Weekend Mulheres na primeira fila

Mulheres na primeira fila

Leonor Freitas é alma e corpo de um negócio encabeçado por mulheres. E a filha Joana prepara-se para ser a sua sucessora na liderança da Casa Ermelinda Freitas. Sandra Correia destacou-se no mundo da cortiça e foi considerada a Melhor Empresária da Europa em 2011. Marta Araújo representa a Castelbel, onde dois dos três membros da comissão executiva são mulheres. Leonor, Joana, Sandra e Marta foram algumas das oradoras na tertúlia “Matinés Pensantes”, que decorreu em Bruxelas, um dia depois da aprovação da lei que introduz quotas de género nas administrações das empresas públicas e das cotadas em bolsa.
Mulheres na primeira fila
Lúcia Crespo 30 de junho de 2017 às 11:00

Na Casa Ermelinda Freitas, Joana é a senhora que se segue aos comandos de um negócio que tem sido encabeçado por mulheres de Fernando Pó, na região de Palmela. Na Castelbel, empresa de Castêlo da Maia que fabrica e comercializa sabonetes e outros produtos de luxo perfumados, dois dos três membros da comissão executiva são mulheres e 90% dos trabalhadores são do sexo feminino. São casos de excepção num Portugal onde as empresas continuam a ser lideradas sobretudo por homens e onde, no passado dia 23 de Junho, o Parlamento aprovou um diploma para obrigar as empresas públicas e as cotadas em bolsa a garantir uma representação de género mais equilibrada nos seus conselhos de administração e órgãos de fiscalização.

Leonor Freitas, a quem chamam "Ferreirinha dos tempos modernos", a sua filha Joana Freitas, responsável pelos mercados internacionais da Casa Ermelinda Freitas, e Marta Araújo, membro da comissão executiva da Castelbel, foram algumas das oradoras na tertúlia "Matinés Pensantes" (MP), que decorreu dia 24 de Junho em Bruxelas, sob o tema "Portugal no feminino". O evento, uma iniciativa da associação Mátria, liderada por Ana Sampaio da Nóvoa, reuniu mulheres portuguesas de áreas diversas, do meio empresarial ao político, tais como Assunção Cristas, Elza Pais e Marisa Matias, defensoras da legislação que introduz quotas de género no mundo empresarial.

A partir de 2018, as empresas públicas e as companhias do PSI-20 terão de cumprir uma quota mínima do género menos representado nos conselhos de administração e nos órgãos de fiscalização. Essa quota será de 33,3% para as empresas públicas e de 20% para as cotadas que, depois de 2020, terão de igualar a quota das empresas públicas. Actualmente, dos 275 cargos de administração e fiscalização das empresas do PSI-20, apenas 14,18% (39) são ocupados por mulheres, noticiou o Negócios no artigo "Só um terço das cotadas cumpre quotas".

"Por princípio, sou contra a lei das quotas, mas também sou pragmática e por isso votei a favor delas", disse a líder do CDS-PP, Assunção Cristas, durante o encontro em Bruxelas, onde desfiou o seu caminho até à política. "Se eu fosse um homem, ninguém perguntaria como é que consigo conciliar a vida profissional com a vida familiar. Se eu fosse um homem, isso nem sequer seria um assunto", continuou. "As mulheres foram educadas toda a vida para estarem na segunda fila. Não podem ter medo de ficar na primeira fila", sublinhou a jurista. "Vou picando as mulheres para se candidatarem a lugares nas juntas de freguesia. Os homens estão sempre disponíveis, mas o ‘sim’ das mulheres é sempre difícil de arrancar, elas têm um caderno de encargos muito grande…".

Mulheres sem medo

"Minha senhora e meus senhores". Assim começaram muitas das reuniões de viticultores onde Leonor Freitas era, muitas vezes, a única mulher presente. "Tinha os olhos dos homens postos sobre mim, não tinha espaço para errar", disse numa entrevista ao Negócios no Verão passado. A anfitriã da Casa Ermelinda Freitas ouvia comentários como: "Não faço negócios com mulheres" e muitas vezes batiam à porta de casa a perguntar pelo marido, e não por ela.

Leonor é alma e corpo de um negócio que tem sido encabeçado por mulheres de Fernando Pó, na região de Palmela, numa quinta que já foi milheiral e seara de trigo e que hoje vende 14 milhões de litros de vinho por ano. É um manto verde de 500 hectares, com 29 castas de uvas, que fazem da Casa Ermelinda Freitas um dos maiores produtores do sector vitivinícola daquela terra plana e húmida metida entre o Tejo e o Sado.

Joana Freitas, filha de Leonor, licenciada em gestão, já tem nas mãos os mercados internacionais e promete ser a próxima "dona" da Casa Ermelinda Freitas. Será a representante da quinta geração de mulheres daquela quinta de Fernando Pó. "Eu sempre quis estar na adega e no campo com a minha avó e lembro-me de me dizerem que deveria ser o meu irmão – e não eu – a fazê-lo. Ainda hoje continuo a sentir-me uma mulher num mundo de homens", diz a sucessora desta casa feita de mulheres sem medo.
Sandra Correia, distinguida em 2011 como a Melhor Empresária da Europa, também nasceu num mundo de homens. Pertence à terceira geração de uma família que se dedica ao negócio da cortiça. Sandra autonomizou-se, criou a marca Pelcor e depois a empresa Mol, My Own Label. Em Agosto do ano passado, vendeu a totalidade do capital ao empresário angolano Rui Tati e regressou à casa de partida, a Novacortiça, onde agora está a desenvolver produtos como o Cork Factory Tour.

Ao mesmo tempo, trabalha na área de "mentoring" e consultoria. "Continuo ligada ao sector da cortiça, mas agora tenho tempo e liberdade para fazer outras coisas. Realizei sonhos, viajei, cheguei a oferecer uma mala à Madonna, mas a Pelcor já não me entusiasmava e, por isso, vendi o negócio", diz a empresária portuguesa, para quem não deveria ser necessária a imposição de quotas para mulheres em lugares de topo. "Mas, já que não se consegue a paridade de outra forma, por uma questão de pragmatismo, sou a favor da nova lei", diz a empresária.

A mesma opinião tem Marta Araújo, "brand director" da Castelbel. "Se vivêssemos numa sociedade com igualdade de oportunidades, este diploma seria desnecessário; infelizmente, não vivemos, por isso parece-me potencialmente importante. Digo potencialmente porque acho que só terá verdadeira utilidade se as mulheres nomeadas para os conselhos de administração tiverem funções executivas (ou, pelo menos, parte delas!); caso contrário, arriscamo-nos a assistir agora a uma série de nomeações ‘de fachada’, feitas à pressa, com o propósito único de cumprir a lei, mas sem grandes consequências práticas na gestão das empresas."

A sua empresa de Castêlo da Maia, no Grande Porto, foi fundada em 1999, hoje está presente em 50 países e alcançou uma facturação de nove milhões de euros em 2016, um crescimento de 12% face ao ano anterior. A companhia portuguesa de produtos de luxo perfumados começou a operar com nove trabalhadores e emprega actualmente 170 pessoas, 90% das quais são mulheres, salienta Marta Araújo. E ironiza: "Qualquer dia, por uma questão de feminismo, temos de ir à procura de homens…".




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