Weekend O Poder imperial de autenticação

O Poder imperial de autenticação

Os donos do conhecimento e do estatuto, necessários para certificar a origem e a autenticidade de uma obra de arte, adquirem cada vez mais importância no mercado global.
O Poder imperial de autenticação
José Vegar 22 de Outubro de 2016 às 10:15
Duas histórias emocionantes circulam actualmente em todos os fluxos e nós do mundo global da arte. A mais mediática é a relacionada com o anúncio da casa leiloeira Sotheby's, feito recentemente, de que um quadro do mestre flamengo Frans Hals, vendido em leilão em 2011, por 10 milhões de dólares, é afinal falso. A leiloeira foi obrigada a retomar o quadro, indemnizando o comprador.

A segunda história, mais discreta, ou menos salientada fora do círculo dos conhecedores, é a da possibilidade da valorização extraordinária de uma escultura, "O Busto do Salvador", dos mestres italianos Pietro e Gian Lorenzo Bernini, pai e filho, que pode vir a atingir num dos grandes leilões de Novembro, promovidos pela Sotheby's e pela Christie's, em Londres e Nova Iorque, perto de 10 milhões de euros, quando o valor da última licitação vencedora, em 2011, foi de pouco mais de 100 mil euros.

Para o mundo global da arte, que inclui coleccionadores, investidores, curadores, críticos, galeristas e "dealers", entre outros árduos interessados, a emoção cunhada nas duas histórias referidas está, à primeira vista, relacionada com a importância eterna dos "Mestres Antigos", mas também, e muito mais, com o cada vez menos esotérico tema da autenticação.

Em relação ao primeiro factor emocional, a manutenção no topo da valorização da arte dos "Mestres", geralmente todos aqueles que produziram desenho, pintura e escultura antes de 1800, é provocada pela escassez da oferta, claro, mas também pelo terno motivo do estatuto, seja este o de um museu ou de um particular. Ou seja, sem um "Mestre" na parede, a colecção nunca é maior, continua a ditar a lei invisível do mercado.

Já a questão da autenticação, aparentemente menos valorizada, é cada vez mais decisiva. O que, precisamente, está a agitar o mercado em relação à peça dos Bernini é a intervenção do académico-galerista Andrew Butterfield, um dos grandes especialistas mundiais em "Mestres Antigos", que apresentou documentação indicando que "O Busto do Salvador" foi esculpido pelo pai Pietro, mas também pelo filho Gian Lorenzo, do qual se conhece muito menos, e do qual existem muito menos obras disponíveis. Daí, claro, a possibilidade do extraordinário salto de valorização do "Busto" no leilão que se aproxima.

O que apaixona, então, o mundo global da arte é o enorme poder daqueles com conhecimento e estatuto para procederem à autenticação de uma peça, que, muitas vezes, tem um valor de mercado estabelecido que pode não ser o mais correcto, pecando por escassez, ou por sobrevalorização. O papel do autenticador, notam os peritos, está muito ligado ainda, no imaginário comum, ao desfazer das falsificações, feitas e lançadas no mercado, mas é cada vez mais importante na redefinição do valor.

O que está em causa é que, perante a escassez de factos, isto é, de documentação, o que é especialmente sentido no período dos "Mestres Antigos", o saber do autenticador torna-se imperial, determina o valor, torna-se, por sua vez, no facto aceite pelo mercado. É realmente um poder tremendo.

Notáveis desconhecidos Acantonados entre a academia e a consultadoria mais ou menos velada aos agentes da oferta, os "autenticadores" portugueses continuam a ser um mistério. Da pintura à cerâmica, passando pelo mobiliário ou pelo design, os nossos autenticadores não estão num directório, não estão unidos numa entidade de classe, não publicam informação de referência. Obviamente, neste contexto, todo o investimento é um risco.

*Nota ao leitor: Os bens culturais, também classificados como bens de paixão, deixaram de ser um investimento de elite, e a designação inclui hoje uma panóplia gigantesca de temas, que vão dos mais tradicionais, como a arte ou os automóveis clássicos, a outros totalmente contemporâneos, como são os têxteis, o mobiliário de design ou a moda. Ao mesmo tempo, os bens culturais são activos acessíveis e disputados em mercados globais extremamente competitivos. Semanalmente, o Negócios irá revelar algumas das histórias fascinantes relacionadas com estes mercados, partilhando assim, de forma independente, a informação mais preciosa.  





A sua opinião0
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
pub
pub
pub
pub