Weekend Noé Sendas: A minha ideia é reutilizar o que já existe. O mundo já tem muita coisa.

Noé Sendas: A minha ideia é reutilizar o que já existe. O mundo já tem muita coisa.

Noé Sendas vê-se como uma espécie de editor, cortando, colando, reescrevendo. Até dia 22 de Outubro, mostra trabalhos recentes na exposição “Significant Others”, na galeria Carlos Carvalho, em Lisboa.
Noé Sendas: A minha ideia é reutilizar o que já existe. O mundo já tem muita coisa.
Miguel Baltazar
Susana Moreira Marques 14 de Outubro de 2016 às 14:00
Noé Sendas nasceu em Bruxelas e vive entre Berlim e Madrid. Viveu quase sempre fora de Portugal, mas foi em Lisboa que começou o seu trabalho e é em Lisboa que tem um ateliê, onde vai acumulando materiais, pedaços de cidade e bocados da sua história enquanto artista. Depois, faz de ateliê o portátil, onde podem viver milhares de imagens que podem ser reproduzidas, rearranjadas, mutiladas, combinadas. Noé Sendas vê-se como uma espécie de editor, cortando, colando, reescrevendo, reimaginando a partir de referências, personagens, cenários. E sempre reaproveitando, num mundo que talvez já não precise de mais objectos. Até dia 22 de Outubro, mostra trabalhos recentes na exposição "Significant Others", na galeria Carlos Carvalho, em Lisboa.


1. O meu ateliê em Lisboa é uma antiga cave que tenho desde para aí os 20 anos e que está cheia, cheia de bocados de figuras, bocados de madeira, bocados de vidro, bocados de coisas que fui acumulando.
Consigo vir a Lisboa, estar lá e ninguém saber que estou na cidade. Tem um lado de "bunker". Não é um espaço bonito. É um "bunker", um "bunker" cheio de uma Lisboa que começa a desaparecer: bocados de janelas que já não há, fechaduras, maçanetas...
Há determinados tipos de trabalho que só faço no ateliê de Lisboa. E vivi lá coisas - sozinho - que foram muito importantes para mim. Então mantenho esse espaço, que é uma arrecadação gigante, no fundo. É uma despensa: uma despensa de afectos.

2. Ter um "laptop" é ter um ateliê à minha mão. É como quem tem um caderno de notas. De repente, estou ao mesmo nível de um escritor. Como quem abre um caderno de notas, posso abrir o meu "laptop" e trabalhar imagem - aliás, trabalha-se já com uma "pen", o que é mesmo muito próximo do escrever num caderno de notas. E posso estar em qualquer lado da Europa.
Tenho uma espécie de viveiro com muitas imagens, um arquivo, que vou trabalhando ao longo do tempo. De vez em quando, há uma imagem que me chama a atenção e trabalho-a muito. Há dias em que posso fazer três ou quatro imagens, mas também posso passar semanas em que trabalho muito e não faço uma única imagem. Não vou ao ateliê todos os dias, mas vou ao "laptop" todos os dias. Há dias que correm melhor do que outros, como acontece em qualquer área criativa.
Normalmente, começo um trabalho e fica em banho-maria durante muito tempo, às vezes anos. Depois, de repente, estou num sítio qualquer e há algo que vejo que se ajusta com aquele trabalho, e é a peça que faltava.
Há tantas maneiras de juntar as peças do puzzle. Não há uma fórmula. Há alturas em que se junta as peças de uma maneira e parece a maneira perfeita de fazer. Passados uns anos, já é outra. Isso é que me mantém vivo. Isso é que me mantém a pensar.

3. Trabalho com fotografia neste momento, mas não sou fotógrafo. Trabalhei com desenho, com vídeo. Fiz esculturas. Mas, neste momento, a fotografia é o suporte que me serve.
Se tiver de me enquadrar em alguma coisa, acho que é mais no papel do editor.
O meu trabalho tanto pode vir de uma imagem - de um filme, por exemplo - como de um bocado de uma porta que encontro na rua. Ou de uma frase. Mas nunca parto da folha branca. Nem tenho folhas brancas no ateliê.
Sou daquelas pessoas terríveis que vai na rua e vai apanhando coisas. A minha ideia é sempre reutilizar o que já existe. O mundo já tem muita coisa. E há tanta coisa que se pode reajustar, retrabalhar, relançar.
Vou a uma feira da ladra e penso: tenho de levar isto, vou levar para trabalhar mais tarde, isto não se pode estragar, isto já tem toda uma história, um passado.
Às vezes, na rua, encontramos dois edifícios ao lado um do outro, e um está a cair e o outro está arranjado. Faz-me confusão essa coisa do azar e da sorte dos objectos. Então, trata-se de lhes dar uma nova vida, uma nova sorte.

