Weekend Onésimo Teotónio Almeida: Nunca vi Portugal tantas vezes referido, nem tão positivamente como hoje

Onésimo Teotónio Almeida: Nunca vi Portugal tantas vezes referido, nem tão positivamente como hoje

Vive nos EUA há 45 anos. Chegou lá jovem para estudar Filosofia e fez carreira na academia. Onésimo Teotónio Almeida é professor na Universidade de Brown mas vem a Portugal com frequência, como orador em palestras e conferências. No avião, vai conversando com os americanos que descobriram agora Portugal.
Onésimo Teotónio Almeida: Nunca vi Portugal tantas vezes referido, nem tão positivamente como hoje
Miguel Baltazar
Onésimo Teotónio Almeida está a viver nos EUA há 45 anos. O escritor chegou lá jovem para estudar Filosofia e fez carreira na academia. É professor na selectiva Universidade de Brown, onde fundou o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros. Este ano, lançou o livro "A Obsessão da Portugalidade", onde fala sobre a identidade nacional. Está longe, mas observa de perto o que se passa por cá. Vem ao país com frequência, como orador em palestras e conferências. No avião, vai conversando com os americanos que descobriram agora Portugal e mostram-se rendidos.


Passou um ano desde que Trump ganhou as eleições. O que mudou desde então nos Estados Unidos?

Primeiro, foi a euforia entre os conservadores, com os democratas completamente apanhados de surpresa. Mas esperava-se que Trump, após a eleição, assumisse uma atitude presidencial. Na América, os três poderes [legislativo, judicial e executivo] são muito controlados uns pelos outros e o Presidente faz sempre muitas promessas durante a campanha eleitoral, contudo acaba por não poder cumprir boa parte delas, pois tem de negociar se quiser conseguir apoios. Pensei que ele iria comportar-se como um estadista e recuar em muitas das suas políticas, por ter de negociar dentro do seu próprio partido, além de ter de fazê-lo com os democratas. A surpresa foi ele continuar a comportar-se como antes de ser eleito.

 

Como um empresário e não como um Presidente?

A fazer campanha eleitoral e não como Presidente. E pensando que é o CEO de uma grande empresa chamada EUA. Trump ganhou as eleições convencido de que foi graças ao seu superior instinto. E o seu instinto dizia-lhe que não devia prestar atenção nem a conselheiros, nem a ninguém. Pensa que entende tudo melhor do que todos. E a prova é que ganhou. Ele não larga o Twitter porque o mantém ligado ao seu grupo fiel. Não quer saber dos outros, só de quem o elegeu.

 

Em Portugal, a esquerda comporta-se mais à direita do que muitos liberais americanos. 

 

E fez-se rodear de empresários.

Ele dizia que iria "secar o pântano". A ideia era: o governo estava pejado de burocratas e de gente ligada a Wall Street e ele iria fazer uma limpeza. Na campanha eleitoral, usou uma estratégia à George Bush: pequenos slogans, muito curtos, que "colam". Só que o Bush depois, quando chegou à Casa Branca, portou-se como um Chefe de Estado. Sabia que não era um indivíduo brilhante, rodeou­-se de gente e portava-se relativamente à altura. Se não fosse a enorme estupidez da guerra do Iraque, ele ter-se-ia safado. Ao passo que este, não. Continuou a disparatar e a dizer o que lhe apetecia às tantas da manhã. E rodeou-se sempre de "yes men". Mas  foi perdendo apoiantes. Nos EUA, existe de facto uma direita e uma esquerda, só que denominadas conservadora e liberal. Muitas pessoas aqui pensam que não. Costumo dizer que na Europa, e sobretudo em Portugal, o léxico é muito de esquerda, mas é uma questão de vocabulário. Em Portugal, a esquerda comporta-se mais à direita do que muitos liberais americanos. As pessoas repetem slogans e acabam acreditando que são de esquerda, todavia, no seu comportamento, não são. Há um desfasamento entre linguagem e prática.

 

O que está a dizer é que, na prática, há pouca diversidade política em Portugal?

Creio que sim. Em Portugal era costume ouvir-se dizer que, ao contrário da Europa, não existia esquerda nem direita nos EUA, pois eram todos capitalistas. Essa ideia ainda persiste. No entanto, há diferenças enormes entre esquerda e direita nos EUA. E ambos os lados têm uma forte intervenção política.


