Weekend Allô, allô Portugal!

Allô, allô Portugal!

Nos últimos anos, houve um aumento significativo do número de franceses a residir em Portugal. Primeiro, fixaram-se em Lisboa, no Porto e no Algarve. Agora começam a formar-se pequenas comunidades noutros pontos do país. Fomos conhecer alguns na região de Setúbal.
Allô, allô Portugal!
Miguel Baltazar
Hoje é quinta-feira, dia de aula de português para franceses, na Alliance Française de Setúbal. E nunca foram tantos naquela cidade a querer aprender a língua. A média era de um aluno por ano. Agora há 10 pessoas a receber lições e está a ser preparada outra turma de nove. Um crescimento considerável, tendo em conta que, em 2014, eram cinco alunos e em 2015 sete. São sobretudo reformados mas também começam a aparecer casais novos. "Assim que chegam, vêm ter connosco. É um ponto de apoio", diz Stéphanie Pardete, directora desta associação cultural francesa. A Alliance Française é, por isso, uma espécie de barómetro. Stéphanie diz que se está a formar uma "pequena comunidade" na região. Só no mês de Setembro ganharam 14 novos sócios. Entramos na sala de aula onde nos espera um grupo de alunos e ex-alunos. A maioria está na reforma. Muitos chegaram este Verão. As histórias de vida são diferentes, mas o que os trouxe é comum - querem sol, qualidade de vida e, sobretudo, tranquilidade.

Michelle Feunteun-Ligozat era jurista em Paris antes de se reformar. Viveu uma experiência traumatizante. Num assalto, foi agredida com uma arma branca, que a deixou gravemente ferida. "Estive à beira da morte", conta. Foi sobretudo a insegurança que a fez sair do seu país. Vendeu tudo o que tinha e fez as malas. "Em Portugal, tenho a sensação de ter encontrado a qualidade de vida que tinha em França nos anos 1950", afirma. Escolheu Portugal porque o filho já tinha uma casa neste país. Michelle comprou uma moradia num condomínio privado em Palmela. É vizinha de Jean Pierre Geoffroy, que chegou há cinco dias. Um reformado de fresco que morava na região de Auvergne, onde tinha um cargo político no Conselho Regional. Jean Pierre lamenta o clima que se vive em França actualmente. "Vim à procura dos valores que se perderam em França", afirma. "Perderam-se, essencialmente, os valores da cultura. Em França, temos comunidades que vivem lado a lado mas que não se misturam".

Nathalie Catita, de 48 anos, confirma. "A vida está muito diferente em França." Esta costureira de ascendência argelina é casada com um português. "Sou francesa a 100%, mas não renego as minhas origens. Os meus pais educaram-me a respeitar os outros. Mas as pessoas que não me conhecem põem-me numa categoria." Também ela chegou recentemente a Portugal. A primeira vez que visitou o país foi nas férias do Verão, há dois anos. "Gostei muito", diz. Tinha um ateliê de costura e o marido uma empresa de remodelações. Agora pretendem abrir um negócio na área do turismo de habitação em Setúbal. Nathalie Aguas-Coelho também é casada com um português. O casal decidiu viver entre França e Portugal. Ele era director de uma empresa e ela de uma agência de viagens, mas ficou doente e agora vivem, sobretudo, com a reforma do marido. "Prefiro viver aqui porque gosto muito da cultura portuguesa, do ambiente e do estilo de vida".

À procura do sol

"Tinha como projecto de vida passar a reforma num país da Europa à beira-mar e com sol", diz Carole K., uma recém-reformada, que vivia em Toulouse. Primeiro, experimentou Espanha, mas não gostou. Em Julho, mudou-se para Portugal. Já cá tinha estado há muitos anos "quando ainda era jovem". Alugou casa em Setúbal. A decisão foi tomada em Fevereiro durante uma "tour" que fez pelo país com amigos. "Os benefícios fiscais são um extra, mas não foi isso que me fez vir. Tenho uma pequena reforma. É, sobretudo, a qualidade de vida".

