Weekend O adeus de José Eduardo dos Santos, 38 anos depois

O adeus de José Eduardo dos Santos, 38 anos depois

José Eduardo dos Santos tomou posse como presidente de Angola em Setembro de 1979, substituindo Agostinho Neto. Fez a guerra e conseguiu a paz definitiva em 2002. Com as eleições de 23 de Agosto diz adeus ao Palácio da Cidade Alta e abre um novo capítulo na história do país.
O adeus de José Eduardo dos Santos, 38 anos depois
reuters
Celso Filipe 19 de agosto de 2017 às 14:23
Como gostaria de ser recordado na História? "Como um bom patriota", respondeu José Eduardo dos Santos, em Junho de 2013, numa entrevista ao correspondente da SIC em Israel, Henrique Cymerman.

Ainda é cedo para dizer se este desejo vai ser concretizado, mas as eleições gerais de 23 de Agosto de 2017 em Angola vão ficar na História por representarem o adeus ao poder de José Eduardo dos Santos, que durante 38 anos ocupou a presidência do país. O acto eleitoral realiza-se cinco dias antes do aniversário do também líder do MPLA que, a 28 de Agosto, celebrará 75 anos.

José Eduardo dos Santos sairá do Palácio da Cidade Alta [residência oficial do chefe de Estado], mas irá manter uma série de privilégios. Uma lei aprovada em Junho transforma-o em "Presidente da República emérito", garante-lhe uma pensão vitalícia de 90% do salário, protecção pessoal [extensível à família] imunidade e um lugar no protocolo do Estado. A lei estabelece ainda que os ex-presidentes apenas possam ser julgados por actos estranhos ao exercício das suas funções pelo Tribunal Supremo. É com este confronto que José Eduardo dos Santos se prepara para virar a página na História de Angola.
Imagem do livro
Imagem do livro "A Luta do Povo pela Unidade e pelo Socialismo", publicado em 1985 pelas edições Avante, que reúne discursos de José Eduardo dos Santos.
Reservado e discreto foram dos clichés frequentemente utilizados para construir o perfil do homem que comandou os destinos de Angola de 21 de Setembro de 1979 até agora. As suas aparições em actos públicos sempre foram escassas e as entrevistas ainda mais raras. José Eduardo construiu o seu poder em cima de um pedestal de inacessibilidade e tornou-se progressivamente mais forte graças a esta estratégia. Em paralelo, foi conseguindo que o país entrasse numa rota de estabilidade, e é esta conquista que alguns temem que se perca, em resultado de uma pulverização do poder pelos vários grupos de interesse que gravitam em torno do MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola).

Em Dezembro de 2016, José Eduardo dos Santos, já assumindo tacitamente a irreversibilidade do seu problema de saúde, oficializou a sua sucessão, tendo o MPLA nomeado João Lourenço, actual ministro da Defesa, como cabeça-de-lista para as eleições deste ano, um lugar que lhe dá acesso ao Palácio da Cidade Alta, caso o partido saia vitorioso desta disputa.

"Não quero fazer prognósticos, mas quero acreditar que estas pessoas, ao começarem a ter poder, vão revelar um lado delas que não conhecemos. Espero que seja o melhor lado", afirmou, numa entrevista ao Negócios em Dezembro de 2016, o activista Henrique Luaty Beirão, que esteve preso, acusado de uma tentativa de golpe de Estado.

Um pai reservado que gosta de muamba

Este percurso de saída da presidência iniciou-se a 11 de Março de 2016, quando "Zédu" (alcunha que o acompanhou desde sempre) anunciou publicamente a sua retirada da vida política activa. Uma decisão apressada pelo seu estado de saúde, que o tem obrigado a deslocações cada vez mais frequentes a Barcelona, Espanha, para tratamento de um cancro da próstata.