 

E há uma extrema-esquerda nos EUA?

Sim, mas não tem força. Agora temos alguém que não é extrema-esquerda, mas um tanto mais à esquerda, que é Bernie Sanders. Ele captou a franja de eleitores apoiantes de Obama e os que defendem todas as causas extremas. Mas essa esquerda não tem nada que ver com a de cá, dos tempos pós-25 de Abril, dos maoistas, por exemplo. É uma esquerda que se agarra a causas de vanguarda específicas, desde os temas "verdes" até aos direitos dos transgénero, e engloba causas que hoje entraram já no "mainstream", como o casamento dos homossexuais. Há causas para todos os gostos e que vão em todas as direcções, num espectro de 360 graus, como num círculo. Não fica claro se [algumas causas] são de esquerda ou de direita. Há o pró-aborto e o anti-aborto, a pró-legalização da marijuana e o antimarijuana, o pró-armas e contra as armas. Seria melhor falarmos nos partidos republicano e democrata como em dois círculos que, em parte, se sobrepõem numa zona difusa, indecisa. Essa franja de uns 5% do eleitorado pode ser captada por um ou outro dos centros de gravidade, conforme as circunstâncias.

 

Mas está assumido nos EUA que o poder vai sempre alternar entre estes dois pólos políticos?

Sim. Não vejo nenhuma outra hipótese. Agora, os dois círculos tentam captar as suas franjas e tanto conseguem como largam. Elas flutuam ora para um, ora para outro. Desta vez, essa pequena franja caiu para o lado de Trump. Tive um aluno que foi assistente de Al Gore na Casa Branca e um dia convidei-o a vir à minha aula falar sobre a sua experiência. Para ele, o Presidente não é mais do que um gestor de pressões. Recebe-as de todos os lados. Um bom exemplo de um bom gestor de pressões foi Clinton, que era um contorcionista. Inclinava-se mais para a esquerda, mais para a direita, mais para trás, mais para a frente, conforme a pressão. Quem não exerce pressão sobre o poder é como se não existisse.

 

Os EUA funcionam muito na base do lóbi?

Sim. Hoje generalizou-se o nome genérico de lóbis aplicado a tudo. As pressões vêm dos lóbis, mas vêm também de todos os grupos que, mesmo individualmente, actuam junto dos seus políticos locais. Como nos EUA o poder é muito local, as pessoas sabem como é que o político que elegeram vota, e estão constantemente a controlá-lo. Fazem pressão, escrevem e telefonam aos políticos. Exigem que o seu ou a sua representante os ouça  e intervenha. Cada um, à sua escala, desde o regional ao nacional, vai dando mais atenção às causas em favor das quais há maior pressão, fazendo-as sentir dentro dos canais do partido até chegarem ao topo, em Washington.

 

Portanto, os cidadãos têm de facto poder para intervir na vida política.

Têm poder e intervêm. O lóbi é um termo técnico para as pessoas que são pagas para actuar em Washington, nos circuitos políticos, a tentar influenciar, usando todos os truques permitidos legalmente. Às vezes, descaradamente, outras através de um convite para aqui ou para acolá, ligações por amizade, contactos, colegas de universidade. É gente paga para o efeito. Mas existe uma grande quantidade de pessoas que está constantemente a telefonar, a escrever. Há sempre campanhas: "Escreva ao seu senador." As pressões começam a nível local. As maiores pressões acabam recebendo atenção no topo. Os políticos são sensíveis à pressão porque as eleições dos congressistas ocorrem de dois em dois anos e, para os senadores, de seis em seis anos. Muitas vezes, essas pressões são de gente que não tem muito dinheiro, mas é persistente na sua intervenção política e consegue enfrentar o lado do dinheiro, dos lóbis. Portanto, um bom político é aquele que consegue gerir todas essas pressões num ambiente democrático e de "fairness", para evitar conflitos piores, violentos. Ora, o que Trump tem estado a fazer não é nada disso.

 

É tradição portuguesa não se pensar 'à la longue', mas no imediato. 'Isto está a dar é agora, depois a gente não sabe'. Isso pode ser fatal.

 

Como é que avalia a recente decisão anunciada por Trump de transferir a Embaixada dos EUA em Israel para Jerusalém? Que impacto é que teve na opinião pública norte-americana?