As aulas de português, na Alliance Française de Setúbal, nunca tiveram tantos alunos. Há 10 franceses a receber lições e está a ser preparada outra turma.
As aulas de português, na Alliance Française de Setúbal, nunca tiveram tantos alunos. Há 10 franceses a receber lições e está a ser preparada outra turma.
Miguel Baltazar
A relação dos reformados franceses com Portugal começa normalmente com umas férias. No primeiro semestre do ano, a França entrou para o "top 3" dos países que mais nos visitam, ficando apenas atrás do Reino Unido e da Espanha. A secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, revelou recentemente que "este ano, o mercado francês está a crescer cerca de 30% na compra de imóveis em Portugal e tem um papel muito importante, nomeadamente na reabilitação do imobiliário e dos centros históricos". Mas nem todos compram logo casa. Alguns alugam primeiro para, com tempo, decidirem onde querem realmente morar. Françoise é um desses casos. Era agente imobiliária em Toulouse antes de se reformar. Já tinha visitado Portugal em férias e encontrou um "país muito acolhedor" com "pessoas muito amáveis". O que a fez vir foi o "estado de espírito completamente degradado" em França. "Vivo no centro de Toulouse desde criança e já não reconheço a cidade".

O mais velho do grupo, Jean Claude Puissant, admite que foram os benefícios fiscais para residentes não habituais que pesaram na decisão. Com oitenta anos, já tem uma longa relação com Portugal. É o único que fala português. Nos anos 1960, passou pelas ex-colónias portuguesas em África - Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Trabalhava numa empresa francesa que fazia estudos para fábricas de produtos engarrafados. A opção de alugar um apartamento em Setúbal deveu-se ao facto de ter amigos portugueses na cidade. Vive seis meses em Portugal e seis meses em França. "Tenho propriedades vitivinícolas perto de Avignon", explica.

Uma comunidade em crescimento

Estes são alguns dos cerca de 25 mil franceses que vivem actualmente em Portugal.O número é avançado pela Câmara de Comércio e Indústria Franco-Portuguesa (CCIFP) e vai crescer, "de certeza absoluta", garante o presidente Carlos Vinhas Pereira. A estimativa é que, no final do ano, sejam mais de 30 mil. A suportar esta previsão, estão os muitos contactos e negócios imobiliários que foram estabelecidos este ano do Salão do Imobiliário e Turismo Português de Paris, que decorreu em Maio. E ainda os "road-shows" em três cidades francesas: Lyon, Lille e Nantes. "Muita gente vinha mesmo para se sentar. Não era por curiosidade." Vários visitantes saíram já com encontros marcados em Portugal com agentes imobiliários para ver "in loco" as regiões que escolheram para viver. Ao mesmo tempo, explica, informaram-se junto dos técnicos da CCIFP sobre as questões jurídicas e fiscais. A procura incide sobretudo em Lisboa (nos bairros de Alfama, Graça, Príncipe Real, Chiado e Castelo), Cascais, Porto e Algarve, mas também se instalam noutras zonas do país.

O interesse dos franceses por Portugal despertou com a Primavera Árabe. "Eles estavam a comprar muitas casas na Tunísia e em Marrocos", diz Carlos Vinhas Pereira, mas com os acontecimentos no Magrebe era certo que deixariam de procurar esses países. Abriu-se uma janela de oportunidade para Portugal. "Tivemos a ideia de trazer cá a oferta imobiliária e, ao mesmo tempo, levar os franceses a conhecerem o país", explica o presidente da CCIFP. Foi assim que, em 2012, surgiu a primeira edição do salão, na capital francesa. Os benefícios fiscais tiveram um papel fundamental na captação destes clientes. O regime fiscal dos residentes não habituais foi publicado em 2009, mas só em 2012 se resolveram as questões burocráticas que estavam a "emperrar" o processo. Foi já em Janeiro de 2013 que o diploma entrou plenamente em vigor.

