Weekend Mafalda Veiga: Estava habituada a observar e, de repente, passei a ser eu a observada

Mafalda Veiga: Estava habituada a observar e, de repente, passei a ser eu a observada

Há 30 anos, Mafalda Veiga lançava o álbum “Pássaros do Sul”, que rapidamente passou a disco de prata e, com ele, ela passou da condição de observadora a observada e isso nem sempre foi bom. Hoje, o palco não é, de todo, um lugar estranho para a cantora, que vai estar no Tivoli a 4 de Março e na Casa da Música no dia 8, com o seu disco “Praia”.
Mafalda Veiga: Estava habituada a observar e, de repente, passei a ser eu a observada
Bruno Simão
Lúcia Crespo 24 de fevereiro de 2017 às 14:00
Mafalda Veiga estava na faculdade quando gravou "Pássaros do Sul", álbum que rapidamente foi disco de prata e, com ele, ela passou da condição de observadora a observada e isso nem sempre foi bom. Havia olhares simpáticos e outros menos simpáticos e o palco ainda lhe era um lugar estranho. Foi há trinta anos. No tempo que passou, a cantora e compositora lançou uma dezena de álbuns, fez espectáculos na estrada, concertos de auditório e hoje o palco é, para Mafalda Veiga, um espaço de intimidade, um lugar de conforto. O seu último disco chama-se "Praia", tem nove temas entrelaçados e foi produzido por Fred Pinto Ferreira. Com a colaboração dos músicos Marco Nunes, Miguel Barros, Ricardo Riquier, e a participação especial de artistas como Frankie Chavez, Filipe Raposo e Dom La Nena, o novo álbum vai ser tocado e cantado a 4 de Março no Teatro Tivoli, em Lisboa, e a 8 de Março na Casa da Música, no Porto. 


Sempre gostei de fazer um bocadinho de tudo, gostava de pintar, gostava de escrever, gostava de tocar e, durante a minha adolescência, sentia-me indecisa em relação àquilo que iria fazer. Morei no Alentejo até aos oitos anos, depois mudei-me para Badajoz. Se tivesse continuado a viver em Espanha, se calhar teria seguido pintura. O meu bisavô, Simão da Veiga, era pintor, na minha família toda a gente pintava e foi a minha avó quem me ensinou a usar os pincéis e a misturar as tintas. Depois estive num ateliê. Quando regressei a Montemor-o-Novo, como não havia escolas de pintura, desliguei-me um pouco e foquei-me mais na escrita de canções.

Quando era pequena, comecei por cantar fado. Foi o meu tio Pedro, guitarrista, quem me ensinou. Eu não tinha jeito nenhum, mas gosto e sinto o fado e, neste disco, até escrevi uma canção chamada "Fado". No fundo, construí uma história sobre a minha relação com Lisboa e com o rio, que é um verdadeiro veículo de emoções na cidade. É um rio à beira-mar, muito comovente porque evoca o regresso, a despedida, a distância, a saudade. Quando há nevoeiro, os navios fazem aquele som maravilhoso, que é algo extremamente forte e foi, sem dúvida, a partir daí que esta canção nasceu. Nasceu desse sentimento de saudade, e de regresso também.

Lisboa é, de facto, uma cidade muito especial, é uma cidade cheia de História e cheia de mar. Ao mesmo tempo, é de uma intimidade tocante, ainda é uma cidade muito autêntica. Espero que haja consciência do valor dessa autenticidade. Faz-me confusão que partes inteiras da cidade estejam completamente viradas para os turistas, em detrimento dos habitantes. Faz-me confusão a nossa subserviência em relação aos turistas. Se tudo continuar a este ritmo, Lisboa fica sem moradores e não sei qual será o turista a achar piada a uma cidade sem habitantes e que mais parece uma Disneylândia, como já acontece em algumas zonas da Baixa ou do Rossio.

O meu tio Pedro ensinou-me os primeiros acordes e, quando eu tinha 11 anos, o meu pai ofereceu-me uma guitarra. Comecei a tocar e cheguei a ter uma banda, tocávamos nas festas da escola em Montemor, mas só mais tarde, já em Lisboa, é que comecei a compor com alguma regularidade. A primeira canção que escrevi em português foi o "Velho", depois musiquei uma letra anónima e chamei-lhe "Balada De Um Soldado". De repente, tinha muita coisa comigo e gravei o meu primeiro disco, "Pássaros do Sul", quando estava na faculdade.

