Livros O repórter temerário

O repórter temerário

“Ébano”, de Ryszard Kapuscinski, é sobretudo um livro sobre o mundo estranhamente belo que é África. Basta ver como descreve o fascínio que teve sobre ele a luz africana.
O repórter temerário
Fernando Sobral 28 de outubro de 2017 às 09:30
Ryszard Kapuscinski
Ébano
Livros do Brasil,
323 páginas, 2017

Em 1975, a Polish Press Agency contratou Ryszard Kapuscinski, então com 25 anos, como o seu correspondente a tempo inteiro em África. Não era um acaso: o continente estava à véspera de um movimento de independências que alteraria para sempre a sua imagem. Nos anos subsequentes, apesar das suas viagens à Ásia e à América Latina, Kapuscinski voltaria sempre a África para sentir a hospitalidade dos habitantes das savanas tropicais, ou para sentir com os nómadas a correria dos camiões que então iam transformando as comunicações no interior africano. E é muito desse olhar melancólico, mas também cirúrgico, que observamos neste livro de não-ficção.

É sobretudo um livro sobre o mundo estranhamente belo que é África. Basta ver como descreve o fascínio que teve sobre ele a luz africana, logo no momento em que, no final dos anos 50, chegou a Kumasi, no Gana. Ao contrário de outros correspondentes estrangeiros, Kapuscinski vivia nos subúrbios com os africanos, expondo-se ao perigo, mas tendo acesso a histórias que nunca entravam nos selectos hotéis frequentados pelas elites. Ele sabia assim como era o dia-a-dia dos africanos comuns.

Em Lagos, na Nigéria, assiste ao brutal espancamento de um jovem por roubar bananas. Conquistando uma teia de amigos, acaba por conseguir ir até zonas remotas e perigosas de África, seja na Somália ou no Uganda. Foi atacado pela malária. Às vezes, sente-se que Kapuscinski desafia o perigo. Quando há um golpe de Estado em Zanzibar, aluga um avião, apesar de ter sido avisado de que poderia ser um alvo.

Ao longo das páginas, mostra-nos como o continente se vai alterando de forma contínua. Vai mostrando como os nacionalistas africanos, no início dos anos 60, pensavam que a erradicação do colonialismo traria, só por si, um mundo de abundância e que a corrupção desapareceria. Nada disso aconteceu: as guerras civis haveriam de se suceder, bem como outros flagelos, como a sida.

Kapuscinski saltita entre as décadas, falando de múltiplos conflitos a que assistiu, alguns deles muito sangrentos, como os do Sudão ou do Ruanda, entre hutis e tutsis. Ele, através das palavras de um guia numa remota localidade onde se passa fome, transmite-nos a mensagem: "Como as pessoas da Europa passam o seu tempo apenas nas cidades e viajam só nas principais estradas, não conseguem nem imaginar como é a nossa África."

O jornalista que marcou uma época dá-nos uma ideia de como a vida é neste planeta, sobretudo em África. Sabia do que falava: durante os 300 anos em que trabalhou para a agência polaca, assistiu a 27 revoluções e golpes de Estado. Muitas vezes desaparecia sem rasto, em busca sabe-se lá do quê. Era um sobrevivente que tentava encontrar o seu destino, como se vê muitas vezes nestas páginas cheias de energia. Em 1966, viajou por uma estrada na Nigéria da qual se dizia que nenhum branco tinha regressado com vida. Ele diz que conduziu por ali só para ver se um branco conseguia sobreviver. Isto porque tinha de experimentar tudo.

Todo este olhar, que começa a ser feito no início da década de 60, é extremamente importante para percebermos aquilo que se passou nas décadas que se seguiriam e que tornariam África não num continente de esperança, mas num continente de guerras. O autor parece sentir-se em casa nesta África sem fim. E é isso mesmo que nos transmite neste livro fascinante.


Destaques

Adolfo Bioy Casares
O Sonho dos Heróis
Cavalo de Ferro, 
171 páginas, 2017

Recordar e surpreender-se


Adolfo Bioy Casares viveu muitas vezes à sombra do seu amigo Jorge Luís Borges. E a sua escrita nem sempre teve a relevância que deveria ter por causa disso. Mas Casares sempre foi um escritor sólido, como mostrou desde o seu magnífico "A invenção de Morel", de 1940, que hoje é uma obra de culto. "O Sonho dos Heróis", outra obra de grande fulgor, conta-nos a história de três dias em que Emilio Gauna convida os amigos a gastar todo o dinheiro que ganhou nas corridas. Mas, três anos depois, tem de voltar aos locais para recordar o que esqueceu. 

Manuel s. Fonseca
Revolução de Outubro
Guerra & Paz, 
159 páginas, 2017

À volta de uma revolução utópica

Manuel S. Fonseca regressa aos tempos da Revolução Russa de 1917 e, num livro brilhantemente bem organizado graficamente, traça as raízes e os contornos dos dias que levaram Lenine e os bolcheviques ao poder. Como escreve: "As revoluções de 1917 nasceram do caos, das trevas, das trincheiras de sangue. Olhava-se para o sagrado Império Russo e via-se uma gigantesca e caótica multidão, e era tudo escuro, vazio, uma sórdida e densa fatia de negrume e lama." Uma maçã pronta a ser colhida. Como se lê neste empolgante ensaio. 

Robert Harris
Dictator
Editorial Presença,
406 páginas, 2017

Cícero e o fim de uma era 

Robert Harris continua aqui a sua viagem ao tempo áureo da Roma cheia de intrigas e lutas palacianas, as que contribuíram para o amolecimento do regime e para a sua posterior queda. O centro de tudo isto é a relação entre
o grande orador que foi Cícero e Júlio César, que reforçou o poder central. Cícero cai em desgraça, mas acaba por regressar a Roma, onde procura voltar a ter o seu poder, no meio de todas as conspirações que existem no círculo no qual se decide o destino do império. No entanto, ele próprio não está a salvo.



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