Weekend Miguel Bonneville: Quis livrar-me das figuras que diziam o que é que eu tinha de fazer

Miguel Bonneville: Quis livrar-me das figuras que diziam o que é que eu tinha de fazer

Não é actor, encenador, coreógrafo, bailarino, investigador, artista visual e é tudo isso. Miguel Bonneville é um performer. Apresenta, até amanhã, “Chérie, Chéri”, um espectáculo para uma pessoa só.
Miguel Bonneville: Quis livrar-me das figuras que diziam o que é que eu tinha de fazer
Miguel Baltazar
Susana Moreira Marques 24 de novembro de 2017 às 14:00
Miguel Bonneville é um performer. Não é comum poder caracterizar assim alguém. Ele não é actor, encenador, coreógrafo, bailarino, investigador, artista visual e é tudo isso. A performance é o lugar do irrepetível. É o lugar onde podemos ser outros e simultaneamente ficar o mais próximos de nós possível. É o lugar onde as regras se fazem mesmo antes do espectáculo começar; como na vida, pelo menos na vida quando a vivemos plenamente. Miguel Bonneville tem desenvolvido os seus trabalhos à volta da sua própria história, mas também do seu confronto com as histórias e ideias de outros. Ultimamente, trabalhou a partir de Paul B. Preciado, que antes foi Beatriz Preciado. Apresenta, até amanhã, a performance "Chérie, Chéri", um espectáculo para uma pessoa só. É um espectáculo sem possibilidade de repetições, correcções ou arrependimentos. Acontece num quarto de um clube de libertinos em Lisboa. 


1. O "Chérie, Chéri" estreou no [festival] Temps d'Images do ano passado, e eu propus-lhes, já que ia apresentar a segunda parte deste trabalho [inspirado na obra de Paul B. Preciado] no festival deste ano, apresentar novamente a primeira parte.

No ano passado, no final das apresentações, achei que seria mesmo muito difícil poder superar esta quase perfeição que é este espectáculo. Perfeição, no sentido de cumprir quase a cem por cento os meus ideais em relação ao que é fazer um espectáculo e ao que é falar de determinados assuntos, muito íntimos. Pensei: e agora o que é que faço a seguir? Para mim, roçava a perfeição, precisamente por causa da ligação que se cria com o espectador.

Para o público, o espectáculo tem entre vinte e trinta minutos, para mim, seis horas. Com cada pessoa que vem ver a performance, é obrigatório que eu estabeleça uma relação, e não é em meia hora, é logo nos primeiros segundos. É inacreditável o quão atento tenho de estar para perceber até onde é que posso ir, como é que levo cada pessoa a fazer um caminho - e é mesmo um caminho sempre diferente com cada espectador. O fio condutor é um texto. Tenho uma espécie de uma partitura que acontece ao longo do texto, mas depois depende muito da forma como eu e cada espectador vamos afinando.

A palavra performance foi muito importante para mim: porque não tinha nenhuma regra associada.

Há pessoas que chegam muito assustadas por causa de a performance ser num clube de libertinos, outras que chegam a achar que vai ser um grande bordel. Já tive situações de alguma hostilidade. Num palco, com um público no escuro, há de tudo e mais alguma coisa, mas eu estou protegido por uma parede invisível: a quarta parede dá-nos essa protecção, mas aqui ela não existe.

Acho que é muito pouco usual, nos espectáculos e no dia-a-dia, na vida, ter essa consciência do outro e estar, ao mesmo tempo, tão vulnerável: ter de construir uma coisa que não depende só de mim.

