Weekend O tinto que nunca seguiu as modas

O tinto que nunca seguiu as modas

Os 25 anos da Quinta da Gaivosa foram um bom pretexto para testemunhar que 12 tintos criados a partir de 1992 continuam em forma. Se hoje exigimos frescura nos vinhos, Domingos Alves de Sousa prova que sempre esteve no caminho certo.
O tinto que nunca seguiu as modas
Edgardo Pacheco 09 de setembro de 2017 às 13:00
O último Quinta da Gaivosa é da colheita de 2013 que, como se imagina, realça as notas de fruta alicorada e de barrica. No meu juízo, é vinho para começar a ser bebido daqui por cinco anos. Mas é só uma opinião, custa 38€. 

As tendências no mundo do vinho são curiosas. E didácticas. Nos anos 90, um dos ex-líbris da muito nova região do Douro em matéria de vinhos tranquilos era o Quinta da Gaivosa tinto.

Se a aventura de Domingos Alves de Sousa começou com os disruptivos Quinta da Gaivosa de 92 e 94, a soberba colheita de 95 atirou para o estrelato a jovem marca de um Douro quase só destinado ao vinho do Porto, ainda por cima da sub-região do Baixo Corgo. Naquela altura, não havia nenhum amante de vinho (rico de verdade ou em sonhos) que não gostasse de servir Quinta da Gaivosa aos amigos. Na década de 90, beber Gaivosa era um claro sinal de mobilidade social.

A partir do ano 2000, e com a chegada de novos produtores do Douro que tinham como objectivo cair nas graças dos provadores das revistas estrangeiras que decidem os negócios, os vinhos surgiam com perfis diferentes dos vinhos da família Alves de Sousa. Chegavam agora cheios de fruta madura, muito extraídos e alcoólicos quanto baste. A partir daqui, a marca Quinta da Gaivosa, apesar de ser sempre disputada por enófilos, teve de dividir o palco com outras.

Essa procura por vinhos mais estruturados prolongou-se durante os primeiros 15 anos do século XXI, até que, aos poucos, começámos a ouvir da boca de certos produtores e enólogos o discurso da frescura, da moderação alcoólica e da recuperação de castas entretanto abandonadas.

Assim, quando as tendências regressavam ao ponto de partida - digamos assim -, as marcas que se mantiveram fiéis à sua matriz foram recompensadas. E, se bem avalio, é isso que acontece com o tinto Quinta da Gaivosa, que nunca abdicou de um certo carácter vegetal, balsâmico e mineral, com taninos mais secos, álcool controlado e acidez indispensável para a frescura - elementos estratégicos para a longevidade e a harmonia de conjunto.

Longevidade que ficou registada numa prova na passada quarta-feira e que celebrou os 25 anos de vida da Quinta da Gaivosa. De 1992 até à data foram lançados 12 vinhos com o nome da quinta, os quais foram submetidos à prova da passagem do tempo sem que o produtor Domingos e o seu filho e enólogo Tiago tivessem eliminado qualquer colheita menos bem-sucedida (coisa rara nestas circunstâncias).

E mais. Segundo o produtor, as garrafas abertas foram todas servidas. Em nenhuma colheita se encontrou um defeito que exigisse a abertura de outra garrafa, embora, em minha opinião, a colheita de 97 destoasse das restantes.

De resto, com mais ou menos evolução, com mais ou menos notas de torrefacção, os vinhos apresentavam um perfil bastante homogéneo, onde quase sempre apareciam as notas de bosque e as sensações minerais e vegetais.

Dentro da proliferação dos microterroir do Douro, a Quinta da Gaivosa é um caso peculiar pelo facto de estar, no Baixo Corgo, no início da região do Douro (temperaturas mais moderadas e mais pluviosidade), por ramificar-se em parcelas com diferentes declives e exposições, por assentar em solos paupérrimos e por estar rodeada de floresta diversificada. Todo o Douro é pobre de solos, mas, nesta quinta, ficamos com a ideia de que as raízes estão agarradas ao xisto e não à terra. A tal mineralidade e as tais notas vegetais e de bosque são apenas o espelho das vinhas.

Isto é a beleza do conceito de terroir. Quando bebo um vinho da Gaivosa, tento associar as suas notas aromáticas e os seus sabores em função da parcela ou das parcelas de vinhas que lhe deram origem.

E é por isso que o enoturismo tem de ser muito mais do que visitar a loja de vendas das quintas, provar uns vinhos, comprar uma ou outra garrafa e regressar a casa. É fundamental olhar, sentir a vinha e provar os vinhos para imaginar os que caminhos vão trilhar.

Um amigo que tinha garrafas de várias colheitas de Quinta da Gaivosa andava triste porque ele e a mulher estavam embeiçados por outras preferências vínicas mais contemporâneas. Olhando para a lista das existências, resolvi, para não chocar muito, recomendar-lhe a abertura de um tinto de 2008, devidamente decantado, com a temperatura certa e na companhia de uma carne de forno. Dias depois mandou-me uma SMS muito alegre e a dizer que me convidaria para um jantar com colheitas mais recuadas, como retribuição pelo conselho. O convite ainda está para chegar, mas pouco importa. Só espero que ele e a mulher se divirtam com vinhos Quinta da Gaivosa mais antigos, que bem merecem. Os meus amigos e os tintos.





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