Vinhos Os avós é que sabiam

Os avós é que sabiam

Na Quinta das Bageiras, Mário Sérgio fermenta os tintos como no tempo do seu avô Fausto, com tecnologia quase primitiva. E daqui resultam vinhos que fazem suspirar gente que já não pode com tanta modernice vínica.
Edgardo Pacheco 14 de Janeiro de 2017 às 16:00
A bicicleta que surge na garrafa pertenceu ao avô Fausto e ainda hoje está da adega da Quinta das Bágeiras. A garrafa custará uns €27.


A organização dos almoços ou jantares festivos de Natal e passagem de ano são uma dor de cabeça no que diz respeito à escolha dos vinhos. Como há sempre gente com gostos diferenciados à mesa, é preciso algum tacto para escolher vinhos que agradem a todos. Brancos, tintos, espumantes, Portos, Madeiras, tudo isto é, genericamente, pacífico. A questão complica-se quando começamos a pensar em regiões, idades ou perfis de vinho dentro de cada categoria. Para me defender adopto a seguinte metodologia: a) os vinhos consensuais, b) os vinhos fora da caixa que dividem a assistência e que, estrategicamente, são aqueles que me encantam (se não gostarem não há problema algum porque trato deles).

Entre estes últimos vinhos há sempre, claro está, um ou outro da Bairrada ou do Dão. E, entre os bairradinos, nestas festas calhou o Avô Fausto 2010, da Quinta das Bágeiras. Um tinto sério, cuja apreciação requer, digamos assim, treino, abertura de espírito, alguma educação e vontade de perceber como eram os clássicos da Bairrada há décadas.

A Quinta das Bágeiras é um projecto familiar de várias gerações, hoje liderado com notoriedade por essa figura iconoclasta que é Mário Sérgio. Quando muitos produtores se preocuparam em seguir as tendências, Mário manteve-se fiel a um perfil clássico da Bairrada, exigindo apenas tempo e paciência a gente mais esclarecida. Soube esperar e, agora, explora muito bem o nicho daqueles consumidores que anseiam por vinhos diferentes.

De resto, o tinto Avô Fausto 2010 é uma homenagem de Mário Sérgio ao familiar que marcou a sua vida e o introduziu no mundo do vinho de uma forma que, nos dias que correm, daria direito a intervenções de diferentes instituições de protecções de menores. Noutros tempos, nas regiões vinícolas, os avôs tinham sempre a preocupação de transformar apressadamente "teenagers" em adultos, pelo que a iniciação alcoólica fazia sempre parte dessa coreografia. "Eu teria uns 14 ou 15 anos quando o meu avô Fausto me iniciou no vinho. A minha avó, que nem bebia, ficou uns bons meses sem lhe falar. E eu, por causa dos excessos, estive uns poucos anos sem tocar em vinho."

O avô Fausto foi alguém tão marcante e próximo na vida de Mário Sérgio que este resolveu homenageá-lo com um vinho cuidado e digno. As uvas maioritariamente da casta Baga (20 % de Touriga Nacional) provêm de parcelas que, por tradição, dão vinhos mais elegantes e menos alcoólicos. Como em tempos recuados os antigos não se ficavam por um ou dois copitos às refeições e fora delas, preferiam vinhos mais leves a caldos mais pesados e estruturados. Jogavam à defesa. E mesmo com as comidas de substância da Bairrada (chanfanas e leitão), vinhos pouco doces davam jeito.

Assim, este Avô Fausto 2010 é um digno representante da matriz de um Bairrada à moda antiga, não obstante a Touriga Nacional lhe arredondar ligeiramente os taninos. Ligeiramente porque, no nariz ou na boca, só dá Baga. Notas vegetais, notas de cinza, caruma, bosque ou eucalipto abrem caminho para um tinto inicialmente adstringente e com taninos bastante secos. À medida que o vinho roda no copo torna-se mais macio, pelo que este é claramente um tinto que deve ser vertido da garrafa para um decantador, não por causa de borras - que ainda é muito novo para isso -, mas para permitir a eficaz oxigenação.

No início de uma refeição, que meteu cabrito, houve quem achasse que o vinho "arrochava" na boca. Uns, à medida que o tempo passava, mudaram de ideias e não queriam outra coisa. É a tal história. No mundo do vinho, saber esperar é uma virtude.

E notem que, no seguimento do que se escreveu nestas páginas na semana passada, estou bem arrependido de ter aberto a garrafa. É certo que fez o seu papel didáctico à mesa, mas eu perdi a oportunidade de sentir um soberbo tinto daqui por 5 ou mais anos. É a vida.





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Anónimo Há 2 dias

Ao recuarmos ao tempo longicuo faz crescer agua na boca e lagrima no olho:agua na boca porque a uva era calcada com amor familiar e amor de vizinho.quando o vinho estava a separar-se da sujidade era 1 autentico mel.lagrima no olho porque os avos vao-se e as vinhas seguem-nos sobretudo no meio rural.

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