Têm sido tantas as desastrosas tomadas de posição de Trump que essa surgiu apenas como mais uma. O facto de tanto o Vaticano como as Nações Unidas se terem pronunciado contra [a decisão] não o ajuda, mas creio que as opiniões do eleitorado estavam tomadas antes de virem a público essas posições. A popularidade do Presidente mantém-se baixíssima, segundo as sondagens.

 

Do seu ponto de vista, qual é o maior perigo que Trump representa?

No outro dia, alguém citado no The New York Times dizia que a Casa Branca é neste momento uma espécie de creche em que há um montão de adultos a tomar conta de uma criança. O que neste momento está a acontecer é que o general John Kelly [chefe de gabinete do Presidente dos EUA] conseguiu impor alguma ordem na Casa Branca servindo-se do seu treino no exército. Todavia, não lhe foi possível controlar Trump a ponto de o impedir de usar o Twitter. Aliás, actualmente, há algo de estranho a acontecer. Os Estados Unidos estão a ser governados por uma família e por um grupo de militares. Isso, para um país cujo governo era o supra-sumo de uma estrutura civil… Na América Latina é que havia generais na presidência. Por outro lado, até é bom que agora estejam generais na Casa Branca porque um homem que age impulsivamente, como Trump, pode cometer uma enormidade. Esse é o perigo.

 

A questão da Coreia do Norte ainda é a mais preocupante?

Sim. Parece que o Presidente tem poder absoluto; tem autorização para intervir sozinho num contexto de guerra nuclear. Por uma razão muito simples, que é o chamado "preemptive attack", ou ataque de antecipação. Se ele, informado pelos serviços secretos, souber que um país vai disparar mísseis, está autorizado a antecipar­-se-lhe. Para declarar guerra, o Presidente tem de pedir autorização ao Congresso, mas face a um ataque nuclear tal não é necessário. Porque não dá tempo. A intervenção tem de ser imediata. E é assustador pensar que Trump pode tomar essa decisão.

 

Houve uma série de fantasmas destapados com esta administração. Nomeadamente, questões de xenofobia, racismo, que pareciam estar um pouco mais adormecidas na administração Obama e passaram a estar na ordem do dia.

Na América, sempre houve uma grande tradição de liberdade, que vem de há muito tempo, da matriz inglesa. A primeira emenda da Constituição é sobre a liberdade de expressão. Então, as pessoas sentem-se senhoras desse direito e exercem­-no. Não há filtros. Ouve-se e diz-se tudo. Durante o tempo da administração Obama, muito do racismo foi subjugado, não havia espaço público para tal. Apesar de continuar a existir. Agora não. Esse grupo que apoia Trump expressa as mais horrorosas ideias na comunicação social. Por um lado, até é um bom escape porque sai tudo cá para fora e fica-se em palavras, em debates. O problema é quando o exercício dessa profunda tradição age como instigadora de violência. Felizmente, as tensões sociais têm-se mantido relativamente dentro das práticas democráticas.

 

Mas houve o episódio violento de Charlottesville.

Sim. E aí Trump não tomou posição. Ele não tem tomado posição contra o seu grupo de apoiantes que, por sinal, continua a diminuir. Ele ronda os 30% de popularidade nacional. Mas continua agarrado à sua base, porque esta continua firme e Trump não vai dizer nada para antagonizá-la.

 

Alguém dizia no The New York Times que a Casa Branca é uma espécie de creche em que há um montão de adultos a tomar conta de uma criança. 

 

Se Trump voltar a concorrer, não será reeleito?

Não creio. Tenho conversado com pessoas que votaram nele e agora apercebem-se do seu erro. A mim, a sua ausência de comportamento ético repugna-me. Ele não tem o menor interesse pela verdade. Inventa factos e acusa a destempero para desviar as atenções das acusações que lhe fazem.

 

São as tais "fake news"?

