a deixarem-me tocar com eles. Foi o que aconteceu com os Paus, por exemplo. É o que acontece agora com os Bateu Matou. O Rui Pitê tem uma abordagem musical que parte sempre do ritmo, ou seja, se o ritmo faz sentido, a seguir as coisas encaixam. O Ivo Costa é o meu baterista favorito português. A minha lógica foi: como é que eu trabalho com esta gente?

Por outro lado, há cerca de dois anos, os Buraka [Som Sistema] acabaram e deixaram um vazio, não só musical, mas sobretudo em termos de trabalho identitário muito importante – o que é ser daqui hoje em dia? Somos daqui, mas somos de muitos sítios ao mesmo tempo. Individualmente, eles continuam a fazer esse trabalho de identidade. Os Batida também. Mas os Buraka tinham ali um lado de banda e de momento celebratório que reunia muita gente diferente à sua volta. Por inveja, eu acho, e por acreditar que podia aprender qualquer coisa, lancei o desafio ao Pité e ao Ivo para criarmos uma banda de baile daqui, de agora, para agora. E o que é ser uma banda daqui, de hoje? É tudo. Não somos daqui se não tivermos uma relação com o quizomba, não somos daqui se não tivermos uma relação com kuduro ou com o hip hop. Somos daqui e de hoje se estivermos realmente ligados. O som de Lisboa é o resultado destes sons misturados.

Temos percursos diferentes, mas somos todos miúdos de subúrbio e acho que isso nos define. O Pité vem do drum and bass e de um colectivo chamado Cooltrain Crew, fundamental para a construção de uma identidade da música electrónica portuguesa. Ele vem desse lado e vem da Amadora, onde comunidades africanas muito grandes partilhavam quizomba e kuduro. O Ivo é mais um músico de bares e é alguém que é músico porque sabe ouvir e, ao saber ouvir, consegue assimilar montes de linguagens e fazer uma ponte entre essas linguagens, é um músico incrível. Eu, se calhar, sou um gajo que vem do punk rock, do rock, sou o miúdo branco do rock que sempre ouviu estes fenómenos a acontecer no seu bairro. E, através da bateria e do ritmo, fui criando relações com tudo isso, com o drum and bass e com o kuduro.

Hoje moro em Lisboa, mas vivi no Cacém, vivi na Arrentela, ao pé do Seixal, vivi em Sacavém. E isto, nos anos 80 e 90, foi determinante. As coisas não aconteciam propriamente nos subúrbios, mas os agentes eram de lá, ou seja, as pessoas que foram reinventando identidades, apropriando-se de sons para criar outras coisas, faziam-no mais nos subúrbios do que no centro da cidade. Para o mostrar, tinham de vir ao centro, onde existia o espaço e a massa crítica. E isto era verdade para o punk rock, para o rock and roll, para o drum and bass, para o hip hop. Mas era nos subúrbios que as pessoas realmente se misturavam. Os subúrbios eram os lugares de verdadeira mistura.

Comecei a ouvir música com a colecção de discos dos meus pais, com aquela salganhada feita de Zeca, Super Tramp, vinis dos cânticos das manifestações do 1º de Maio, Michael Bolton… a colecção dos meus pais é a colecção do Círculo de Leitores. Depois, através dos meus vizinhos, chega-me o rock, o heavy metal, o punk rock. Havia ali toda uma comunidade de punk rock que tinha bandas de garagem, que fazia música. Comecei a tocar bateria aos 14 anos e depois tive uma banda a seguir à outra. A primeira em que toquei chamava-se Brain Damage, nome nada original. Nos walkmans, tínhamos Metallica, Megadeth, depois apareceram grupos de punk rock e bandas portuguesas como a X-Acto, com uma ideologia bastante acentuada. Esta comunidade organizava os seus próprios concertos, tinha a sua própria rede de distribuição e de comunicação. Mas, claro, existia contaminação de outras comunidades e de outras estéticas musicais, e acho que estamos agora a colher os frutos desse contágio.

