Livros O outro lado de Lenine

O outro lado de Lenine

Um século depois da Revolução de Outubro na Rússia ainda se continua a discutir apaixonadamente quem foi Lenine. Uma nova biografia aumenta o debate.
Fernando Sobral 11 de novembro de 2017 às 09:15
Victor Sebestyen
Lenine, o Ditador
Objectiva,
662 páginas, 2017

Neste tempo em que se celebram os 100 anos da Revolução de Outubro, com diferentes visões sobre o tema, não deixa de ser curioso ler esta volumosa biografia de Lenine, escrita por Victor Sebestyen, que tenta de alguma maneira traçar uma ponte entre o líder bolchevique e os tempos de hoje.

Na introdução, por exemplo, escreve: "Lenine adquiriu o poder através de um golpe, mas não actuou integralmente com recurso ao terror. Em muitos aspectos, foi um fenómeno político totalmente moderno - o tipo de demagogo que nos é familiar nas democracias ocidentais, bem como nas ditaduras. Na sua demanda do poder, prometeu tudo e mais alguma coisa ao povo. Propôs soluções simples para problemas complexos. Mentiu desavergonhadamente. Identificou um bode expiatório que posteriormente pôde designar como 'inimigos do povo'. Justificou-se com a ideia de que vencer é o que importa: os fins justificam os meios. Qualquer pessoa que tenha tido a experiência de eleições nas culturas políticas consideradas sofisticadas do Ocidente poderá reconhecê-lo. Lenine foi o padrinho do que os comentadores hoje chamam 'política da pós-verdade'." Talvez por isso se percebam melhor as afirmações de Steve Bannon, a "eminência parda" de Donald Trump, quando dizia que ele, tal como Lenine, tinha como missão destruir o Estado.

Sebestyen tenta, ao longo do livro, estabelecer uma linha que une Lenine a muitos políticos de hoje: por trás de uma imagem afável e algo sofisticada, o líder bolchevique era capaz de actos brutais, abrindo o caminho para o que hoje conhecemos como estalinismo. Tudo isso se liga à sua vida privada (sobretudo à relação com a mulher, Nadezhda Krupskaya, e a amante, Inessa Armand), outro universo no qual o que era visível não correspondia ao universo invisível.

Tudo isto é contado com vários pormenores pictóricos que, muitas vezes, parecem exagerados, como se o autor quisesse por vezes fazer do ridículo a forma de abater aquele que, independentemente de tudo, alterou os caminhos da História num país atrasado e governado por uma elite indiferente à realidade. E que, com isso, contaminou mais de meio século da História do mundo.

Muito do que aqui se conta é-nos familiar: o regime czarista enforcou o irmão mais velho de Lenine por conspirar para assassinar o czar Alexandre III. Ostracizado, descobriu Karl Marx. E é depois que entramos no universo mais difícil de conhecer de Lenine: qual era a sua verdadeira personalidade? Ou seja, aquela que impôs um regime que foi suprimindo os opositores, mesmo os que no início eram seguidores da ideia de revolução (basta ver o que sucedeu a muita da elite cultural da época).

Os objectivos de Lenine parecem sempre definir a sua rota. A corrupta sociedade czarista foi o chão perfeito para a vindima bolchevique. Entre o idealismo e a tirania, centra-se o lugar de Lenine. E há a questão da religiosidade, que Sebestyen talvez trate pouco aqui. Basta ler o grande poema de Alexander Blok, "The Twelve", que imagina os violentos jovens bolcheviques como apóstolos, para se perceber melhor o caldo cultural e religioso em que se fermentou a revolução. Lenine não criou a tempestade que levou à revolução, mas soube cavalgá-la. O preço foi brutal. Mas talvez seja isso que mais falta a este livro: o autor centra-se muito na acidez humorística e falha o lado cerebral (e amoral) de Lenine.




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