Weekend O legado de Bowie

O legado de Bowie

Uma leiloeira a operar exclusivamente em ambiente virtual tem, neste momento, uma licitação que recupera todo o poder icónico do músico inglês que marcou gerações.
O legado de Bowie
Reuters
José Vegar 11 de fevereiro de 2017 às 10:15
O mundo não deixa David Bowie desaparecer. Felizmente. Na verdade, um ano e pouco depois da morte do músico inglês, há em torno dele uma conspiração de eternidade, pensada e executada por várias forças, sem aparente articulação entre si. No coração desta campanha estão os músicos e as editoras discográficas, não necessariamente com os mesmos objectivos, em que os primeiros têm procurado manifestar o seu tributo na forma de alguns espectáculos musicais que testemunhem o génio de Bowie, enquanto os segundos compilam e recompilam o trabalho do músico, esperando-se, neste campo, que o melhor ainda esteja a ser trabalhado.

Uma outra força muito activa nesta conspiração é a editorial, que tem publicado as inevitáveis biografias e memórias, algumas delas muito interessantes, mas também textos onde se procura definir o lugar de Bowie na música, e avaliar o seu contributo. No entanto, a força conspirativa mais interessante é a da arte, talvez pela relativa surpresa que é a sua associação a Bowie. Nesta frente, há que distinguir entre três movimentos, o da arte de Bowie, o da arte detida por Bowie, e o da arte criada a partir de Bowie.

Em relação ao primeiro movimento, é muito interessante notar que o músico procurou acompanhar a criação contemporânea, adquirindo trabalhos que, de algum modo, representassem o espírito do seu tempo. A colecção, avaliada entre 10 a 30 milhões de euros, teve uma primeira venda em Novembro do ano passado, e outras irão seguir-se.

A arte criada pelo próprio músico, maioritariamente pintura, é ainda mais interessante, porque revela um artista com um notável domínio técnico, e capaz de passar de uma forma violenta para a tela tudo aquilo que observa e tudo aquilo que o perturba.

O terceiro movimento começa agora a entrar no mercado e assenta na exploração, ou na partilha, do imenso poder iconográfico e estético que Bowie sempre procurou colocar tanto em si como nos seus espectáculos. Este poder tem sido recuperado e disponibilizado especialmente através da fotografia, e é este o caminho escolhido pela leiloeira virtual Paddle8, www.paddle8.com, no leilão "Backstage Pass: David Bowie", activo até ao próximo dia 14.

A Paddle 8 reuniu várias dezenas de lotes ordenados em fotografias, trabalhos artísticos e objectos memorialísticos. A secção de fotografia é a mais forte, já que recupera o trabalho de fotógrafos, como Mick Rock, Lynn Goldsmith e Geoff MacCormack, que, por amizade ou contrato, acompanharam durante várias décadas o músico e o seu trabalho. O que as imagens permitem descobrir, ou redescobrir, é o imenso trabalho de imagem de Bowie, tanto na sua faceta "limpa", como nas imensas metamorfoses corporais e de construção de personagens que sempre o distinguiram.

Os trabalhos artísticos assentam também nas várias facetas iconográficas do músico, enquanto que os objectos de memória escolhidos são aqueles pelos quais os admiradores dão tudo o que tiverem, desde cartazes de espectáculos assinados pelo próprio músico, até letras de canções. O preço dos itens oscila, na maioria, entre os mil e os dez mil euros, com alguns lotes a atingirem mais de duas dezenas de milhares de euros.

O que é interessante descobrir com este leilão, e com os que certamente se seguirão, é a capacidade de certos agentes mediáticos, neste caso um músico, para passarem de ícones a valores de um mercado ainda restrito, como é o da arte.


*Nota ao leitor: Os bens culturais, também classificados como bens de paixão, deixaram de ser um investimento de elite, e a designação inclui hoje uma panóplia gigantesca de temas, que vão dos mais tradicionais, como a arte ou os automóveis clássicos, a outros totalmente contemporâneos, como são os têxteis, o mobiliário de design ou a moda. Ao mesmo tempo, os bens culturais são activos acessíveis e disputados em mercados globais extremamente competitivos. Semanalmente, o Negócios irá revelar algumas das histórias fascinantes relacionadas com estes mercados, partilhando assim, de forma independente, a informação mais preciosa.





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