Nos tempos de faculdade, tive um projecto de improvisação rock chamado Caveira, que era acima de tudo um exercício de liberdade estética numa altura em que surgiu a ZDB, essencial como espaço exploratório e de partilha dessas aventuras. Na mesma altura, comecei com outros amigos os The Vicious Five, que foi o meu primeiro projecto a sério. Comecei com a bateria mas, na altura da gravação do primeiro EP, o vocalista decidiu sair, era preciso uma voz, eu gravei e a coisa resultou. Acabámos a banda em 2009, quando já não sentíamos aquela alegria necessária para fazer a coisa andar para a frente. Existia ali uma repetição de fórmulas e, para preservarmos a amizade e não acrescentarmos música que não queríamos, percebemos que era melhor ficarmos por ali. Capítulo encerrado.

Depois surgem os Paus, com pessoas que conheci na mesma comunidade do punk e que tinham uma grande vontade de experimentar. Neste momento, tenho três bandas, a terceira chama-se MQNQ, é um projecto com o Daniel Neves, produtor de música electrónica. Diria que o meu "output" criativo principal está nos Paus, é aquilo que está mais próximo de mim, mas preciso de aprender coisas novas noutros sítios para levar outras linguagens à banda. Seremos Paus até nos aborrecermos, ainda há montes de coisas que ainda temos de fazer e o disco novo está óptimo.

Eu não sou aquele músico que sinta uma responsabilidade de retratista do tempo que está a viver, não tenho esse lado de cronista, há quem o faça muito bem e eu não tenho isso para mim. Trabalho mais na lógica de o que é eu ainda não fiz, que vocabulário novo posso acrescentar. Tenho tatuadas as palavras "livreza" e "bacanidão", expressões que foram aparecendo e são o melhor resumo deste processo, que é fazer coisas fixes com pessoas de quem gostamos. De alguma forma, a partilha e o amor aparecem como "drive" disto tudo. Depois, a "livreza" surge também no sentido de fazermos as coisas numa medida que nos seja confortável – cantar como é natural que cantemos ou tocar um instrumento como uma extensão natural daquilo que o nosso corpo faz. É uma expressão que sempre ouvi. Alguém que se vestia de forma única era uma pessoa com uma "livreza" muito própria, ou seja, com a liberdade de ser ela própria. E a "bacanidão" diz esta coisa: faz com amigos, cria bons sentimentos e boas coisas sairão daí.

Pensei em escrever um ensaio, ainda não o fiz, preciso de "deadlines"… e entretanto fui pai. De repente, deixamos de ser o centro da nossa vida, e isso é uma experiência fundamental para dar outras luzes a esta coisa da "bacanidão" e da "livreza". A paternidade mostra-nos que temos de sair de nós, o que é super libertador. Senti-o com a chegada da Glória, senti que era menos sobre mim. Tenho espaços só para mim, mas que hoje não seriam possíveis, da forma que são, se não os contrabalançasse com a vida familiar.

Não vivo só da música, faço estratégia de marca e gosto muito de vida de ateliê, de pensar em conjunto, da mesma forma que, enquanto músico, não me vejo muito a solo. Gosto da ideia do exercício da partilha, do fazer junto, e de perceber como uma ideia fica melhor com os "inputs" de toda a gente.

Estudei Línguas e Literaturas Modernas na Nova, mas desisti. Fui trabalhar para uma loja de malas no Bairro Alto, depois fui assistente de guarda-roupa numa coisa chamada Arranca Corações. Com as experiências e os filmes, fui parar ao departamento de apoio à realização da Garage Films e daí passei para uma agência de publicidade do grupo Ativism e depois para uma unidade chamada Mola Ativism. Em paralelo, tinha os The Vicious Five. A dada altura, as duas actividades encontraram-se quando integrei uma equipa para pensar o que viria a ser a Vodafone FM. Havia a necessidade de uma figura de curadoria que de alguma forma funcionasse como ponto de ligação à comunidade de novos músicos e sons. Acompanhei os primeiros dois anos daquela rádio. Tenho muito orgulho. Gostei de fazer essa ligação entre os dois mundos.




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