Foi tudo muito rápido. Tirando aquelas três ou quatro vezes que toquei na escola secundária, eu não tinha qualquer experiência de palco e acabei por ter de aprender muita coisa estando demasiado exposta. Senti-me sempre fascinada pelo palco, mas entrava em pânico e tinha de inventar truques para superar esse pânico. Só muito mais tarde percebi que o palco é um lugar íntimo, só muito mais tarde senti o prazer enorme de estar em palco. Na verdade, acho que essa mudança de perspectiva teve que ver com o nascimento do meu filho, só nessa altura é que consegui desbloquear. De repente, passou a ser mais fácil comunicar com as pessoas até ao ponto de conseguir estar num palco como se estivesse em casa. Aprendi a valorizar a possibilidade de, numa sala enorme, estarmos com muita intimidade uns com os outros.

O álbum "Pássaros do Sul" foi surpreendente, para mim e para a editora. Terá sido o disco de estreia português que mais rapidamente se tornou disco de prata e, de um dia para o outro, as pessoas passaram a reconhecer-me na rua, o que foi bom, mas um bocadinho assustador. Eu estava habituada a escrever em esplanadas, a olhar à minha volta e observar e, de repente, passei a ser eu a observada, o que foi estranho, até porque somos geralmente observados não só com um olhar simpático mas muitas vezes com um olhar crítico e nem sempre simpático.

Na altura, eu estava no segundo ano da faculdade, em Línguas e Literaturas Modernas, ia tocando e estudando ao mesmo tempo. Foi na fase em que me viciei em café, dormia muito pouco, mas estava feliz, acabei por terminar o curso, até gostava muito de investigação literária, mas fui seguindo a música. Nestes últimos anos, tive vários formatos de espectáculos na estrada, fiz muitos concertos de auditório, umas coisas muito quentinhas, muito íntimas.

Lancei agora o álbum "Praia", que eu já queria ter feito há mais tempo. O meu último disco de originais, "Chão", saiu em 2008, teve seis singles e tocou imenso. No meio, houve um disco mais experimental, o "Zoom", em 2011, que fiz com o Fred. Nestes últimos tempos, constatei que não escrevia da mesma maneira e tive de encontrar uma forma de me sentir outra vez eu nas minhas canções e isso foi algo que demorou um bocadinho, mas acho que é a evolução normal de qualquer escritor de canções.

Sinto que este disco reflecte muito aquilo que sou, mais do que os outros. Sinto que toca de uma maneira mais directa e sem filtros a pessoa que eu sou. Chama-se "Praia" porque eu adoro a palavra praia e também adoro a praia como lugar de paz. As minhas canções vêm sempre das palavras, da sua sonoridade, daquilo que elas significam e das imagens que criam. Há palavras muito importantes para mim, são as minhas palavras mais íntimas.

Neste álbum, tentei afirmar aquilo que é bom e que nos torna felizes, como contraponto a tudo o que há de mau hoje em dia, e que é imenso. Caminhamos de uma forma rápida para qualquer coisa desconhecida, tem havido um retrocesso enorme em relação a tudo o que são valores básicos que tínhamos como garantidos, pensávamos que determinados direitos eram inabaláveis e que não seria preciso afirmá-los dia após dia. É importante reforçar a formação cívica.

Nós, portugueses, somos um bocadinho melancólicos, mas a melancolia é uma coisa bonita. Não somos um país muito optimista, mas somos um país divertido, temos sentido de humor. Temos, sim, uma auto-estima um bocadinho baixa em relação àquilo que se faz em Portugal. Somos um país de gente muito criativa e nem sempre temos consciência disso. Por exemplo, na área da ilustração, que eu adoro, temos pessoas extraordinárias, como a Marta Monteiro, mas se eu falar nela, provavelmente, as pessoas não sabem quem é e deviam saber. Falta divulgação. Muitas vezes, é preciso haver um prémio internacional, mesmo que esse prémio não seja nada de especial, para um português ser "aprovado" em Portugal, e isso é um reflexo de uma educação virada para fora, com pouco respeito pela memória, pela história e pelo que é ser português. 





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