Sim. Se os Presidentes nunca foram famosos por dizerem a verdade, este caso atinge proporções nunca vistas. Por isso, ele não tem conseguido segurar a franja do eleitorado que atraiu nas eleições. O Partido Democrata tinha-a perdido por se ter tornado demasiado liberal para essa franja, sobretudo em matéria sexual. Isso fez com que muita gente, que era a base forte do Partido Democrata, como por exemplo os católicos, se voltasse para o Partido Republicano. Na verdade, hoje muitos católicos, tradicionalmente um grupo democrata, votam nos republicanos porque estes lhes aparecem como os defensores da moral tradicional, dos valores da família (mesmo que não os cumpram). A questão da homossexualidade, todas as questões de género, o aborto, etc., são pontos críticos. Por isso, essa franja foi perdida. Mas Trump ganhou também uma outra franja ao prometer uma política económica proteccionista que traria de volta os empregos perdidos para o estrangeiro. Ora, a economia mudou completamente e é hoje global. Ele prometeu o impossível e não está a cumprir as promessas feitas à classe média e média-baixa, o colarinho azul. A sua grande vitória foi na redução de impostos, mas essa redução só vai beneficiá-lo a ele próprio e ao "pântano" que queria secar.

 


Concretamente, o que é que lhe agrada nas universidades americanas?

Primeiro, os recursos de que dispõem. Depois, a abordagem do ensino: é muito democrático. O aluno é respeitado como uma pessoa inteligente que quer aprender. Não vai decorar um catecismo para depois repetir no exame. O professor orienta, abre os horizontes do aluno. Há uma grande consciência de que o aluno precisa de crescer por si, a partir de dentro, e desenvolver­-se. Não se trata de andar a copiar o modelo do professor para depois o replicar.

 

Que avaliação faz neste momento das universidades portuguesas?

Não me é fácil falar porque estou ligado a muitas universidades portuguesas e corro o risco de generalizar e simplificar, insultando injustamente. Mas posso referir que uma coisa é o que as pessoas admitem em privado e outra o que defendem em público.

 

Ou seja, o que me está dizer é que tem muitas críticas a fazer.

Tenho. Mas muitas das críticas resultam da falta de recursos que as universidades portuguesas têm. Nos EUA, muitas universidades são privadas e têm vastos recursos. Devo, no entanto, acrescentar que as universidades portuguesas de hoje têm a geri-las gente com uma mentalidade completamente diferente da daquele tempo. É uma nova geração. Sou amigo de alguns reitores de universidades portuguesas e reconheço a sua qualidade. Pena terem de consumir o seu tempo inventando maneiras de equilibrar os orçamentos.

 

Mas considera que já existe a preocupação de "colocar os alunos a pensar"?

Há facetas que são endémicas. Muitos dos professores foram formados na universidade onde leccionam. Herdaram hábitos e estão a transmiti-los aos alunos. Nas universidades americanas, em regra, uma pessoa não fica a leccionar na universidade onde se formou. Quando termina o doutoramento, tem de ir leccionar  noutro lugar, para se libertar do "complexo do pai" e sentir-se livre de expressar divergências em relação aos seus formadores. Há um grande arejamento. Ao longo das décadas, tenho acolhido na Universidade de Brown dezenas de universitários portugueses que vão em licença sabática ou como bolseiros, para fazerem investigação de toda a ordem, e até mesmo para ensinar. As suas impressões confirmam as minhas. Ao voltarem a Portugal, têm tentado algumas alterações no sistema. Só que não é fácil. E grande parte deles acaba acomodando-se.

 

A questão da hierarquia é mais atenuada aqui ou nos EUA?

Lá, a relação é bem mais horizontal. Não é que não haja hierarquia, mas encaixa numa atitude completamente diferente. A começar por algo simples. A rapaziada nova, no primeiro ano, pergunta: "Como é que o senhor quer que eu o trate?" E eu, que não sou nenhuma excepção, costumo dizer: "Olha, desde que eu saiba que estás a falar comigo, podes tratar-me como quiseres. Podes chamar-me Onésimo." E muitos fazem-no. Nunca um aluno me faltou ao respeito. Um ou outro chama-me "Mister Almeida", outros tratam-me por "Professor". Hoje, o mais normal é o uso do primeiro nome. E, no entanto, na aula sou o professor. Uma coisa é a autoridade e o respeito pela pessoa que está a ministrar, a gerir o conhecimento, outra o facto de ele ser uma pessoa humana. O professor não tem autoridade para fazer afirmações factualmente erróneas. Se o professor falhou, qualquer aluno pode corrigi-lo. Se o professor não for capaz de admitir: "Tem razão" ou "Não sei, mas vou ver e logo te respondo por e-mail", esse professor fica diminuído perante os seus alunos.

 

Se os Presidentes nunca foram famosos por dizerem a verdade, Trump atinge proporções nunca vistas. 

 

Mas já se sentiu desconfortável por ser chamado à atenção por um aluno?