À data, em reacção a este adeus, a sua filha primogénita, Isabel dos Santos, publicou na sua conta do Instagram uma imagem de ambos, acompanhada de uma citação em inglês de William Shakespeare: "Não tenhas medo da grandeza. Alguns nascem grandes, outros atingem a grandeza e outros têm o impulso da grandeza sobre eles." Depois, em português, Isabel dos Santos retrata assim o pai: "Um homem excepcional e um grande africano. Em toda sua acção há dignidade e inteligência. Uma verdadeira fonte de inspiração. Para mim: um pai, um guia, uma referência, um professor."
José Eduardo dos Santos e a filha primogénita, Isabel dos Santos, numa imagem não datada.
José Eduardo dos Santos e a filha primogénita, Isabel dos Santos, numa imagem não datada.
Isabel dos Santos não esconde a admiração pelo pai. A 28 de Agosto (data de nascimento do pai) de 2012, deu uma entrevista à TPA (Televisão Popular de Angola) onde traçou o carácter do progenitor. "Muito simples", "muito inteligente" e "extremamente calmo" foram alguns dos superlativos usados pela empresária para caracterizar o pai, que passa "o tempo livre que tiver" a brincar com os netos. Isabel dos Santos revelou na ocasião que Eduardo dos Santos toca guitarra, gosta da cor azul (é adepto do Futebol Clube do Porto), lê livros de História e política e o seu prato preferido é o funje, um acompanhamento típico angolano feito de farinha de milho ou de farinha de mandioca e que pode ser apresentado num prato de muamba de galinha ou de calulu, uma mistura de peixe fresco e seco. A Angop, agência noticiosa angolana, num perfil laudatório de José Eduardo dos Santos publicado em Setembro de 2015, dá mais informação: "Nos tempos livres, pratica futebol, andebol e basquetebol, sabe tocar viola e tambor, prefere a música clássica. Gosta de literatura, de preferência angolana."

José Filomeno dos Santos, outro dos seus filhos, classificou-o, também em 2012, como um homem de "poucas palavras". "Um pai muito atento, reservado, mas atencioso. Às vezes, até dá a impressão de que ele conhece os nossos problemas mesmo sem nós falarmos", afirmou, à TV Zimbo, o presidente do Fundo Soberano de Angola.

Fama de "playboy"

José Eduardo dos Santos nasceu no bairro do Sambizanga, em Luanda, a 28 de Agosto de 1942. Filho de dois imigrantes são-tomenses, Avelino Eduardo dos Santos, pedreiro, e Jacinta José Paulino, doméstica, teve cinco irmãos, Avelino, Isabel, Luís Eduardo, Marta e Lucrécio.


Eduardo dos Santos nasceu em 1942, aderiu ao MPLA em 1958 e, 1963, partiu para Baku, cidade da extinta URSS, onde se formou em Engenharia e onde conheceu Tatiana. 


Na década de 40, habitavam na Luanda colonial 61.028 pessoas, sendo 45.884 negros, 8.944 brancos, 6.175 mestiços e 25 classificados como "outros" pelo censo de então. "A cidade apresentava quatro grandes áreas: a Cidade Alta, onde a urbe foi fundada em Janeiro de 1576; a Baixa, zona comercial; os bairros adjacentes onde vive a quase totalidade dos brancos e a maioria dos mestiços; os musseques, habitados pela quase totalidade dos negros", descreve-se no artigo "A Dinâmica Social de Angola em 1943", publicado pelo jornal da Cultura em Fevereiro. Sambizanga era um desses musseques onde, de acordo com a mesma fonte, existiam "os pobres, os muito pobres e os menos pobres".

Todo o conjunto territorial estava sujeito a um regime político ditatorial acompanhado de práticas de trabalho semi-escravo e restrições económicas causadoras de contradesenvolvimento", descreve o mesmo artigo.

Patrício Batsikama, autor do livro "José Eduardo dos Santos e a ideia de Nação Angolana", diz que logo após o nascimento lhe foi dado "o nome de 'Viajante' pelo seu irmão mais velho, o nacionalista Avelino dos Santos [falecido a 15 de Novembro de 2016]. O verbo 'viajar' diz-se 'lembeka' em kimbundu. No dicionário de Óscar Ribas, 'Lêmba ou Dilêmba' é o nome da divindade que se dá a uma criança que nasce nas condições de 'viajante'. Na antropologia, 'Dilêmbe nou Lêmbe' relaciona-se com espíritos da terra, devendo assegurar a paz e a fecundidade dos lares, a protecção dos guerreiros, etc".

