Weekend Miguel Araújo: Quando é que o nosso país perdeu o gosto pela sua própria identidade?

Miguel Araújo: Quando é que o nosso país perdeu o gosto pela sua própria identidade?

Fundador da banda Os Azeitonas, em 2002, o cantor e compositor Miguel Araújo acaba de lançar o seu novo álbum a solo. Chama-se “Giesta” e Giesta é o nome do lugarzinho onde nasceu há 38 anos e onde ficava a casa da avó Helena.
Miguel Araújo: Quando é que o nosso país perdeu o gosto pela sua própria identidade?
Miguel Baltazar
Lúcia Crespo 19 de maio de 2017 às 15:00
Em 1829, o tetravô fundou a Papelaria Araújo & Sobrinho, no Porto, e o caminho estava traçado. Tal como o bisavô, o avô, o pai e os tios, Miguel Araújo iria trabalhar naquele que chegou a ser um grande império familiar. Actualmente, já não é um grande império, é um hotel com o mesmo nome e um museu da papelaria antiga. E ele, que chegou a tirar o curso de Gestão, é um músico feito. Hoje é lançado o seu novo álbum a solo, chama-se "Giesta" e Giesta é o nome do lugarzinho onde Miguel nasceu há 38 anos e onde ficava a casa da avó Helena, conhecida por todos como a Mãe Helena. Neste álbum de memórias, Miguel Araújo fala em chiclete, 48k e k7, não como chorrilho de referências do passado mas como detalhes que nos prendem ao momento da canção. Fundador da banda Os Azeitonas em 2002, o cantor e compositor lançou o seu primeiro álbum a solo "Cinco dias e meio" dez anos depois e desenvolveu projectos com músicos como António Zambujo e Luísa Sobral. Sobre a canção de que todos falam, "Amar pelos Dois", interpretada por Salvador Sobral no Festival da Eurovisão, Miguel Araújo diz: "Adoro. De repente, toda a gente parou em torno de uma música. Um momento destes acontece uma vez na vida."


Giesta é o nome do lugarzinho onde nasci, faz parte de Águas Santas, na Maia. Escolhi este nome para o meu disco porque é um nome bonito e a palavra giesta também quer dizer outras coisas, como aquele arbusto de folha amarela que se vê nas estradas, e é sinónimo de gesta, que significa grande façanha. Isso, eu não sabia, mas conseguir fazer 12 músicas e juntá-las num disco é de facto uma grande façanha.

Este é um álbum de memórias. Nascemos selvagens, mas somos selvagens apenas durante dois segundos, pois temos uma filiação à mãe e essa mãe tem uma filiação à família, que tem uma filiação à cidade e por aí afora. Crescemos e há sempre um fiozinho que nos prende, uma espécie de cordão umbilical, depois o fiozinho vai esticando, a pessoa casa, tem filhos, cria-se um novo fio e o velho fiozinho perde-se. A última coisa que, se calhar, me prendia à Giesta era a casa da minha avó paterna, que foi vendida quando comecei este disco. Nessa altura, dei por mim a lembrar-me da infância. E, pronto, esta é a homenagem à minha família.

A minha avó chamava-se Helena e era conhecida por Mãe Helena. No Sul do país e nas aldeias do Alentejo, toda a gente trata toda a gente por tio, o tio isto, o tio aquilo, e depois há as tias de Cascais e as tias da Foz, onde eu moro. Quando fui para a Foz, os meus amigos tratavam os pais dos amigos por tio e por tia, eu nunca tinha ouvido isso porque, na zona onde nasci, é pai isto, pai aquilo. Por isso, a minha avó era a Mãe Helena. E ela era de facto uma mãe para todos nós. Éramos 13 primos, andávamos por ali à solta, e ela ficava sozinha a tomar conta dos netos. Era uma mulher forte e até tinha um quarto de ferramentas, algo que eu achava completamente normal, era capaz de chegar à escola e perguntar aos meus amigos: onde é que fica o quarto de ferramentas da tua avó? Depois percebi que não era nada normal, percebi que a minha infância era uma coisa de filme. Não deu um filme, mas, pronto, deu um disco.

Na música "1987", falo de chiclete, 48k e k7, mas este não é um disco geracional, nem acho que as coisas devam ser lidas assim. Quando as pessoas ouvem um detalhe numa música, há qualquer coisa que as prende. Acontece isso na música do Vinicius de Moraes ("Carta ao Tom 74") que fala na "Rua Nascimento Silva 107", uma rua que ganhou estatuto mítico. Em "Mingos & Os Samurais", o Rui Veloso fala em almanaques e mandrakes, o Mandrake é de uma geração anterior à minha, mas eu percebo o que é que ele quer dizer. Há um disco dos Rio Grande que eu adoro em que o João Monge, que escreveu as letras, fala dos sítios da sua infância. Ele diz: "Subi à Serra da Adiça…" e isso prende-me mais do que se ele tivesse dito "subi à montanha", transporta-me para alguma coisa mais concreta. O detalhe que estreita a interpretação dá-lhe ao mesmo tempo uma conotação mais universal, porque esta nossa vida é feita de detalhes.


