Weekend O choque da Supreme

O choque da Supreme

Os artigos de uma marca de "streetwear", a Supreme, foram a leilão e estão a provocar um choque mundial. Foram leiloadas T-shirts por cinco mil euros e pranchas de skate por dois mil euros. É uma revolução em marcha.
O choque da Supreme
José Vegar 09 de junho de 2018 às 09:00
O leilão realizado pela Artcurial no passado dia 16 de Maio, acessível em https://www.artcurial.com /en/sale-3810-cream, continua a lançar ondas de choque. A venda pública facturou apenas 849 mil euros, e a maior parte dos bens negociados atingiu, em média, valores entre os mil e os cinco mil euros. Assim, à primeira vista, nada de especial, a começar por um mercado como o português, e uma insignificância para mercados cimeiros como o norte-americano, o inglês e o francês. No entanto, o perfil do leilão, e o seu valor, muda totalmente quando descobrimos que bens foram negociados.

Sob o nome C.R.E.A.M. (Cash Rules Everything Around Me), o leilão assentou, na sua maior parte, em bens da mítica marca norte-americana de "streetwear" Supreme. Assim, o que estava para licitação eram bens "core" da Supreme, como T-shirts e pranchas de skate, como também bens de projectos colaterais de comunicação da marca, de capacetes de motociclismo a guitarras eléctricas, passando por colaborações de arte, sacos de boxe, bastões de basebol, bolas de futebol, e muitos outros, dado o poder de ubiquidade da marca.

Deste modo, os licitadores pagaram mil a cinco mil euros por uma T-shirt, dois mil euros por uma bola de futebol, ou treze mil euros por um saco de viagem feito em colaboração entre a Supreme e a Louis Vuitton. As ondas de choque e o debate provocados pelo leilão continuam a existir, por vezes de forma intensa e ruidosa. Um grupo enorme dos envolvidos no debate, de especialistas do mundo dos bens culturais a académicos, defende que o mundo enlouqueceu, o que é uma tese extremamente defensável. Estes intervenientes invocam que só um mercado formado por investidores sem qualquer noção do que é um objecto cultural, e sem qualquer noção de tempo e de percurso histórico, é capaz de oferecer cinco mil euros por uma T-shirt, dando-lhe, com a compra, um estatuto de bem cultural e artístico.

O outro grupo de participantes no debate tem uma perspectiva completamente diferente, considerando, para começar, que o sucesso do leilão mostra que há uma mudança total na percepção do que é um bem cultural de valor. Para eles, fica provado novamente que bens massificados, como T-shirts, podem ganhar estatuto de valor. Para eles, fica também provado que os produtores de bens culturais deixaram de ser os tradicionais, como os artistas, os artesãos ou os designers, para incluírem também origens de empresas comerciais, como é o caso da Supreme.

No meio de todo o debate, o que é preciso ter em conta, acima de tudo, é que o leilão se realizou e teve sucesso. Irão certamente existir outros no futuro próximo e, se tiverem igualmente êxito, estamos perante uma pequena mudança de paradigma, em termos históricos e de mercado, mas que não deixa de ser chocante.


Nota ao leitor: Os bens culturais, também classificados como bens de paixão, deixaram de ser um investimento de elite, e a designação inclui hoje uma panóplia gigantesca de temas, que vão dos mais tradicionais, como a arte ou os automóveis clássicos, a outros totalmente contemporâneos, como são os têxteis, o mobiliário de design ou a moda. Ao mesmo tempo, os bens culturais são activos acessíveis e disputados em mercados globais extremamente competitivos. Semanalmente, o Negócios irá revelar algumas das histórias fascinantes relacionadas com estes mercados, partilhando assim, de forma independente, a informação mais preciosa.