Weekend Marta de Menezes: Ao sabermos quem somos podemos decidir quem queremos ser

Marta de Menezes: Ao sabermos quem somos podemos decidir quem queremos ser

Marta de Menezes tem andado na fronteira entre a arte e a ciência. Criou uma estrutura, a Ectopia, que traz regularmente artistas a Lisboa para trabalharem com laboratórios portugueses.
Marta de Menezes: Ao sabermos quem somos podemos decidir quem queremos ser
Bruno Simão
Susana Moreira Marques 16 de dezembro de 2016 às 14:00
As questões que um artista se coloca num ateliê talvez não sejam tão diferentes das que um cientista se coloca no laboratório: os grandes mistérios humanos a orientar os gestos mais minuciosos. Mas talvez o cientista esteja mais interessado em desvendar o mistério - e o artista em mostrá-lo. Marta de Menezes tem andado na fronteira entre estes dois mundos. Não só fez toda a sua obra nessa intersecção, como criou uma estrutura, a Ectopia, que traz regularmente artistas a Lisboa para trabalharem com laboratórios portugueses. Criou ainda um outro projecto de residências, o Cultivamos Cultura, no Alentejo, que, embora não se foque na ligação entre arte e ciência, parece ter propensão para juntar pessoas, encontrar ligações, e ajudar a definir a identidade de um lugar. As questões que percorremos são sempre as mesmas. Difícil é continuamente achá-las fascinantes e persegui-las nos sítios mais inusitados: por exemplo, no padrão de uma asa de borboleta.


1. Quando propus que o meu projecto de fim do curso de Belas-Artes fosse a manipulação de borboletas, não faço a mais pequena ideia do que é que passou pela cabeça dos professores. Só tenho a agradecer o facto de me terem dito: vai e faz.
Fiz um estágio de três meses em Leiden, na Holanda, para fazer esse projecto e talvez ainda seja, hoje, o trabalho pelo qual sou mais conhecida.
A primeira vez que mostrei a peça ao público foi lá na Holanda. Leiden tem um jardim botânico e pensaram que era giro pôr as borboletas na estufa. Mas elas não podiam sair da estufa: como mantê-las lá? E quantas borboletas é que teriam de lá estar para as pessoas efectivamente as conseguirem ver? Era logisticamente impossível. O mais prático era mostrar, como num Museu de História Natural, as borboletas mortas, todas montadas. E foi muito surpreendente para mim - e foi isso que me ajudou a formular como é que depois esta peça, "Nature?", deveria ser apresentada - ver que a reacção do público a borboletas montadas com padrões estranhos não conseguia deixar de ser negativa. As pessoas não acreditavam que eu tivesse feito manipulação enquanto as borboletas estavam vivas. Nem acreditavam que as borboletas não sofressem qualquer tipo de efeito por eu lhes ter manipulado as asas. Isso foi destruidor para mim: porque a peça não é sobre o verdadeiro ou falso da manipulação, mas sobre o facto de cada borboleta ser única. Sobre levantar a questão de serem naturais ou não. Porque têm esperança de vida normal, porque têm os hábitos de acasalamento normais, porque a modificação acontece só naquela borboleta e não na linha de descendentes que venha a seguir a ela. Podia chamar àquelas borboletas naturais ou não? O simples facto de estarem vivas ou não era a primeira observação das pessoas para decidir se uma coisa é natural.

2. As questões éticas e as legislações sobre ética a que eu estou sujeita são exactamente as mesmas que qualquer outra pessoa. E pelo facto de eu as pôr em causa ocasionalmente não quer dizer que eu passe a linha para aquilo que não é permitido. Mas o facto de eu chegar a essa questão - será que se pode passar a linha ou não? - é uma liberdade a que os artistas se permitem e que a maior parte das pessoas não se permite. Ou porque não gostam de pensar sobre o assunto ou porque não está relacionado com o que elas fazem, mas faz parte do papel dos artistas testar barreiras e qualquer tipo de fronteira que exista. Não quer dizer que os artistas passem a fronteira. Mas só o facto de estarem ali próximo faz com que se questionem. E a maior parte das pessoas não passa muito perto.

3. Em arte, desde sempre, que se pensa de onde é que nós viemos, quem é que nós somos, para onde é que nós vamos? Quer seja uma paisagem, quer seja uma pintura rupestre, quer seja uma catedral, as questões são sempre as mesmas.
Aquilo que faço é pensar em conceitos e no meu trabalho há uma linha condutora que é a questão da identidade. Quer sejam borboletas, quer sejam células, quer sejam proteínas, quer sejam bactérias, quer sejam ressonâncias magnéticas, qualquer que seja o material ou a técnica, tem tudo que ver com uma questão maior que está relacionada com identidade: uma identidade genética, uma identidade individual, uma identidade de raça, uma identidade de comunidade, uma identidade de país, uma identidade de mundo, uma identidade de espécie. A identidade pode ser pensada a tantos níveis que para mim é difícil - e nem tenho vontade - de sair dessa ideia que me permite pensar de tantas maneiras.
Há uma ideia que para mim é muito importante: ao sabermos quem somos podemos decidir aquilo que queremos ser.

4. Fiz um mestrado em Arte e Ciência em Oxford. Nunca me tinha acontecido na vida e nem sequer sabia que estar na faculdade podia ser assim tão interessante. O mais interessante em Oxford foi fazer parte da Universidade de Oxford. Dizemos: "Fui para a Universidade de Oxford" e não "fui para a faculdade disto ou daquilo". Qualquer aluno da Universidade de Oxford pode ir a qualquer aula da universidade. É um direito que lhe assiste.
Os alunos estão associados a um departamento, mas sobretudo a um "college" e um "college" tem alunos de todas as áreas. É com essas pessoas que tomamos o pequeno-almoço, que jantamos, que vamos ao bar, que fazemos a nossa vida. Por isso não estamos só entre artistas ou só entre economistas, estamos num meio diversificado. Ao jantar, ficava à frente de um cientista e podia falar com essa pessoa sobre as minhas ideias. Podia falar com um filósofo ou com um historiador.

5. Portanto, continuo a pensar nas questões de identidade. Quero agora trabalhar com uma tecnologia que está muito na moda e que me interessou precisamente pelo enorme impacto que tem tido no mundo científico. Chama-se CRISPR. Tem mais ou menos 20 anos mas, nos últimos três anos, revolucionou a engenharia genética no mundo inteiro. Não pelo conceito de modificar seres vivos, mas pela facilidade que trouxe em fazê-lo. O custo diminuiu e a precisão aumentou. Laboratórios que não faziam modificação genética estão a fazê-lo agora. Revolucionou completamente a biologia. E como é que uma revolução pode acontecer não tanto por causa de conceitos, mas por questões logísticas? Deveríamos ter sido capazes de prever que a próxima revolução não seria uma revolução de conteúdo, mas de tecnologia: se o podemos fazer, porque não o fazer?
No Reino Unido foi aprovada a manipulação genética de embriões humanos, o que nunca tinha acontecido. Depois, há todos os "freaks" da ciência a pensar o que fazer com isto. Há quem ache que devíamos recuperar o mamute. Mas porque é que queremos recuperar o mamute? Quer dizer: não temos o Admirável Mundo Novo, temos o Jurassic Park.
Por um lado, há promessas de curar todo o tido de doenças e melhorar a espécie humana. Por outro, há pessoas a pensar que podíamos ter asas, coisas completamente fantasiosas. Não é possível ter asas porque não temos o sítio para as pôr. Mais uma vez temos de pensar naquilo que somos, de onde vimos e para onde queremos ir.





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