José Eduardo dos Santos estudou no antigo Liceu Salvador Correia, em Luanda, actualmente Escola Mutu Ya Kevela, nome do rei Kaluanda do Bailundo que, em 1902, se revoltou contra os portugueses. Fez o curso de Engenharia com especialização em petróleo em Baku, hoje capital do Azerbaijão e que, à data, fazia parte da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Aderiu ao MPLA em 1958 e, em Novembro de 1962, partiu para o exílio na República do Congo. Nesse ano, integrou o Exército Popular de Libertação de Angola, braço armado do MPLA e, em 1963, partiu para Baku, tendo concluído os estudos em 1969.

Durante a sua estada neste país foi jogador de futebol da equipa azeri Neftchi, que disputava a primeira liga da URSS. Segundo uns, alinhou mesmo pela equipa principal, de acordo com outros, nunca passou das reservas. E foi também aí que se casou, pela primeira vez, com a xadrezista Tatiana Kukanova. Desde aí foi sempre subindo na hierarquia do partido. "De 1974 a meados de 1975, José Eduardo dos Santos voltou a desempenhar a função de representante do MPLA em Brazzaville. Em Setembro de 1974, numa reunião realizada no Moxico, foi eleito membro do Comité Central e do Bureau Político do MPLA. Em Junho de 1975, passou a coordenar o Departamento de Relações Exteriores do MPLA e, cumulativamente, também o Departamento de Saúde do MPLA", relata-se na Wikipédia. Quando a independência de Angola foi declarada, a 11 de Novembro de 1975, ocupou os cargos de ministro das Relações Exteriores, vice-primeiro e ministro do Plano, gozando da fama de ser um "playboy".

Pelo caminho, o MPLA vive momentos de brasa e, a 27 de Maio de 1977, um grupo liderado por Nito Alves, então ministro da Administração Interna, ensaia um golpe de Estado. O regime reage e Nito Alves, José Van-Dúnem e a sua mulher, Sita Valles, são mortos. Segundo cálculos da Amnistia Internacional, a reacção ao golpe de Estado e a perseguição a pessoas tidas como "nitistas" ou "fraccionistas" traduziu-se em 30 mil vítimas mortais.

O sucessor acidental

A 10 de Setembro de 1979, Agostinho Neto, o primeiro Presidente do país, morreu em Moscovo, vítima de um cancro hepático, circunstância que abriu caminho à sua sucessão. A escolha acabou por recair em José Eduardo dos Santos, que terá sido encarado como uma solução de transição para conciliar facções desavindas. No seu curto discurso de tomada de posse, de 1,54 minutos, o então jovem Presidente evocava o legado de Agostinho Neto. "Não é uma substituição fácil, nem tão-pouco me parece uma substituição possível, é apenas uma substituição necessária."


José Eduardo dos Santos era enigmático, pouco se ouvia falar dele e essa característica ajudou a que fosse escolhido como sucessor de Agostinho Neto.


Justino Pinto de Andrade, que foi membro do MPLA e actualmente é líder do partido Bloco Democrático, pintou assim, em 2013, ao site esquerda.net, o processo de substituição de Agostinho Neto. "Passado o transe, começou então a falar-se insistentemente nas diversas hipóteses para ocupar o lugar deixado vago por Neto: Lúcio Lara? Ambrósio Lukoki? Pascoal Luvualu? José Eduardo dos Santos? José Eduardo dos Santos era demasiado enigmático. Pouco se lhe ouvia falar", uma característica que o ajudou. "Todos pensaram que facilmente poderiam influenciá-lo. Os outros potenciais candidatos à sucessão de Agostinho Neto possuíam perfis polémicos ou eram demasiado previsíveis." Enganaram-se. O transitório passou a definitivo e José Eduardo dos Santos acabou por se impor no intricado tabuleiro estratégico angolano.

