Livros Na pista do sangue do petróleo

Na pista do sangue do petróleo

Após a I Guerra Mundial, a sede do petróleo contagiou os americanos. E, no seu próprio país, foram cometidos crimes enormes para ficar com os rendimentos. Como se lê aqui.
Fernando Sobral 15 de julho de 2017 às 09:15

David Grann
Assassinos da Lua das Flores
Quetzal,
422 páginas, 2017


O petróleo já foi a fonte de muitos conflitos. Muitas guerras, sobretudo no Médio Oriente, nasceram para garantir a sua posse. Mas, nos próprios Estados Unidos, onde o líquido negro foi sempre alvo de cobiça, a sua pista está repleta de sangue. Basta recuarmos ao período entre 1921 e 1925, quando duas dezenas de membros da tribo índia Osage, que viviam nos ricos terrenos petrolíferos do Norte do Oklahoma, foram assassinados a tiro ou envenenados com uísque falsificado. Outros morreram quando bombas explodiram nas suas casas. Foi um verdadeiro reino do terror, como lhe chamaram na altura. E tudo porquê? Por causa do petróleo.

Foi essa história que motivou o jornalista David Grann, da revista The New Yorker, a avançar com a obra. O repórter descobriu estes crimes por acaso, porque eles não surgem nos livros da escola. No livro, o autor revela-nos a história esquecida: a dos crimes que afectaram a tribo Osage e a do "boom" do petróleo que os teria tornado ricos (e que, pelo contrário, fez com que fossem alvos a abater). Depois de terem sido afastados das suas terras ancestrais, os Osage que resistiram foram tratados como fora-da-lei, porque se recusavam a obedecer às ordens do poder económico, político e policial branco.

Tudo começou a mudar durante a I Guerra Mundial, quando foram descobertas imensas reservas de petróleo. Muitos Osage tornaram-se ricos e passaram a ter uma vida de gastos sumptuários. Chegaram então os empresários brancos e muitos índios foram considerados como não tendo capacidade para gerir o dinheiro recebido e, assim, o governo federal nomeou brancos para controlarem as suas finanças. Um convite à fraude.

Quando as matanças começaram, uma índia, Mollie, casada com um branco (que veio a saber depois, com horror, que estava ligado à chacina da sua família e queria a sua morte para ficar com o seu dinheiro), viu a sua irmã ser morta a tiro, a mãe ser envenenada e ela escapou por pouco. As investigações policiais não deram em nada, porque a corrupção tudo vencia. Foi então que entrou em acção Tom White, um antigo "ranger" do Texas, defensor da justiça. Tinha valores éticos e morais, algo que rareava no local. J. Edgar Hoover, que estava a estruturar o FBI, colocou-o a investigar o caso em 1925. Hoover esperava que a resolução do caso contribuísse para dar credibilidade ao FBI. Com o auxílio de agentes infiltrados, White conseguiu identificar um dos residentes na zona como o principal culpado da morte dos Osage. Dois homens foram condenados, o que pareceu suficiente a Hoover.

Mas Grann foi mais longe. Depois de anos a investigar arquivos e a entrevistar descendentes de alguns dos que morreram, o jornalista identificou um misterioso vírus que matou centenas de Osage desde antes de 1921. E encontrou um culpado que nunca fora condenado.

Não deixa de ser curioso o facto de este livro surgir num momento em que o novo Presidente Donald Trump, para garantir os interesses dos defensores do petróleo, decretou o fim das limitações à passagem de "pipelines" por terras sagradas índias no Dakota, como se a tragédia de então tivesse agora novos capítulos.



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