Weekend O regresso da Aranha Negra

O regresso da Aranha Negra

O poster oficial do Mundial 2018, organizado pela Rússia, é uma homenagem fabulosa aos mestres do cartaz gráfico. É também uma operação brilhante de recuperação da memória e de partilha da identidade nacional russa.
O regresso da Aranha Negra
José Vegar 09 de dezembro de 2017 às 13:00
Não é facilmente perceptível para estes lados ocidentais da Europa, totalmente dominados pelo "soft power" americano, e por todas as distracções interactivas do território digital, mas a Rússia é hoje um dos pouco países do mundo a manter uma identidade nacional e uma cultura alternativas, que não são mais do que as suas.

Naturalmente, quando escrevemos sobre a Rússia, não podemos ignorar de modo algum a sua permanente trágica história política, social e económica, do Estalinismo às desenfreadas últimas décadas, o que torna ainda mais fantástico que, pelos interstícios deste caos contínuo, continue a produzir alguma da melhor alta cultura do mundo, ao mesmo tempo que mantém uma veneração quase idólatra pela sua identidade e pela sua criação.

Se tivermos em conta estas coordenadas, que são as coordenadas centrais dos russos, não é de todo surpreendente que o cartaz oficial do próximo mundial de futebol, organizado pela Rússia, a realizar a partir de Junho de 2018, tenha Lev Yashin e a linguagem gráfica do pós-construtivismo russo como, respectivamente, elemento e filiação.

Yashin, a Aranha Negra, continua a ser uma lenda global do futebol, apesar de se ter retirado em 1970, numa época em que o jogo e a televisão não eram ainda amantes interdependentes. O Aranha Negra, alcunha que lhe foi colocada por jogar sempre de negro, é ainda hoje considerado o melhor guarda-redes de sempre, e reverenciado na medida certa pelos cidadãos da Terra-Mãe.

A par da celebração de Yashin, que aparece no poster num dos voos que o singularizaram, o que emociona no grafismo é a invocação da época de ouro do cartaz. O que o designer russo Igor Gurovich conseguiu, de forma brilhante e simples, foi, com uma só imagem criada, recuperar dezenas de outros cartazes memoráveis das décadas de 20 e 30 do século passado, concebidos por, entre outros génios, Dziga Vertov ou os irmãos Stenberg.

O pós-construtivismo gráfico soviético, cujo meio preferido foi exactamente o cartaz, celebrou a arte, mas também a revolução soviética e as conquistas políticas e sociais. Ou seja, serviu o desígnio de colocar a melhor arte ao serviço da política e da Nação. Foi uma escola tão influente que marcou a propaganda de todo o mundo nas décadas seguintes, e os seus melhores exemplares continuam hoje com cotações altíssimas.

Deste modo, mantendo a linguagem gráfica dos originais, Gurovich conseguiu trazer de regresso um pedaço importante da memória e da identidade dos russos, partilhando-a com o mundo inteiro. Será interessante saber, nos tempos mais próximos, como irão a FIFA e a comissão russa do mundial 2018 gerir a comercialização do poster oficial. Será que terão uma série limitada e assinada, que possa captar a atenção dos investidores? É a melhor maneira de honrar a memória. 


Nota ao leitor: Os bens culturais, também classificados como bens de paixão, deixaram de ser um investimento de elite, e a designação inclui hoje uma panóplia gigantesca de temas, que vão dos mais tradicionais, como a arte ou os automóveis clássicos, a outros totalmente contemporâneos, como são os têxteis, o mobiliário de design ou a moda. Ao mesmo tempo, os bens culturais são activos acessíveis e disputados em mercados globais extremamente competitivos. Semanalmente, o Negócios irá revelar algumas das histórias fascinantes relacionadas com estes mercados, partilhando assim, de forma independente, a informação mais preciosa.





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comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

Detesto o comunismo como regime politico mas sempre fui um admirador do nacionalismo e da cultura russos. A Mãe Rússia, como se dizia antigamente. Quanto ao Imortal Aranha Negra, tive o privilégio de o ver jogar algumas vezes. Bons tempos e uma mais que merecida homenagem não só ao Yashin mas a todos os vivos que ainda o guardam na memória.

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