Em 2002, "paz para sempre"

A liderança de José Eduardo dos Santos foi tudo menos tranquila, devido à longa guerra civil que Angola viveu entre 1975 (após a independência) e que só terminou definitivamente em 22 de Fevereiro de 2002 com a morte de Jonas Savimbi, líder da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola). Uma guerra alimentada também por uma outra, a chamada "guerra fria", que colocava em campos opostos a então URSS e os Estados Unidos. A URSS apoiando o MPLA e a os EUA ao lado da UNITA. Esta guerra civil tirou a vida a 500 mil pessoas, e mais de um milhão foi obrigado a procurar refúgio em zonas seguras, sobretudo na capital do país, Luanda.
José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi, em 1991, selaram os Acordos de Bicesse. Cavaco Silva era, então, primeiro-ministro.
José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi, em 1991, selaram os Acordos de Bicesse. Cavaco Silva era, então, primeiro-ministro.
Correio da Manhã
Neste trajecto, Angola conheceu alguns períodos curtos de paz, sendo o mais importante aquele que resultou nas primeiras eleições livres no país realizadas em 1992. A 31 de Maio de 1991, José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi tinham assinado, na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, os chamados Acordos de Bicesse, onde ficou consagrada a realização de eleições livres em Outubro do ano seguinte, supervisionadas pelas Nações Unidas, uma aproximação patrocinada pelo então secretário de Estado dos Assuntos Externos e da Cooperação português, Durão Barroso. "Em todo este processo, houve uma bem-sucedida conjugação de esforços, a nível internacional, que ajudou a atenuar as divergências e a lançar as bases de uma convivência pacífica e aberta entre todos os angolanos", afirmou na altura José Eduardo dos Santos. A assinatura dos acordos contou com as presenças do secretário-geral das Nações Unidas, Pérez de Cuéllar, do secretário de Estado norte-americano, James Baker, e do ministro russo das Relações Exteriores, Eduard Shevardnadze. No final, o então Presidente da República português ofereceu um banquete no Palácio de Queluz a todos os intervenientes neste processo.
Encontro de José Eduardo dos Santos com o então Presidente português, Mário Soares.
Encontro de José Eduardo dos Santos com o então Presidente português, Mário Soares.
Carlos Almeida/Correio da Manhã
Nas eleições de 1992, o MPLA obteve maioria absoluta, mas José Eduardo Santos, seu candidato a presidente, não a alcançou, circunstância que obrigaria a uma segunda volta. Contudo, a UNITA, cujo candidato presidencial era Jonas Savimbi, contestou os resultados e o país voltou a mergulhar na guerra.

Com o desaparecimento de Savimbi, o MPLA e a UNITA assinam, a 4 de Abril de 2002, os chamados Acordos de Luena, e José Eduardo dos Santos faz uma declaração aos angolanos, em que garante: "A paz chegou para sempre."

É neste período que Angola ganha um novo aliado, a China. Com dificuldade em aceder a financiamento internacional, o país asiático, que antes da independência de Angola tinha apoiado a UNITA, mostra-se disponível para ceder capital ao governo de Luanda. É assim que nasce o China International, e Pequim passa a financiar os grandes projectos de infra-estruturas, recebendo petróleo como contrapartida.
José Eduardo dos Santos com José Sócrates, durante a sua última visita a Portugal, em 2009.
José Eduardo dos Santos com José Sócrates, durante a sua última visita a Portugal, em 2009.
Hugo Correia/Reuters
José Eduardo dos Santos sempre foi defensor de uma relação privilegiada com Portugal e manteve boas relações com Cavaco Silva e Durão Barroso, que sempre apoiaram o MPLA. Mais tarde, teve um bom relacionamento com José Sócrates e Paulo Portas. Apesar disso, nunca passou férias em Portugal, prefere Espanha, e nem são conhecidos investimento seus no país, ao contrário do que acontece com a esmagadora maioria da nomenclatura angolana.

