Weekend Navegar a 23 Milhas por arte

Navegar a 23 Milhas por arte

Mapear o território, enredar populações, mergulhar em ideias. Ílhavo tem um novo projecto cultural e quer ser um farol para a mudança. A luz define um rumo pelo cruzamento. Não se centraliza.
Navegar a 23 Milhas por arte
Luís Sousa Ferreira dirige o 23 Milhas, projecto de transformação cultural do município de Ílhavo.
Miguel Baltazar
Wilson Ledo 19 de Novembro de 2016 às 13:00
23 Milhas
É o projecto que procura transformar o modo como os equipamentos culturais de Ílhavo se relacionam entre si e com a população.


Farol da Barra. Por ser o maior do país, a ambição. Pela ligação ao mar, local de partidas e chegadas. A analogia não poderia ser mais directa. "Não é o farol que nos interessa, é a luz que ele projecta." 23 Milhas, iluminadas de proximidade.

Luís Sousa Ferreira não conhecia Ílhavo. Demorou pouco a aceitar o convite "apaixonante" do município para assumir o novo projecto de articulação dos quatros equipamentos culturais do concelho. A labuta arrancou e tem agora como nome o alcance luminoso da torre que guia navegantes ao largo daquela costa.

Centro Cultural de Ílhavo, Centro Cultural da Gafanha da Nazaré, Teatro da Vista Alegre e Centro Sócio-Cultural da Costa Nova. Simbolicamente, vão todos abaixo para renascerem "mais robustos". Mudam-se-lhes as designações e os papéis. Acaba-se com a ideia de poder associada ao conceito de centro.

"As pessoas reconhecem formas: gravatas, posturas, edifícios. Não reconhecem os conteúdos." É essa faina que Luís e a equipa querem cultivar no dia-a-dia, com uma produção mais imaterial e efémera. "Muitas vezes, gasta-se tudo no edifício e depois não há dinheiro para os conteúdos." Os espaços não bastam por si, são precisas "pontes".

Define-se uma direcção, um rumo. "Em Ílhavo não havia um projecto agregador. Fui desafiado a pensar o território e não o edifício. É isso que faz sentido: criar uma relação próxima com a comunidade, que as pessoas conheçam e descodifiquem as nossas propostas." Sem dar supremacia a nenhum equipamento.

O director trazia a experiência do festival de música Bons Sons, de que é fundador. Colocou a aldeia de onde é natural - Cem Soldos, em Tomar - no mapa e guardou ensinamentos: "As pessoas esquecem-se muito de trabalhar o ego das populações. Na lógica da descentralização, essa é a primeira função - as pessoas reconhecerem-se naquele território."

No 23 Milhas haverá agora - pela mesma ordem - uma Casa da Cultura, uma Fábrica das Ideias, um Laboratório das Artes e um Cais Criativo. A cada um a sua valência: o acto cultural passa a ser encarado como um todo, do pensamento que o origina até à sua apresentação. Há horizonte para criar, acolher, reflectir e dialogar, cruzando as escalas regional, nacional e internacional.

"O objectivo primordial de tudo isto é criar espaços de encontro. Se os criarmos, a cultura nasce só por si." Um mergulho permanente em música, artes visuais, dança, teatro, design, cinema, moda, eventos. Não apenas para as 40 mil pessoas que vivem em Ílhavo, mas para todo o país, através da criação de parcerias.

Luís Sousa Ferreira admite que são poucas as autarquias despertas para a necessidade de apostar em novos enquadramentos culturais. Depois, "há uma ausência enorme do Ministério da Cultura neste tipo de projectos de descentralização, de equidade do território, de apoio à criação fora dos grandes centros".

O programador está a lançar essa rede à tutela, mas também às empresas locais, fazendo-as olhar para a questão dos patrocínios e do aluguer dos espaços. A "transversalidade" do 23 Milhas é o seu argumento. "Queremos criar uma marca forte e um projecto com visibilidade para que seja mais aliciante para as empresas."

Ter Ílhavo como um farol para que outros municípios explorem novas abordagens culturais é um desejo que não esconde. E conta com uma nova geração de programadores para mostrar que é possível: "Começam a dar cartas e a mostrar que a cultura não é um movimento de elite. Mesmo não sendo criadores, sabem negociar, as necessidades dos artistas e os interesses do público."

Luís Sousa Ferreira sabe que não há chaves de sucesso na altura de mapear o território "sem ser snobe ou impor visões artísticas". "Desde que se trabalhe com a população, conseguem-se criar entendimentos. Desde que se tenha curiosidade pelo outro e se vá ao seu encontro. Talvez seja isso que sou bom a fazer." A bordo não seguem preconceito ou estigma. Olhar sem nevoeiro.





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