Vinhos Mais respeito pelo Grão Vasco

Mais respeito pelo Grão Vasco

Se alguém tiver por casa garrafas de Grão Vasco velhinhas e esteja a pensar desfazer-se delas com desdém, faça o favor de enviar as mesmas aqui para a redacção do Negócios, que nós estamos dispostos a pagar por elas.
Mais respeito pelo Grão Vasco
Edgardo Pacheco 24 de junho de 2017 às 13:00
No final dos anos 80, um professor universitário costumava, uma vez por outra, juntar aos domingos à noite uns poucos alunos numa casa de pasto que ficava numa rua ao lado da estação de comboios de Santa Apolónia. Objectivo do conclave: discutir o estado do mundo, ferrar os dentes nuns bons bifes à Cortador ou à Marrare e – muito importante – atacar a garrafeira da casa.

Se, naquela altura, o novo país vitivinícola começava a revelar-se com vinhos carregados de fruta e muita madeira, o grupo referido acima era mais dado a vinhos velhos. Coisa que, já agora, não se alterou com tempo.   

Ora, justamente por causa da moda dos vinhos novos que então arrancava, muitos restaurantes começaram a ver crescer os "stocks" de vinhos clássicos com alguma idade e provenientes de regiões ostracizadas pelo modernismo vitícola (Bairrada e Dão).

Em consequência, os donos de tais restaurantes faziam saldos das marcas que não rodavam, ao ponto da tal casa de pasto – cujo nome já nem me lembro e já nem sequer sei se existe – colocar dezenas de garrafas em cestos de vime na entrada da sala das comidas. Era um festim. Revirávamos as garrafas, limpávamos o pó e mandávamos abrir, sempre com a garantia de que se o vinho não estivesse em condições abria-se outra garrafa sem qualquer stress. E tudo isto por meia dúzia de patacas.

Está de ver que naqueles bons tempos o grosso dos vinhos em causa era originário do Dão, onde havia de tudo. Muitos tintos, mas também alguns brancos de adegas cooperativas, de uniões de cooperativas, de produtores privados da região e até de outros fora da região que ali se abasteciam.

E no meio de tanta coisa lembro-me de bebermos algumas garrafas de Grão Vasco de colheitas bem recuadas, mas, lá está, deslumbrantemente surpreendentes porque a imagem que se tinha deste barato e histórico vinho da Sogrape é que ele era feito para ser bebido jovem e ponto final. Não é necessariamente assim. Se nem todas as colheitas evoluem bem, algumas dão-nos alegrias tremendas.

De maneira que foi com este espírito alegre que me dirigi há dias à Tasca da Esquina, em Lisboa, para uma espécie de relançamento de imagem da marca Grão Vasco. Não tanto por causa das novas colheitas de 2016 mas – e isso foi esperteza da equipa comercial da Sogrape – para provar 6 Grão Vascos bem velhinhos. E muito bons. A saber, brancos de 1981, 1983 e 1992. E tintos de 1977, 1991 e 2006.

Cada vinho tinha uma identidade própria, mas, em resumo, podemos dizer que os brancos estão naquela família das notas minerais e das folhas e ervas aromáticas secas (sempre com boa acidez), enquanto os tintos se apresentam com aqueles descritores que nos levam para o alcaçuz, a cinza, as vides secas, mas com uma boca sempre aveludada e fresca. São daqueles vinhos que nos apetece apresentar a amigos estrangeiros enófilos, esperar pelos seus comentários e depois revelar – assim como nem quer a coisa – que quando foram lançados custavam meia dúzia de tostões. Sim, o preço é muito importante quando avaliamos este perfil de vinhos.

Como as colheitas referidas já não existem, teremos de nos contentar com os novos Grão Vasco de 2016 (branco e tinto), que, com a tal nova imagem, estão no mercado para competir na faixa dos €3,5. São, naturalmente, vinhos de perfil contemporâneo (muita fruta fresca), mas, sendo originários do Dão, vêm com condições elementares de boa evolução no tempo.

Ou seja, se bebermos agora um Grão Vasco Branco, vamos sentir, com destaque, as notas de fruta tropical e uma boca alimonada. E, no caso do tinto, fruta jovem e algum vegetal que lhe dá alma. Tudo isso é bom e serve muito bem com inúmeras iguarias.

Donde, e para não variar muito na tese sempre defendida nestas páginas, um exercício inteligente é comprar uma caixa de branco e outra de tinto da últimas colheitas e abri-las entre 2017 e 2023, porque só assim perceberemos o mistério da evolução dos vinhos.

E, quando estamos perante um vinho histórico e barato, o risco é nulo, mas a probabilidade da surpresa é enorme.

O Grão Vasco branco e tinto que surge agora com a chancela Carvalhais e nova imagem tem um preço recomendado de: 3,49€




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