A parceria que deixou de ser estratégica

A 15 de Outubro de 2013, no discurso do estado da nação, José Eduardo dos Santos marcou um território de distanciamento no relacionamento bilateral. "Só com Portugal as coisas não estão bem. Têm surgido incompreensões ao nível da cúpula e o clima político actual, reinante nessa relação, não aconselha à construção da parceria estratégica antes anunciada." E a ligação tem vindo a deteriorar-se por força dos processos judiciais levantados em Portugal contra individualidades angolanas. "As relações estão, de alguma forma, frias, apenas frias. Estamos obrigados, os dois governos, a encontrar soluções para a situação que nos foi criada", reconheceu João Lourenço, candidato à sucessão de Eduardo dos Santos, em Março deste ano.
José Eduardo Moniz entrevistou o chefe de Estado angolano em 1990 para a RTP.
José Eduardo Moniz entrevistou o chefe de Estado angolano em 1990 para a RTP.
Arquivo RTP
"Cada um é livre de fazer o seu julgamento sobre a minha pessoa. Eu não gosto de falar de mim." Foi assim que José Eduardo dos Santos respondeu a José Eduardo Moniz, numa entrevista concedida à RTP em Janeiro de 1990, questionado sobre o facto de ser um político com um perfil mais europeu do que africano. E não vacilou quando o jornalista o confrontou com a seguinte descrição: "Um estadista completo, florentino, mas também maquiavélico." As imagens mostram José Eduardo dos Santos a rir e a responder candidamente: "Não sei, não acho."

A realidade é que José Eduardo dos Santos se foi perpetuando no poder, por uma razão ou outra. Não terá sido tempo a mais? A pergunta foi-lhe formulada em Novembro de 2013 por um jornalista brasileiro, numa entrevista à brasileira TV Band, e José Eduardo dos Santos respondeu assim: "Eu acho que é muito tempo, até demasiado, mas também temos de ver as razões de natureza conjuntural que nos levaram a esta situação. O país esteve em guerra cerca de 40 anos desde que começou o processo de libertação nacional, mas, depois da independência, acho que foram trinta e tal anos de guerra, em que o país ficou adiado, portanto, não pôde consolidar essas instituições do Estado, nem sequer pôde tornar regular o funcionamento do processo de democratização, por isso muitas vezes as eleições tiveram de ser adiadas."

Embora reservado, o que poderia indiciar timidez, José Eduardo dos Santos gozou a fama de ser um homem sedutor. O seu primeiro casamento foi com a azeri Tatiana Kukanova, no início da década de 70, e dele resultou o nascimento de Isabel dos Santos, em 1973. Já depois da independência de Angola, quando Eduardo dos Santos chegou à presidência, veio também a separação de Tatiana. E aqui há rumores para todos os gostos, desde o que aponta para o mau relacionamento da azeri com a sogra, ao que indica que o divórcio aconteceu porque não era politicamente correcto um líder africano ser casado com uma ocidental. O certo é que, no final da década, Tatiana partiu com a filha Isabel para Londres, onde a primogénita continuou os seus estudos.


Embora reservado, o que poderia indiciar timidez, Eduardo dos Santos gozou da fama de ser um homem sedutor. "Não gosto de falar de mim", disse à RTP em 1990.  


O general russo Valentin Varennikov, falecido em 2009, que esteve diversas vezes em Angola para dar assistência técnica ao MPLA na luta contra a UNITA, sustenta esta segunda versão ao jornalista José Milhazes, no blogue "darussia.blogspot.com". A sua vida pessoal desenvolveu-se de forma bastante dramática. Sob pressão das tradições nacionais, ele teve de deixar a esposa branca e a filha, construir uma nova família, porque a esposa do Presidente deveria ser negra. Dos Santos sujeitou-se aos costumes do seu povo. Varenikov destaca a atitude de José Eduardo dos Santos neste processo de separação. "Comportou-se de forma bastante nobre em relação à sua família anterior, deu-lhe uma 'villa', concedeu à antiga esposa uma pensão e um subsídio à filha".

Este general, que recebeu, entre outras, a condecoração de herói da União Soviética, enquanto estudante no Azerbaijão, já se destacava pelas suas "capacidades invulgares" e um "intelecto tenaz e vivo".

Margarida Paredes, uma investigadora social portuguesa que foi guerrilheira do MPLA e conheceu José Eduardo dos Santos em Brazzaville, recordou esses tempos numa entrevista ao Público, em Janeiro de 2016. "São duas pessoas diferentes. O que está no poder e o de 1974."

"Conheci-o pobre, com ajuda de um dicionário de russo-francês e ensinei a primeira mulher, a Tatiana, a falar português". E a história prossegue em Luanda, já depois da independência.