2. Não me lembro bem quando foi que li o primeiro livro do Paul B. Preciado. Era o "Manifesto Contrassexual". Já não sei como é que cheguei lá. Sei que pedi a uma amiga para o trazer de Espanha porque na altura não estava traduzido. Foi em 2009 ou 2010. Lembro-me de ler o livro numas férias e daquele texto falar muito directamente comigo: por ser um manifesto, por ser completamente disruptor de normas, de ideias sobre a sexualidade e sobre a identidade. Atira essas ideias todas pela janela. Mas foi muito tempo depois, depois de ter visto uma conferência online com ele, que achei que fazia sentido trabalhar a partir dele e das suas ideias para fazer um espectáculo.

Hoje sinto-me mais distante de determinados aspectos da sua obra, de um determinado léxico que ele usa, e de uma certa postura do meio académico. Aquilo que me interessa é perceber como é que, através da vida dele, a filosofia é aplicada e aparece. Acho que é isso que verdadeiramente me interessa na filosofia.

3. Aos nove anos, tive um choque ao perceber que esperavam de mim uma série de coisas só por ser rapaz: por exemplo, tinha de jogar futebol. Percebi: ah, eu sou estas coisas todas, apesar de não ter pensado sobre elas, porque já as pensaram por mim.

Acho que intuitivamente procurei um escape para isso e o meu escape foi pensar que queria ser actor. Na minha cabeça, ser actor era aquilo que me permitiria poder ser tudo o que quisesse - e isso ser legítimo.

Até aos 15 anos, quis ser actor de cinema. Até entrar na escola de teatro, no Porto.

Achava que ser actor seria como viver um documentário meio ficcionado, em que se vestiam umas personagens, mas que estaria muito próximo da vida, de alguma maneira. Mas na escola deparei-me com o teatro clássico, que parte de um texto, em que há um encenador.

Acho que também tinha um problema com a autoridade: com o facto de haver um encenador a mandar, e com o facto de a personagem aparecer e sermos nós a dar-lhe corpo. Eram ideias que me faziam sentir pouco eu, faziam-me sentir falso.

Foi nas aulas de movimento que descobri mais liberdade para criar e usar o meu corpo. Comecei a fazer "workshops" de dança e até vinha a Lisboa para ter aulas com alguns coreógrafos. Mas havia sempre também a figura do coreógrafo e eu queria livrar-me dessas figuras que me diziam o que é que tinha de fazer. Queria encontrar um espaço onde pudesse fazer aquilo que sentia que era urgente, dizer o que tinha necessidade de dizer e da forma como queria dizê-lo.

A palavra performance foi muito importante para mim: porque não tinha nenhuma regra associada. A performance abria-me todas as possibilidades: de incluir dança, teatro, arquitectura, ciências. Tudo era possível, tudo cabia ali. E agarrei-me a essa palavra.

4. Fui aos Maus Hábitos [bar e espaço cultural no Porto] com uma folhinha e disse que queria fazer umas performances ali. E eles disseram: ok, vamos marcar uma data.

Escrevi um texto sobre teatro, que era assim um manifesto antiescola e antiteatro clássico; e pensei numa outra performance, que era o "Strip me, Dress me". Fiz uma primeiro e outra depois, embora tenham nascido mais ou menos ao mesmo tempo.

São duas componentes que continuaram a perseguir-me: a performance sobre o teatro tinha duas partes e, na segunda parte, há uma figura que diz o mesmo texto, mas uma figura quase sombra, à procura de outro lugar. E o "Strip me, Dress me" era uma reflexão muito visceral sobre os papéis do homem e da mulher na pornografia, em que eu tentava subverter esses papéis, de forma que não se percebesse muito bem quem é o homem e quem é a mulher, e afinal o que é que andamos aqui todos a fazer tão bem-comportados.

Quando olho para os primeiros três anos em que estive a trabalhar, vejo que estava ali tudo, a fervilhar. Acho que o que estou a fazer agora é ir, quase microscopicamente, partícula a partícula, a essa ebulição toda, e a expandir, aprofundar.

A urgência continua lá, mas tenho mais paciência. Agora tenho um outro tempo, outra paciência para poder olhar para os objectos que estou a criar. 






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