Livros Os anjos franceses

Os anjos franceses

Quando a guerra de 1914-1918 se preparava para ser uma enorme mortandade, Anatole France escreveu um devastador livro sobre a sociedade francesa. Ainda actual.
Fernando Sobral 05 de agosto de 2017 às 09:15
Anatole France
A Revolta dos Anjos,
Cavalo de Ferro,
229 páginas, 2017


Estamos em 1914 quando Anatole France publica "A Revolta dos Anjos". É um ano determinante para a Europa: as armas estão preparadas para uma mortandade que durará quatro anos nas trincheiras. Onde está então o Bem e o Mal? Neste mundo sem sentido, os anjos que se revoltaram contra Deus desceram até Paris para preparar um golpe de Estado que colocará no trono celestial aquele que é muitas vezes designado como o Diabo, mas que é na realidade o símbolo do conhecimento libertador. As deambulações dos anjos pela França da Terceira República servem perfeitamente para uma crítica social sem contemplações. Lúcifer renunciará finalmente a destronar Deus porque percebe que, se se tornasse Ele, perderia a sua influência sobre o pensamento libertário.

Pelo meio encontramos uma biblioteca saqueada, que levará a que Maurício d'Esparvieu, herdeiro dessa família, fale com Arcádio, o seu anjo da guarda, que lhe diz que o vai abandonar. Outra tarefa mais importante o chama. Este já não acredita em Deus, depois de contínuas leituras. É ele que está por trás da tentativa de golpe de Estado contra Deus. Só que há um problema: Arcádio descobre os prazeres mortais nas suas viagens por Paris. Como pode então conciliar tudo isto? Tudo isto serve para Anatole France, influenciado pelos movimentos contestatários de inícios do século XX, desancar a Igreja e o Exército.

Anatole France vai contando tudo isso ao mesmo tempo que vai apresentado outras histórias que surgem em paralelo. Crítico contundente do catolicismo, coloca em causa a sua presença central no mundo da política francesa. No livro há, por isso, uma crítica à importância da religião no mundo político. Deus, aqui, é muitas vezes comparado a um ditador militar, disseminando as suas palavras na cabeça de cada homem e de cada anjo. O longo discurso de Nectário é fabuloso: "Vocês os dois sabem-no: os anjos, como os homens, sentem germinar em si o amor e o ódio. Por vezes capazes de tomar resoluções generosas, também muitas vezes obedecem ao interesse e cedem ao medo. Naqueles tempos, como hoje, mostravam-se na sua maior parte inacessíveis a altos pensamentos, e o temor do Senhor era toda a sua virtude. Lúcifer, que tinha grande desdém pelas coisas vis, desprezava essa turba de espíritos domésticos, atordoada em jogos e festas."

Neste belo "A Revolta dos Anjos", Anatole France fala da situação política da época, até porque o anjo Arcáfio acaba por falar da sua revolta como uma "revolução social", face àqueles que acham que França é um local de pensamentos conservadores, onde o que é importante é a estagnação intelectual e política para que tudo fique na mesma. Aqui há um apelo à cultura, ao sangue jovem da revolta, às artes e à filosofia. Como pano de fundo há o início da Grande Guerra, que tantas mudanças iria causar na sociedade francesa. A decisão de Lúcifer de não lutar pelo lugar de Deus, para não se tornar como ele, lembra os grandes debates da época sobre se os revolucionários deveriam entrar nos "governos burgueses" ou se se deveriam manter na oposição radical. Tudo isso torna este livro uma pérola.








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