"Os pais do José Eduardo moravam num casebre no musseque do Rangel, em Luanda. A Tatiana queria ir levar comida, cobertores, dinheiro, porque eles viviam em grandes dificuldades e a maneira de lá chegar era comigo. Íamos no meu carro. Os pais dele moravam num dos casebres mais pobres. Foi logo a seguir à independência e, apesar de o filho ser ministro das Relações Exteriores, na altura ninguém tinha acesso a bens. Com a guerra às portas de Luanda e após os brancos da comunidade portuguesa terem saído, não havia comida. De uma maneira geral, todos passámos mal. Eu nem por isso. A minha mãe mandava um caixote de comida todas as semanas para Angola através de um indivíduo da TAP. Mandava-me tudo, queijo, bacalhau, sempre duas garrafas de vinho. Eu era uma privilegiada e distribuía o que recebia pelos amigos. A Tatiana sabia sempre quando o meu caixote tinha chegado e pedia-me as garrafas de vinho. Trocaram-nas por um carro. Veja a ironia, o primeiro carro que eles tiveram foi comprado com as minhas garrafas de vinho. Ensinei-a a conduzir nesse carro", relatou Margarida Paredes nessa conversa com a jornalista Isabel Lucas.
José Eduardo dos Santos com a sua terceira mulher, Ana Paula Cristóvão Lemos dos Santos, antiga hospedeira do avião presidencial da TAAG. Casaram em 1991.
José Eduardo dos Santos com a sua terceira mulher, Ana Paula Cristóvão Lemos dos Santos, antiga hospedeira do avião presidencial da TAAG. Casaram em 1991.
Siphiwe Sibeko/Reuters
Depois de Tatiana Kukanova, José Eduardo dos Santos iniciou um relacionamento com Maria Luísa Abrantes. Esta gestora, ex-presidente da ANIP (Agência Nacional do Investimento Privado), deu-lhe três filhos: José Filomeno dos Santos, Welwitschia dos Santos e José Eduardo Paulino dos Santos. Em 1991, José Eduardo dos Santos contraiu matrimónio, pela segunda vez, com Ana Paula dos Santos, antiga hospedeira do avião presidencial. Desta relação nasceram quatro filhos: Eduane Danilo Lemos dos Santos, Joseana Lemos dos Santos, Eduardo Breno Lemos dos Santos e Houston Lulendo Lemos dos Santos. Pelo meio, José Eduardo assumiu também a paternidade de José Avelino Gourgel dos Santos, resultante de um relacionamento com Maria Bernarda Gourgel.
Em 2004, a filha mais nova, Joseana, pôs nas redes sociais uma foto de família. A mãe, Ana Paula, lê uma revista e o pai aparenta estar a ver TV.
Em 2004, a filha mais nova, Joseana, pôs nas redes sociais uma foto de família. A mãe, Ana Paula, lê uma revista e o pai aparenta estar a ver TV.
Um "mágico" que satisfaz interesses diversos

Como foi possível a José Eduardo dos Santos manter-se tanto tempo no poder? Ricardo Soares de Oliveira, no livro "Magnífica e Miserável - Angola desde a Guerra Civil", ensaia uma resposta. "A longevidade de José Eduardo dos Santos relaciona-se, em parte, com a capacidade de nunca esquecer os interesses de diferentes bases de apoio da elite e de os satisfazer, sem haver espaço para dúvida sobre quem detém o controlo." Contudo, existe a possibilidade de este edifício sofrer um abalo estrutural com a sua saída, apesar da mestria de Eduardo dos Santos em manter a coesão partidária. "O MPLA, porém, é intrinsecamente fissíparo e as fricções podem reacender-se, sobretudo se a parada for inusitadamente alta e existir o receio de tudo perder. No fundo, muito depende das decisões complexas de um grupo de angolanos poderosos que, devido aos seus percursos, paixões e limitações pessoais, podem não revelar o sangue-frio que deles se espera na defesa dos seus próprios interesses", salienta o académico, professor associado de Política Comparada na Universidade de Oxford.


Tem um "talento místico para tirar da cartola dinheiro, concessões ou oportunidades de negócios e redistribui-los", escreveu Daniel Metcalfe. 