Quando eu era pequeno, o adjectivo português significava quase sempre uma coisa medíocre - "este disco é fixe mas tem um som português". 


A música "1987" é escrita do ponto de vista de quem tem nove anos e está no presente a viver o momento e, para mim, essa canção tem várias camadas de leitura, não é apenas um chorrilho de referências do passado. Mais do que outra coisa, tem que ver com algo que me seduz imenso, que é o fascínio dos portugueses pelo estrangeiro. É por isso que falo do shopping Brasília ou do centro comercial Dallas. O que é que leva um povo, uma nação, um país a venerar tanto as coisas de fora?

Quando eu era pequeno, o adjectivo português significava quase sempre uma coisa medíocre - "este disco é fixe, mas tem um som português". Quando é que foi que o nosso país perdeu o gosto pela sua própria identidade? Basta ver o nome dos cafés e das empresas. Mas hoje os novos cafés já não se chamam Dallas nem Pastelaria Veneza, chamam-se Bacalhoeira, Petisqueira do Bom Sucesso, Fábrica do Braço de Prata, nomes simples e utilitários que lembram ou herdaram os nomes comerciais do Estado Novo. Não estou a dizer que isso é mau ou bom, mas parece que há sempre uma necessidade de projectar as coisas para fora de Portugal ou para o passado.

Nunca pensei que um dia seria músico profissional. O meu percurso natural teria muito mais que ver com o mundo empresarial e cheguei a tirar o curso de Gestão. A minha família detinha a Papelaria Araújo & Sobrinho, a papelaria mais antiga do mundo, fundada em 1829 pelo meu tetravô. Actualmente, o negócio continua mais ou menos na família, pois tenho um primo que é sócio da empresa. Hoje em dia, é um hotel, mas mantém o nome e tem uma pequena papelaria que vende tintas e pincéis. Tudo lá dentro evoca o antigo espaço, com máquinas antigas e outros objectos. É quase um museu da antiga papelaria que, nos anos 70 e 80, era um grande império. Foi lá que trabalhou o meu tetravô, o meu bisavô, o meu avô, o meu pai e os irmãos do meu pai…


Nunca pensei que um dia seria músico profissional. O meu percurso natural teria muito mais a ver com o mundo empresarial e cheguei a tirar um curso de Gestão. 


Eu tirei o meu cursinho de Gestão, mas fui sempre obcecado por música. Aprendi a tocar com a revista Guitar World, que trazia os acordes, e também gravava concertos na televisão. Puxava as imagens para trás, fazia pausa, via onde é que os músicos punham os dedos e imitava-os. À imagem dos meus tios, eu e os meus primos formámos uma banda amadora e fazíamos actuações na escola. Eu ficava sempre muito nervoso e fiquei mesmo com trauma de palco. Como há pessoas que têm medo de fantasmas, de cães ou de escadas rolantes, eu tinha medo do palco e, durante muitos anos, achei que estava na profissão errada. Tinha cólicas de morte, dava concertos com dores de barriga do princípio ao fim ou ficava com a boca toda seca e não conseguia cantar. Era horrível. O pânico só passou em 2013 e o palco foi a terapia. Percebi também que eu não tinha de ser um "entertainer", não tenho jeito para isso e não tem mal não ter, percebi que as músicas podiam falar por mim.

Sempre procurei fazer músicas, mas durante muitos anos não me saía nada de jeito. Numa viagem de faculdade para Ibiza, levei uma violinha e eu e os meus amigos entretínhamo-nos a cantar uma música que eu tinha feito e que era uma paródia aos êxitos românticos. Chama-se "Sinto-te em mim", tem uma letra muito estúpida. Se não fosse essa música, acho que não teria feito mais nenhuma. As primeiras músicas com Os Azeitonas eram muito despretensiosas, iam um bocadinho além da paródia mas a paródia fazia parte, então acabei por desbloquear, mas isso só aconteceu em 2002, já eu tinha 24 anos. Os Beatles andavam aí a partir tudo aos 21 anos. O Bob Dylan, aos 24 anos, já era uma figura de culto nos Estados Unidos… Eu só lancei o meu primeiro disco a solo com 34 anos, parti tarde para a empreitada.

Esta coisa de uma pessoa estar muito apaixonada por fazer músicas…, um dia passa. O Chico Buarque é que diz: a guitarra não me tem chamado. A guitarra um dia vai deixar de me chamar tanto, e se assim for, vou aceitá-lo com naturalidade. Não me interessa estar a fazer planos. O privilégio de ter uma vida mais ligada à criatividade é deixar as músicas irem dizendo o que é que elas querem para elas próprias. 



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Juca Há 1 semana

A partir dos descobrimentos. Agora temos a mundialização e os nacionalismos terão de acabar. Mais século, menos século.

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