Não. Por exemplo, no outro dia eu estava a explicar que, tal como no inglês, em que Josephson significa "filho de Joseph", também em português Fernando Fernandes é Fernando filho de Fernando. O mesmo acontece noutras línguas. E dei exemplos, inclusive em italiano: Galileu Galilei… Um aluno interveio: "Desculpe, mas no caso de Galileu não foi essa a razão." E explicou-se. Eu agradeci. Mais tarde fui verificar e ele tinha razão. Mas na altura disse-lhe apenas: "Olhe, não sabia. Obrigado." Aprendi imenso a ensinar. Dizia­-se antigamente que no primeiro ano nós ensinamos mais do que sabemos; no segundo, ensinamos o que sabemos; e a partir daí começamos a ensinar menos do que sabemos. Quanto mais inteligentes os alunos são, mais inteligentes são as perguntas. E uma pergunta inteligente é a melhor coisa que um professor pode ter. Nunca pensou naquilo, no entanto, vai pensar. Quem tem um grupo de alunos muito dotados, e motivados e interessados, está sempre a aprender.

 

É o seu caso?

Sim. A minha universidade é uma das mais selectivas. Para a licenciatura, concorreram este ano 35 mil estudantes e só entraram 1500. Todos distintos nas suas escolas secundárias. Quando chegam ali, sentem-se humildes porque sabem que os colegas são todos muito bons. Vendo de fora e à distância, as pessoas pensam que quem está a estudar numa universidade como Brown ou Yale é automaticamente arrogante. Não. Os alunos pensam: estes que estão aqui são tão bons quanto eu. Não vou arriscar asneiras porque há sempre quem saiba muito mais do que eu sobre qualquer assunto. E também sabem que os professores estão preparados. Estou a falar de uma maneira geral, claro. Cria-se um ambiente muito aberto e de respeito pelos outros.

 

Diz que, em Portugal, temos um "feitio maníaco-depressivo". Que oscilamos entre estes estados de espírito. Em que fase estamos?

Neste momento, estamos numa fase com um duplo registo. Noto isso nos meses depois de Pedrógão Grande. Antes estávamos num registo de autêntica euforia, com o Governo de António Costa. A situação melhorou em áreas importantes, como a dívida nacional, a vinda dos turistas para Portugal, por exemplo. Agora há uma espécie de dissonância, como na música moderna. Por um lado, é a euforia, por outro lado, os incêndios, o lado pessimista português a reemergir. Se calhar, esta dissonância é que é o registo correcto porque as duas vertentes coexistem sempre.

 

Portugal também está "na berra" nos Estados Unidos?

Estou há 45 anos nos Estados Unidos e nunca vi Portugal tantas vezes referido, nem tão positivamente como hoje. Por todo o lado. Não sou nada de teorias da conspiração, mas chego a pensar assim: quem é que anda por trás a gerir isto? Lembro-me de que, no tempo do Cavaco Silva primeiro-ministro, houve uma bolsa de um milhão de dólares concedidos a um grupo de jovens americanos com a intenção de alterar a imagem de Portugal nos EUA. Pareceu-me um desperdício. Não creio que tenha resultado em algo palpável. Hoje em dia, o que é que está a acontecer? Nos últimos cinco anos, então, é deveras incrível. Lisboa é referida como uma das melhores cidades do mundo, o Porto idem. Ontem, viajei no avião com uma senhora de Chicago que vinha apenas por cinco dias. Dois dias para o Porto e três para Lisboa. Trazia um óptimo guia de Portugal com imensas sugestões práticas. Impecável. Isto era na TAP, que agora voa diariamente de Boston, lotada de estrangeiros. Chegam àquele "hub" levados pela JetBlue e vindos de todos os EUA. Chegados a Lisboa, seguem para a Europa, mas muitos passam uns dias cá, aproveitando o programa "Stop Over." Ouvi passageiros sentados atrás  de mim dizerem que vêm duas vezes por ano e a recomendarem vivamente Portugal a uma senhora que ia seguir sem sair em Lisboa. Isto nunca acontecia.


 

Na sua universidade, sabendo que é português, já foi abordado sobre o país mais recentemente?

Ninguém fazia caso de Portugal. Quando criámos o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, ninguém sabia nada sobre o nosso país, nem queria saber. A Europa era a Inglaterra, a França, a Itália, quanto muito Espanha. Portugal, nada. Agora não. Hoje há gente na minha universidade que tem casa nos Açores.