Daniel Metcalfe, jornalista, autor de "Dália Azul, Ouro Negro - Viagem a Angola", escreve que em certos meios José Eduardo dos Santos é conhecido como "o mágico". Porquê? "Em virtude do seu talento místico para tirar da cartola dinheiro, concessões ou oportunidades de negócios e redistribuí-los", o que explica, em parte, a estabilidade existente em Angola.

A avaliação do legado de José Eduardo dos Santos está longe de ser consensual. Patrício Batsikama gaba-lhe a visão de "estadista", caracterizada pela "permanente celebração da paz para garantir a integridade simbólica do Estado nacional com segurança". E acrescenta: "Esta estrutura-se na concorrência dialógica entre diferentes capitais humanos que almejam o compromisso económico de produzir riquezas, em busca da prosperidade interna e na gestão de boa vizinhança."
José Eduardo dos Santos fez a guerra e devolveu a paz ao país, depois da morte de Jonas Savimbi, em 2002. A forma como Angola vai evoluir depois da sua saída é decisiva para avaliar o seu legado.
José Eduardo dos Santos fez a guerra e devolveu a paz ao país, depois da morte de Jonas Savimbi, em 2002. A forma como Angola vai evoluir depois da sua saída é decisiva para avaliar o seu legado.
Hugo Correia/Reuters
O jornalista Mfonobong Nsehe, num artigo publicado na Forbes em Fevereiro de 2012, elegeu-o com um dos cinco piores líderes de África. "Em vez de transformar o 'boom' económico de Angola em alívio social para o seu povo, canalizou as suas energias para intimidar os media locais e desviar os fundos do Estado para suas contas pessoais e familiares. A família de Dos Santos controla uma grande parte da economia angolana. Sua filha Isabel dos Santos acumulou uma das maiores fortunas pessoais de Angola, usando o produto da alegada corrupção de seu pai para adquirir participações substanciais em empresas como a Zon Multimédia [agora a Nos] e em bancos portugueses."

Nicolau Santos, em Fevereiro deste ano, logo após ser conhecida a saída de José Eduardo dos Santos da presidência, interrogava: "Como é que a História julgará José Eduardo dos Santos?" E retorquia assim. "Essa é a pergunta que só terá resposta daqui a quatro ou cinco décadas, quando a distância permitir perceber as múltiplas 'nuances' do seu longo reinado. Mas todos os aspectos positivos serão valorizados se Angola fizer uma transição suave e se for aprofundada a frágil democracia que se vive no país - e toda a análise lhe será desfavorável se Angola mergulhar numa convulsão política, económica e social. O tempo se encarregará de dar a resposta."

"Até agora, a hegemonia de Eduardo dos Santos tem sido total, do partido à economia até ao aparelho de Estado. A sua saída da presidência tem de abrir um certo espaço, mas não podemos deixar de lembrar que ele vai continuar a dirigir o MPLA por mais alguns anos. E a família dele, na figura de Isabel dos Santos, vai continuar a dominar a economia", afirmou Justin Pearce, investigador na Universidade de Cambridge e autor de "A Guerra Civil em Angola - 1975/1992", em entrevista concedida ao Diário de Notícias em Maio deste ano.




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Libera 04.09.2017

Angola foi um circo e teve um palhaço !findo isto e já dizia isto há anos atrás o mpla tem trabalhado para a UNITA,depois de destruir o páis terá que erguer as cubatas mas quem vai ocupar as cubatas é a Unita e julgará os fraticidas do mpla que achavam que a justiça se tinha esqueçido

eleitor 20.08.2017

Os Angolanos que não se iludam..........sai mas deixa os rebentos dar continuidade a DITADURA !

EDUARDO SANTOS, JER. SOUSA, VENEZUELA E COREIA DO 20.08.2017

É o escroque do JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS e os seus GENERAIS a apelidarem o seu regime de "comunista" e o JERÓNIMO DE SOUSA (entenda-se, o PCP ), vergonhosamente, a apoiar a ditadura venezuelana e a monarquia da COREIA DO NORTE.
Eu, que sou um independente de esquerda, sinto-me enojado com isto.

Anónimo 19.08.2017

Mesmo na miseria, o povo vota nos mesmos, tem o que merece, porque nao escolher outros, ? O povo tal como ca e burro, qurem continuar na miseria.

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