Weekend Mosaicos de poder transformador

Mosaicos de poder transformador

O encenador ou realizador é um cientista, opera sobre a realidade. Marco Martins sabe a importância da missão. Os últimos trabalhos, tão diferentes entre si, estão ligados no seu âmago.
Mosaicos de poder transformador
Bruno Simão
Wilson Ledo 12 de Novembro de 2016 às 13:00
As criadas. A peça escrita por Jean Genet está em cena de 10 de Novembro a 18 de Dezembro no TNDMII, em Lisboa.


Marco Martins, aqui encenador, é sempre difícil explicar o que o atrai num texto. Surge um rasgo que orienta. "Penso sempre num projecto a partir dos actores." Queria trabalhar uma peça do francês Jean Genet, voltar a ter Beatriz Batarda como protagonista depois do filme "Alice" em 2005, juntar Sara Carinhas e Luísa Cruz.

"O teatro tem um lado de criação colectiva. A exploração do texto e das personagens é muito feita em conjunta." "As Criadas" seguem o lema no Teatro Nacional D. Maria II. A sua mensagem repete-se desde 1947, sem se esgotar: "Continua a ecoar sobre várias gerações e sociedades, que conseguem tirar dela sempre uma nova visão."

Imersão num universo, ritual, descoberta do significado das palavras. "É um equívoco achar que é sobre a luta de classes ou sobre o teatro dentro do teatro. É um texto sobre a condição humana e a relação com o poder. Aquelas duas criadas são uma metáfora."

Até porque Genet o escreveu na prisão, evocando a infracção e o desejo de rasgar com a norma. A patroa ausenta-se. A imaginação explode nas duas criadas. E Marco Martins, também realizador, dá por si noutra etapa do conceito iniciado no último filme, "São Jorge" - o mesmo que reconheceu Nuno Lopes como o melhor actor da secção Horizontes no último Festival de Veneza.

"Foi muito imediato. Corresponde a um período da nossa história em que tomamos a consciência de que as condições sociais do país estão a mudar drasticamente, que não temos controlo sobre elas. A pesquisa não era para um filme sobre a crise. Queria fazer um filme sobre boxe. Depois, descubro que há muitos 'boxeurs' amadores que trabalham em empresas de cobrança legais e ilegais."

O guião escreve-se: um homem, que pratica boxe, vê na cobrança de dívidas a solução para evitar que a sua vida seja afogada pelas próprias dívidas. Círculo perfeito e sem escapatória. "Um retrato, quase um mosaico, de Portugal no auge da crise."

Marco Martins diz não pensar nas mensagens que quer deixar nem se fixar numa zona de conforto. "Criativamente, não é muito estimulante. Não consigo estar a trabalhar sem pensar que estou a correr um risco." "É mais importante colocar questões e deixá-las abertas. É mais inquietante para o espectador. Coloco-me sempre nesse lugar."

Tal comprova a sua estreia em terreno desconhecido, com um filme de cariz mais social. Seja em "São Jorge" ou em "As Criadas", é da mesma classe que se fala. Porque "a arte, mais do que a política, tem um poder transformador, de fazer um retrato do momento". E o momento é agora de reconhecimento. "São Jorge" continua o seu percurso internacional, chegando às salas de cinema portuguesas só em Março de 2017.

No seu país, o retorno sente-se porque se deu primeiro além-fronteiras, em Veneza. "Há um certo lado provinciano sempre em Portugal, continua a ideia de que o que vem de fora é que é bom." Enquanto criador, quer acreditar no reconhecimento pelo valor "em si" do trabalho.

"O Nuno Lopes fez um discurso muito politizado, que fez com que as pessoas tivessem grande curiosidade em ver o filme. Fez com que o próprio distribuidor olhasse de uma forma diferente e quisesse estrear em mais salas." O amigo e parceiro de trabalho lembrou a necessidade de os políticos olharem para as pessoas mais pobres como humanos e não como meros números.

No fim, admitiu que o discurso no certame poderia parecer "utópico". Emocionado, Nuno Lopes lá concretizou: "Sou actor. Sonhar é o que faço para viver." O sonho é também a matéria do trabalho de um encenador ou realizador? Marco Martins demora-se na resposta. As palavras chegam em torrente. E a conclusão: é algo diferente.

"O meu trabalho está mais perto de um cientista. É operar sobre a realidade e torná-la visível de uma nova forma. Tentar organizar esta coisa desorganizada que é a vida. Penetrar fundo e criar um momento que seja o retrato de algo. É um trabalho de pesquisa, cheio de falhas e possibilidades não concretizadas." Sem desistir. Nunca. O resultado vem sempre rico em emoções. E esperança.





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