Nadia e Loïc chegaram há dois meses. Têm duas filhas, de dois e cinco anos, e moram na Quinta do Anjo (Palmela). Vão abrir negócios em Portugal.
Nadia e Loïc chegaram há dois meses. Têm duas filhas, de dois e cinco anos, e moram na Quinta do Anjo (Palmela). Vão abrir negócios em Portugal.
Miguel Baltazar
O estatuto atribui isenção de IRS durante 10 anos aos reformados estrangeiros do sector privado oriundos de países da União Europeia, desde que residam em Portugal mais de 183 dias por ano e não tenham residência fiscal em Portugal nos últimos cinco anos. Os profissionais de alto valor (como, por exemplo, arquitectos, engenheiros, advogados ou médicos), que venham trabalhar para Portugal também beneficiam de uma taxa fixa de IRS de 20% sobre os rendimentos auferidos no país durante uma década. Se os rendimentos tiverem origem estrangeira, ficam isentos de IRS ou beneficiam de taxa reduzida. Os números do Ministério das Finanças mostram que, em 2014, foram recebidos 837 pedidos de cidadãos franceses para obter esse estatuto fiscal e, em 2015, entraram 807 pedidos. Os dados deste ano ainda não estão disponíveis.

Os benefícios fiscais foram o "empurrão" que faltava para convencer muitos reformados franceses a escolherem Portugal para viver, diz Carlos Vinhas Pereira. "Em França, com uma pequena reforma, não se vive bem. O custo de vida está tão elevado que, indo para Portugal, estas pessoas podem comprar casas ou apartamentos espaçosos, mais bem situados e, sobretudo, o seu poder de compra aumenta entre 20% e 25%". O fenómeno ganhou uma proporção tão grande que a imprensa francesa fez inúmeras reportagens sobre Portugal. O Le Monde descreveu o país como "o novo Eldorado para os aposentados europeus" e o Le Figaro como a "Flórida da Europa".

Laurent, o construtor

Laurent Maugé já vendeu duas casas a franceses no centro histórico de Setúbal. "Não são ricos. São pessoas com pensões baixas mas que vendem os seus T1 em Paris e, com esse dinheiro, compram uma casa aqui", explica o construtor civil francês. Laurent chegou com a família à cidade do Sado há seis anos. Começou por investir no turismo. "Temos um moinho e um apartamento [perto do Forte de São Filipe] e a minha mulher fez um alojamento local". Só há pouco mais de um ano abriu uma empresa de construção civil, com um sócio português. Investiu muito no centro histórico da cidade. Um processo "difícil" porque a reabilitação é mais cara e mais burocrática, mas "é fácil vender". Interessados não faltam. "Há muitos franceses que querem morar num lugar típico, com calçada", diz. E Setúbal tem os seus trunfos. "Está a 45 minutos de Lisboa, tem mar e é mais barato". A maioria dos seus clientes franceses são reformados e normalmente "vêm por causa dos impostos", diz.

Laurent Maugé é construtor civil. Está a investir no centro histórico de Setúbal. Já vendeu duas casas a franceses.
Laurent Maugé é construtor civil. Está a investir no centro histórico de Setúbal. Já vendeu duas casas a franceses.
Miguel Baltazar
O relatório Marketbeat Portugal Outono 2016 da Cushman&Wakefield, sobre o primeiro semestre, revela que 27% dos investimentos imobiliários em Portugal foram feitos por franceses. São eles os segundos maiores investidores no segmento "prime", pesando 7% nas compras desde 2014. "Os franceses gostam muito de casas com charme. Procuram prédios antigos, recuperados, com pés direitos altos, tectos trabalhados e fachadas bonitas", afirma Miguel Lacerda, director do escritório de Lisboa da Porta da Frente, uma agência imobiliária que trabalha o mercado de topo em Lisboa e Cascais. Fixam-se sobretudo nas zonas históricas da capital, como a Avenida da Liberdade, Chiado, Baixa e Santa Catarina. Em 2015, a empresa vendeu 11 imóveis a franceses e, este ano, o "número está a crescer ligeiramente". Em média, o valor de cada transacção está entre os 800 mil euros e 1 milhão de euros. "Neste momento, tenho à volta de cinco clientes que estão a analisar a compra de forma mais séria", diz aquele responsável. A Porta a Porta também esteve no Salão de Paris com um expositor. "Trouxemos 50 contactos firmes que estamos a tentar converter em negócio", revela. A procura entre reformados e pessoas no activo é equilibrada. Continuam a ser os benefícios fiscais que mais atraem estes clientes de luxo. "Os impostos em França tiveram um aumento muito grande", explica. As pessoas com rendimentos mais altos têm uma taxa de 75% sobre o rendimento anual acima de 1 milhão de euros. "Aqui, o máximo é 20%". Ao virem para Portugal, "beneficiam muito". Este negócio passa muito pelo "passa palavra", explica. "São os que já vivem em Portugal que muitas vezes convencem amigos e familiares a fazerem o mesmo.

