Livros O grande império com pés de barro

O grande império com pés de barro

A ascensão e queda do império português continua a ser um tema fascinante. Num livro conciso e extremamente agradável de se ler, o professor Russell-Wood explica-nos como tudo aconteceu.
O grande império com pés de barro
A. J. R. Russell-Wood, "O Império Português", Clube do Autor, 348 páginas, 2016
Fernando Sobral 17 de dezembro de 2016 às 12:30
Continua a ser um tema fascinante a ascensão de um pequeno país, nas margens do centro da Europa, como a potência que deu novos mundos ao mundo, que abriu as rotas do Oriente por mar, que desvendou parte da América, que conquistou os mares e transformou o comércio e a economia de uma forma radical no século XVI. O império português, na sua génese e depois na sua queda, é um tema que continua a merecer a atenção de investigadores de todo o mundo.

Considerado um dos maiores estudiosos da história do império português e do universo luso-brasileiro, A. J. R. Russell-Wood traça aqui o ritmo da expansão portuguesa e depois o seu inevitável declínio. Como escreve o autor: "Primeiro, tratou-se de um esforço prolongado que se manteve durante mais de um século. Em segundo, atingiu todos os continentes à excepção da Antártida e possivelmente da Austrália, tendo os seus navios deixado esteiras em todos os oceanos e principais mares do mundo. Em terceiro, contactaram com uma diversidade de regimes políticos e práticas comerciais, assim como com todas as principais religiões. Por último, tiveram uma série de 'encontros' (como actualmente se diz) durante mais de um século em África, na Ásia, e também na América, muito mais complexos e variados do que os dos espanhóis nas Américas ou nas Filipinas".

Está assim dado o mote para este trabalho de Russell-Wood que se lê com extremo prazer. Porque consegue sintetizar de uma forma clara as razões da expansão e também aquelas que levaram ao ocaso da presença portuguesa no mundo. O estudo alarga-se de 1415 a 1808, quando já é inevitável a recondução do império português às suas reduzidas dimensões, numa altura em que as grandes potências (sobretudo a Inglaterra e a França) começavam a ser detentoras do poder a todos os níveis e em todas as latitudes.

O autor escreve: "os portugueses podiam construir fortes, impor um sistema de passes (cartazes) a bordo, estabelecer colónias, até pilhar, mas a sua presença não era tão dominante como os números impressionantes de fortes e comunidades sugerem. Muçulmanos e outros mercadores continuavam presentes nas rotas de longa distância e controlavam as diásporas comerciais entrecruzadas, tanto locais como interoceânicas, do Levante ao Oriente. (…) A força dos portugueses tornou-se o seu tendão de Aquiles. Os fortes e fortalezas costeiros eram extremamente vulneráveis aos ataques, que se verificavam um a um. Só em poucos casos conseguiram fazer entrar o número suficiente de soldados, mantimentos do interior ou apoio logístico imediato". Ou seja, o império tornou-se demasiado grande para um país tão pequeno, com poucos recursos, especialmente humanos. Não admira que o império tivesse pés de barro, como se veio a comprovar com o tempo e também com muitos erros estratégicos que a elite de Lisboa se encarregou de fazer.

Este livro acaba por ser extremamente interessante e aliciante para quem quer perceber melhor como é que Portugal foi enorme e depois foi desaparecendo, mesmo mantendo ligações culturais que hoje ainda são óbvias nas sete partidas do mundo. Este é um livro também muito útil para percebermos melhor os constrangimentos com que nos deparamos actualmente. Eles são também um pouco fruto desse passado imperial que nos deixou uma aura de grandeza mas que, bem esmiuçada, tinha já os vírus de muito do que depois acabámos por encontrar no nosso dia-a-dia.




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