Weekend Os anos de ouro da TV

Os anos de ouro da TV

A TV veio mudar a vida dos portugueses. Ninguém ficou indiferente à “caixinha mágica” quando, em 1956, começaram as primeiras emissões na Feira Popular. No livro “Quando a TV parava o país”, João Gobern faz marcha-atrás na história para falar dos anos dourados da televisão.
Os anos de ouro da TV
João Gobern, "Quando a TV parava o país", Matéria-Prima, 228 páginas, 2016
Filipa Lino 02 de dezembro de 2016 às 13:00
"Como passa, senhor Contente?
- Como está, senhor Feliz?
- Diga a gente, diga a gente, como vai este país…"

A rábula política que juntava Nicolau Breyner e Herman José, munidos de chapéu e bengala, ainda está viva na memória a preto e branco de muitos portugueses. Foi criada para o programa "Nicolau no País das Maravilhas" em 1975, altura em que Portugal fervilhava politicamente, logo depois da Revolução. A história da RTP cruza-se com a história do país e dos portugueses. Todos temos recordações ligadas à televisão. Criámos laços afectivos com as pessoas que nos "entravam pela casa adentro", sem nunca as termos visto ao vivo. É esta a magia da TV. João Gobern não escapou ao "feitiço". A televisão entra na vida deste jornalista em 1966, quando "ia a caminho dos seis anos", por dois motivos. Para o distrair na convalescença de uma hepatite que, durante meses, o obrigou a "reclusão e a repouso" e pelo desejo de ver o Campeonato do Mundo de Futebol, onde Portugal chegou à meia-final. Um jogo histórico que acabou com Eusébio em lágrimas, com a derrota contra a Inglaterra. É assim que o autor de "Quando a TV parava o país", explica, logo no prefácio, o início da sua relação com o pequeno ecrã. Esta "janela para o mundo", como lhe chama, acabou por ser, mais tarde, objecto de análise do jornalista.

João Gobern tornou-se crítico de televisão. Primeiro, no jornal Se7e e depois na Visão, na Focus e na TV Guia. Críticas que lhe valeram algumas "inimizades de longa duração", admite. Ao escrever este livro pretendeu fazer um "álbum de recordações", algo que "permitisse boas lembranças aos mais velhos e boas descobertas aos mais novos". Gobern escavou na "arqueologia" da televisão pública. Fala dos programas e das figuras que marcaram os anos de ouro da RTP. Quando, como o título diz, o país parava em frente do ecrã e as famílias estavam juntas na sala de estar. Uma raridade nos dias que correm.

Os programas e as caras

Entre os programas que ficaram marcados na memória dos portugueses, estão "A visita da Cornélia" (1977) cujos autores foram Raul Solnado e Fialho Gouveia. Mas o programa que "mudou por completo a face da TV em Portugal", considera Gobern, foi o "Zip-Zip" (1969), outro grande sucesso de audiência. O programa "reunia o trio maravilha" da televisão, escreve o autor - Raul Solnado, Carlos Cruz e Fialho Gouveia. Carlos Cruz, o "senhor Televisão", seria mais tarde (1984) o protagonista de um concurso que teve várias edições - o "1,2,3". Um formato importado pelo próprio apresentador de Espanha. Além da competição entre várias duplas de concorrentes, o programa incluía ainda momentos musicais e de humor. A personagem "Fininho", interpretado pelo actor Carlos Miguel, arrancou gargalhadas aos portugueses nesses serões.

Enquanto director de programas da RTP, Carlos Cruz foi responsável pela importação da novela brasileira "Gabriela" (1975), que fazia parar o país. "Sapato não, seu Nacib" foi a frase que ficou na memória dos portugueses, dita pela protagonista da história, "encarnada" por Sónia Braga. "Gabriela" prendeu os portugueses ao ecrã e até os deputados "marcavam o horário das sessões parlamentares de forma a não perderem o episódio do dia", escreve o autor. Mais tarde, também "A escrava Isaura", "Roque Santeiro" e "Tieta" tiveram picos de audiência. Os portugueses lançaram-se neste formato em 1982 com "Vila Faia". A primeira novela nacional tinha no elenco veteranos do teatro e novatos. Criada por Nicolau Breyner e Francisco Nicholson, a história conseguiu "agarrar" os portugueses.

Um dos apresentadores que mais empatia criou com o público foi Júlio Isidro. Este é outro nome incontornável da TV, que ainda se mantém no activo, ironicamente na RTP Memória. Começou aos 15 anos como apresentador da RTP, em 1960, mas foi o "O Passeio dos Alegres" que o tornou uma estrela da televisão. O programa, emitido aos domingos à tarde, estreou em 1981 e foi, para muitos artistas, uma rampa de lançamento. Herman José (com os "bonecos" Tony Silva, Nélito ou Cipriana Pureza), o Avô Cantigas (interpretado por Carlos Alberto Vidal), Mário Viegas, António Variações, todos passaram por lá.

Também os cantores ganharam novo palco com a chegada da TV. O Festival RTP da Canção lançou pessoas e "hits", que ficaram na história da música portuguesa. Canções como "Oração", interpretada por António Calvário, a "Desfolhada Portuguesa", na voz de Simone de Oliveira, ou a "Tourada", de Fernando Tordo, "que era uma caricatura do regime, que só a distracção ou a falta de inteligência permitiram escapar à Censura", refere o autor, venceram o concurso. Foi uma canção do festival que serviu de senha para a Revolução dos Cravos. "E depois do Adeus", cantada por Paulo de Carvalho, passou na rádio e deu o arranque ao Movimento das Forças Armadas em Abril de 1974.

Mas a televisão fez-se também de policiais à portuguesa, como "Duarte & Companhia" (no ar entre 1985 e 1989) e "Zé Gato" (exibido entre 1979 e 1980), de desenhos animados como "Marco" e "Heidi" e dos "enlatados" americanos como a "Casa na Pradaria" ou "O Barco do Amor". O autor termina o livro em 1992 com a estreia da SIC, o primeiro canal privado em Portugal. Nessa data fechou-se um ciclo e iniciou-se outro. O autor não poupa críticas ao panorama actual. Agora, diz, "temos, como é óbvio, uma enorme vantagem: o comando do televisor, que nos pode evitar desgostos maiores e suplícios imerecidos".






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