 

Sem qualquer ligação a Portugal? Não são descendentes de portugueses?

Não. Não têm ligação. E outros têm casa aqui [no continente]. E com facilidade dizem: vou a Portugal. Isto é recente, é novo. Tenho viajado nos aviões com estes americanos que vêm cá e regressam com uma belíssima impressão. Nada desiludidos, pelo contrário, muito entusiasmados. Gostaram tanto que querem voltar. Eu, durante muitos anos, disse: Portugal tem tanta coisa boa que os portugueses, como têm um lado pessimista, não vêem. É preciso estar de fora para perceber as coisas boas de Portugal, que são tantas e de graça! Desde o clima, o acesso às praias, a grande diversidade paisagística, a beleza dos centros históricos das cidades e das vilas da província. Sempre achei que Portugal tinha uma enorme riqueza a oferecer, mas eu era suspeito por ser português. Agora são os estrangeiros a verificar essa riqueza com base na sua própria experiência.

 

Toda esta fama que temos agora pode ser uma bolha?

Só posso falar do presente, mas receio que os preços continuem a aumentar e, então, o factor preço, que era um atractivo importante (além de tudo o mais), passe a deixar de ser acessível. Ontem viajei num táxi cujo motorista ficou desiludido quando soube que eu era português. Disse-me descaradamente que, se eu fosse estrangeiro, iria aproveitar-se. Estas coisas marcam. E pensa o mesmo quem está a arrendar casas. Há esse perigo. É tradição portuguesa não se pensar "à la longue", mas no imediato. "Isto está a dar é agora, depois a gente não sabe." Isso pode ser fatal se não houver controlo, se as situações não forem denunciadas e corrigidas.

 

Na América, sempre houve uma grande tradição de liberdade. Não há filtros. Ouve-se e diz-se tudo.  

 

Ganhou alunos nos seus cursos por causa desta boa fama que Portugal está a ter?

Não. O ensino do português subiu muito, em termos proporcionais, porém não em termos absolutos. Era uma das línguas que estava a crescer mais, por causa do Brasil. Com os Jogos Olímpicos e o Campeonato do Mundo de Futebol, houve um interesse muito grande. No entanto, o Brasil hoje está outra vez na "fossa" e o decréscimo da motivação foi grande. O ensino do português estava em incremento também por causa de África. Nas universidades americanas mais liberais, os jovens querem ter intervenção sociopolítica e pensam que isso lá será mais fácil, onde há tanto a fazer. Existe de facto um fascínio por África. Querem ajudar de algum modo esse continente tão vítima de colonialismo e, pior, da escravatura. Há uma grande preocupação com os efeitos do colonialismo. Não se olha para as loucuras bizarras de alguns ditadores africanos actuais. Tudo isso é considerado resultado tardio do passado colonial. Por isso, pensando nas oportunidades de emprego, vários dos alunos da pós-graduação escolhem fazer teses sobre África e não sobre Portugal. Portugal é um país velhinho, bom para se visitar, mas não necessariamente atractivo para investigação. Além de ser um país ideal para férias, é também um bom país para uma eventual aposentação.

 

Falando em aposentação. Fez agora 71 anos. Mas não gosta de falar sobre o tema.

Posso falar, mas para dizer que ainda não penso em aposentar-me. Costumo dizer que, se fosse para um café conversar com alguém sobre os temas que me apaixonam, ao fim de cinco minutos estaria tudo a dormir. Ir para uma aula e sentar-me à roda de uma mesa com seis ou oito alunos durante três horas é uma experiência extraordinária. Não saio cansado; saio exultante! Porque foi uma conversa dinâmica, viva. Muitas vezes saio a pensar: hoje vejo melhor as coisas do que via antes. Ora, se me aposentar, vou perder esse privilégio. Reconheço, contudo, que não posso esticar demasiado a corda porque o tempo é implacável. Não sei por quanto mais. Julgo que tenho sabido saborear a vida doseando o trabalho com o lazer. Não estou à espera da aposentação para gozar a vida. Sigo trabalhando, mas também vou intercalando bons momentos com a família, com os amigos e com a natureza, de que também sou grande fã. Nunca me canso de visitar lugares de que gosto. E nunca fico à espera do tempo ideal. Por isso mesmo, não tenho qualquer ânsia pela aposentação. 




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