Weekend Manolo entre os homens

Manolo entre os homens

Os sapatos Manolo Blahnik são uma fixação feminina global e um objecto de culto no mercado do investimento em bens culturais. O surgimento de uma colecção masculina irá provocar uma tremenda agitação nos peritos e, acima de tudo, nos investidores.
Manolo entre os homens
José Vegar 30 de junho de 2018 às 14:00
Manolo Blahnik construiu uma fantasia singular e é talvez isso que o torna tão amado pelo mercado. Cada um dos seus sapatos, que continua a desenhar pessoalmente, traz impressa uma marca de elegância única, mas também uma carga de sensualidade e de choque que os coloca numa outra dimensão. Um par Manolo não é só um par de sapatos, é uma declaração ao mundo por parte de quem os usa.

Esta posição, que poucos garantem no mundo da moda, tornou a marca Manolo num império extremamente lucrativo e com presença em todos os segmentos globais, do mais alto aos médios, sempre potenciado pelo seu uso por parte das estrelas mediáticas da contemporaneidade.

Ao mesmo tempo que, colecção após colecção e ano após ano, a posse de um par de Blahnik se torna numa obsessão para milhares de mulheres, a cotação do designer no mundo do investimento em bens culturais vai ascendendo. Blahnik beneficia de várias condições positivas para que assim seja. Logo à partida, o volume das suas colecções é relativamente limitado, permitindo uma considerável limitação da oferta, o que agrada bastante ao mercado, já que a raridade é fundamental para a valorização. Depois, o designer já cria e comercializa desde os anos 1970, o que faz com que algumas das suas colecções possam ser consideradas "vintage". Finalmente, a agitação permanente sobre os seus sapatos, da estrela de cinema que os usa à dama presidencial que diz adorá-los, faz com que o mercado, sempre sensível e emocional, valorize permanentemente a produção.

Como pano de fundo, Blahnik beneficia, como Loubotin e os outros designers de topo, de uma conjuntura muito recente - terá menos de 10 anos - em que a produção de moda ganhou o estatuto de bem cultural, gerando oferta em leilões, "dealers" especializados e pontos de venda de nicho. A razão para tal é a de que é impossível pensar o mundo das últimas décadas sem pensar na moda que também o define.

Dentro desta conjuntura, o surgimento, nos próximos dias, de uma colecção completa de sapatos de homem Blahnik, o que é uma novidade, provoca uma série de interrogações. O designer, que até agora só tinha projectado de forma muito limitada modelos masculinos, criou 35 estilos de sapatos, com algumas dezenas de variações, e os seus executivos dizem que a produção poderá representar 20% do negócio dentro de alguns anos.

Para o investidor, a entrada no radar de Manolos para homens provoca várias análises. Se a colecção falhar, o investimento será obrigatório, exactamente porque os sapatos irão tornar-se raridades e singularidades. Se, pelo contrário, a colecção triunfar, e outras surgirem, a análise é muito mais complexa. Será necessário encontrar o modelo icónico, que será venerado e irá alcançar o fascínio e a eternidade. É um desafio para grandes especialistas. 


Nota ao leitor: Os bens culturais, também classificados como bens de paixão, deixaram de ser um investimento de elite, e a designação inclui hoje uma panóplia gigantesca de temas, que vão dos mais tradicionais, como a arte ou os automóveis clássicos, a outros totalmente contemporâneos, como são os têxteis, o mobiliário de design ou a moda. Ao mesmo tempo, os bens culturais são activos acessíveis e disputados em mercados globais extremamente competitivos. Semanalmente, o Negócios irá revelar algumas das histórias fascinantes relacionadas com estes mercados, partilhando assim, de forma independente, a informação mais preciosa.





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