Investir em Portugal

Sophie Lança vive em Portugal há 12 anos e é casada com um português. Abriu, no início do ano, uma empresa para acompanhar empresários franceses que se querem estabelecer em Portugal. A sua empresa, a New Destinations, presta serviços tão diferentes como realizar estudos de mercado, visitas de prospecção, ajudar na burocracia ou encontrar casa para a família e escola para as crianças. "Neste momento, estou a acompanhar investidores no Alentejo que estão muito interessados em vinhas e olivais", diz. Mas também há casais novos que querem montar start-ups. "Para as pessoas de mais idade, a fiscalidade é claramente aquilo que as faz vir. A isenção de impostos e a segurança estão quase ao mesmo nível. Para os mais novos, é a qualidade de vida e um ambiente seguro para criar uma família", afirma a empresária.

A Alliance Française de Setúbal é um ponto de apoio para os franceses que chegam à cidade sadina.
A Alliance Française de Setúbal é um ponto de apoio para os franceses que chegam à cidade sadina.
Miguel Baltazar
Nadia (30 anos) e Loïc (35 anos) encaixam neste perfil. O casal de empresários veio a Lisboa há três anos passar um fim-de-semana e decidiu mudar-se para cá. Só faltava escolher o lugar para morar. Vieram várias vezes visitar diferentes locais e chegaram definitivamente há dois meses. Alugaram uma casa na Quinta do Anjo, uma freguesia do concelho de Palmela. "Queríamos viver numa moradia", explicam. Decidiram vir sobretudo por causa da insegurança em França. As pessoas vivem num clima de medo, dizem. O casal traça um quadro negro do país, onde o racismo ganha força. Nadia é de origem marroquina mas diz que nunca teve problemas. Ainda assim, sentia o "ambiente pesado". "Há muitos roubos, 'carjacking'", descreve. Ao pé de tudo isso, "o terrorismo é uma coisa pequena", considera Luïc. Dizem que a grave situação do país não está a passar cá para fora. "Os media não falam nisso". Têm duas filhas pequenas. Queriam que crescessem num ambiente tranquilo.

Outro motivo que os fez partir foi a forte carga fiscal sobre as empresas. Agora estão a investir em Portugal, mas não revelam os seus projectos. Esperam "misturar-se" com os portugueses. Não querem viver à parte. "Se vivemos aqui, somos portugueses", diz Loïc. "Vamos falar português", garante. Ficaram surpreendidos com a forma como foram recebidos. "Quando dizemos que somos franceses e que estamos a viver cá, as pessoas ficam contentes", conta Nadia. E do que mais sentem falta? Dos amigos. "Mas vamos fazer novos cá", dizem com um sorriso.





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mais votado Anónimo Há 3 semanas


Peeensionista da CGA

És proprietário da parte da pensão que corresponde aos descontos efetuados!

O resto, mais de metade, é uma esmola que os trabalhadores e os contribuintes portugueses te dão, 14 meses por ano.

comentários mais recentes
3 Metros sobre el Cielo Há 3 semanas

Ao menos estes, ao contrário dos ingleses, ainda se esforçam para aprender a língua.

Carla Almeida Há 3 semanas

Poder ver ao vivo a taça de campeões europeus de futebol

José Carlos de Oliveira Há 3 semanas

Não pagam impostos...

Johnny Nox Há 3 semanas

Ao contrário dos muçus, estes não vem conquistar e impôr o seu modo de vida.

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