4. Gosto de criar narradores, personagens, "plot", "set".
No "Oito e Meio", do Fellini, há um autor que está em crise e que vai à procura de várias personagens, vários alter-egos e vai pensando com eles como fazer um filme - que é o próprio filme que aparece. Se calhar, é um pouco isso que tento fazer com o meu corpo de trabalho. Vou criando vários alter-egos, ou pequenas personagens, que trabalham determinadas questões, para criar um corpo de trabalho.
Uma dessas personagens é o mágico. O mágico é o que trabalha com uma mão para poder fazer o truque com outra. Está a chamar-te a atenção para aqui para poder fazer o truque do outro lado. O meu trabalho em fotografia tem muito disso: um lado de acabamento que é para distrair, e um outro lado que surpreende.

5. em Bruxelas, mas com passaporte de exilado. Os meus pais tinham ido para lá exilados.
Os meus pais eram artistas plásticos e, então, fui criado num ateliê. Na minha vida nunca se separou muito bem o que era a casa e o que era o ateliê; ou o que era fazer arte e o que era o dia-a-dia. Os meus brinquedos eram pratos com tintas e papel.
A relação com a arte foi sempre um modo de estar. O meu pai representa mais uma ideia de arte dos anos 60 e 70, mais de ruptura, e talvez me tenha marcado mais.
Se a minha mãe fazia mais desenho e pintura, o meu pai estaria mais interessado que a casa durante um mês não tivesse mobília. Não havia mobília, portanto nós tínhamos de criar situações em que o dia-a-dia passasse sem mobílias. Ou, de repente, a casa tem uma assoalhada toda pintada de preto e outra toda pintada de branco. São coisas que marcam mais um miúdo. Depois, o meu pai destrói a obra toda dele e deixa de ter obra. Era muito extremo, ia ao limite. Fazia parte de uma geração.

6. Por acaso, vivi em Portugal entre os 18 e os 25 anos, que é uma altura determinante para um artista. É quando se começa a fazer os primeiros trabalhos. É quando se termina a escola e se faz parte de uma geração.
A minha geração são os meus colegas do Ar.Co. Na altura, era uma escola especial, porque os professores eram artistas que estavam muito activos. Dali, saiu uma fornada de novos artistas. Por acaso, estão agora em Lisboa umas cinco ou seis exposições de artistas. Estivemos todos na mesma turma do Ar.Co.
E também aprendi na noite de Lisboa. Cresci muito na noite de Lisboa. Na altura do Frágil. Eu era miúdo, mas ia ao Frágil, onde encontrava artistas e cineastas um pouco mais velhos, e ia aprendendo, não só com aquilo que eles estavam a fazer, mas também com o facto de poder falar com eles no meio da noite. Isso marcou uma geração. E marca-me a mim e faz de mim um artista dessa geração, e desse local que é Lisboa.





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José Julio Teigas Há 2 semanas

... + um sub- produto.

Anónimo Há 3 semanas


FP e CGA - SEMPRE A ROUBAR À GRANDE

E não deixa de ser anedótico que o contribuinte que vê a sua reforma cada vez mais longe e mais baixa, ainda seja chamado para pagar as reformas da CGA.

Fica aqui a lista do pilim que a CGA consome ao OE (e que todos os contribuintes pagam):

Milhares de € - Pordata

Ano - Receitas CGA / Trf Orç. Estado / Despesa total

2008 - 2.298.320,0 / 3.396.097,0 / 6.705.927,0

2010 - 3.453.777,2 / 3.749.924,6 / 7.489.193,3

2012 - 2.846.863,0 / 4.214.632,7 / 7.196.785,9

2015 - 4.927.319,1 / 4.601.342,3 / 9.528.661,4


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