Livros O encontro com o passado

O encontro com o passado

Muito do universo de Brueghel deve ter fascinado Fernanda Botelho, um dos bons segredos da escrita portuguesa que, com “Esta noite sonhei com Brueghel”, atingia um momento supremo da sua escrita
Fernando Sobral 12 de agosto de 2017 às 09:15
Fernanda Botelho
Esta noite sonhei com Brueghel
Abysmo,
264 páginas, 2017


Brueghel, o Velho, retractou como ninguém até aí, em meados do século XVI, o dia de todos os dias, os jogos e os festivais de uma Holanda em busca do seu destino. Nos seus quadros encontramos uma singularidade ingenuidade que tem que ver com esse tempo de mudanças, quando o pensamento de Erasmo estava a temperar o rígido pensamento católico. O homem descobria que tinha de educar a sua própria alma em vez de deixar que os padres o fizessem por ele. Brueghel, que pediu à mulher para queimar alguns quadros quando morresse, muito provavelmente teve um fascínio por estas novas ideias mas, ao mesmo tempo, tentou o possível para não ser apanhado nas teias da Inquisição.

Muito deste universo deve ter fascinado Fernanda Botelho, um dos bons segredos da escrita portuguesa que, com este "Esta noite sonhei com Brueghel", editado originalmente em 1987, atingia um momento supremo da sua escrita. Ainda bem que é agora reeditado. Na altura, a escrita emergia de um silêncio que durava há uma década.

Já nessa altura se questionou o seu fascínio pelo pintor flamengo. Talvez uma parte da resposta, tal como a personagem Luíza nos vai elucidando, seja muito clara: "Aqui tudo é transparente e límpido. Não fora esta Dulle Griet na minha frente, eu sucumbiria a uma sedativa envolvência e adormeceria refastelada num sono sem história. Mas há a Dulle Griet. Sentada à minha frente, vou monologando a lenga-lenga da minha confusão, à espera de que Brueghel acorra para me elucidar sobre os meus demónios". Dulle Griet é, claro, um quadro de Brueghel, onde muitas vezes recorre aos mitos populares para reflectir sobre o mundo (político) que o cerca e a condição humana que a todos afecta.

Compreende-se assim melhor esta relação de Brueghel com a escrita de Fernanda Botelho e com o que de belo (e também desconfortável) encontramos nesta obra da autora. O olhar do pintor flamengo é simbólico: a sua visão de uma Holanda, que muitos consideravam próspera, serve à escritora para tirar também o verniz ao seu Portugal. Luíza é, claro, a máscara de Fernanda Botelho para olhar para os sonhos e pesadelos dos portugueses. Os quadros do pintor perseguem Luíza (que também tem sangue flamengo): "A gente de Brueghel ostenta com desfaçatez a sua vocação primária para o vício incorrupto, tanto quanto para um casto e regozijado amor à terra pródiga - mas que significa isto, afinal? Talvez signifique desperdício, muito simplesmente. Muito simplesmente desperdício! Mas onde viveu esta gente, em que galáxia, em que mundo?"

Luíza busca o seu passado, mas também o seu presente e futuro. É a História que a move através de Brueghel. E é todo esse percurso sinuoso que Fernanda Botelho vai descrevendo com rigor estilístico notável ao longo das páginas. Este é um livro em que uma escritora se defronta com a sua própria vida. E a reflecte de forma visível. Trata-se de uma obra maior na literatura portuguesa.







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