Livros No mundo das sombras japonesas

No mundo das sombras japonesas

Um dos mais talentosos escritores portugueses, Valter Hugo Mãe, abandona as paisagens portuguesas e percorre os universos da fúria e da harmonia japonesas. Um exercício muito estimulante.
Fernando Sobral 22 de Outubro de 2016 às 12:30

Valter Hugo Mãe, "Homens Imprudentemente Poéticos" Porto Editora, 214 páginas, 2016


Wenceslau de Moraes apaixonou-se pelo Japão. A cultura deste entranhou-se no seu corpo e na sua alma, tornando-o um peregrino entre fronteiras. Como escreveu: "Feiticeiro torrão este, onde não se sofre e onde não se chora!" Tantos anos depois, um dos mais empolgantes escritores portugueses da actualidade, Valter Hugo Mãe, deixa-se envolver pelos horizontes do sol nascente no seu novo livro "Homens Imprudentemente Poéticos".

É uma obra que nos confronta com um imenso dilema: como é possível conciliar, num mesmo universo emocional e cultural, a fúria com a sensibilidade? Estes dois extremos, talvez o curto-circuito latente entre a energia letal de um samurai e a pacatez refinada de uma cerimónia de chá sejam a essência do que fascinou o autor. No fundo, o Japão é um mundo de rituais, mesmo quando aparentemente alguns pareçam de uma infantilidade extrema. É essa densidade que fascina no Japão. E que, de uma forma muito sensível, transparece nas páginas deste livro.

Parece que estamos num Japão cheio de memórias. É nele que se enfrentam dois vizinhos, o artesão Itaro e o oleiro Saburo, prisioneiros de um destino e cercados pelo amor das suas mulheres. A beleza tem um outro lado da moeda: a intransigência. Há muita dor escondida nestas páginas, como a falsa felicidade da cega menina Matsu: "As mentiras da cega eram o modo que tinha de agradecer. Itaro, por seu lado, tolerava aquela delicadeza a custo, tantas vezes falhando, nem saberia a jovem por que razão aquele homem bruto aturava as suas perdas de tempo, o disparatado do seu mundo de fantasia. Itaro revoltava-se contra as fraquezas. Admitia mal que era fraco também, porque se dividia com a incontida vontade de matar." Aqui, claro, Valter Hugo Mãe não encara a morte numa perspectiva da culpa ocidental, mas numa lógica de libertação, tão presente no Japão.

É isso que vai fascinando nas histórias que se sucedem: o autor deixa os campos portugueses e aventura-se num território desconhecido, apesar das históricas ligações de Portugal ao Japão. Busca uma outra forma de olhar para o sol e para as sombras e de as compreender.

A violência e a dor estão aqui sempre presentes. Seja na cegueira, no esmagamento de insectos, nos animais que matam mulheres ou mesmo na doação de irmãs para casamentos. A tradição feudal do Japão está sempre presente e elas encontram-se muito nas actividades da criada Kame, que parece estar sempre no mundo da magia. Ou na doçura lírica de Matsu: "Ela sabia apenas da beleza das palavras porque era com elas que se explicava o mundo. Chegava a gostar das coisas cujos nomes soassem bonitos. Julgava que os nomes acusavam a propriedade do que queriam significar, ainda que tantas vezes tocasse em coisas más, que a picavam, agrediam, procuravam devorar ou a adoeciam. Ainda assim, guardava da beleza uma ideia sobretudo discursiva. E perguntou: que beleza tenho. O homem respondeu: toda. A maior de todas."

Seria fantasia? Seria verdade? É esse mundo fascinante, construído nas entrelinhas das frases e dos sentimentos, que constrói a casa de papel de Valter Hugo Mãe. Tal como a que talvez um dia Wenceslau de Moraes, de outra forma, tentou criar em vida. Este é um livro de uma beleza radiosa. Como arte de descrever sentimentos que, escondidos na sombra, precisam de ser iluminados.



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