Livros Os dias dos Romanov

Os dias dos Romanov

A história da dinastia Romanov confunde-se com os últimos 300 anos de czarismo na Rússia, que terminou abruptamente em 1917, com a revolução. Agora revemos esses tempos conflituosos.
Fernando Sobral 03 de junho de 2017 às 09:15
Simon Sebag Montefiore
Os Romanov
Editorial Presença,
534 páginas, 2017


A queda dos Romanov, na Rússia imperial, fez um estrondo que se escutou em todo o mundo. Afinal, no seu lugar, surgiu Lenine, criando uma opção ideológica ao mundo ocidental de então. O fim dos Romanov foi feito no meio de um banho de sangue, mas a história que Simon Sebag Montefiore nos conta, sobre os 300 anos da sua dinastia, está também repleta de brutalidade, exercício feroz do poder e sexo. Os Romanov não eram uns santos, como alguns julgam. Talvez muito tenha que ver com a lógica imperial russa (que tão bem acabou por estar visível em obras de Tolstoi ou Dostoiévski). E a aventura que o autor partilha connosco é brutal.

Tudo começou, quase por acidente, com Mikhail, o primeiro Romanov. Nesses anos as czarinas eram escolhidas em cerimónias onde havia lugar a conspirações e muito veneno. Mikhail teve como sucessor Alexei, um jovem monge, que acordava às quatro da manhã para rezar, algo que prolongava por seis horas durante a Páscoa. Tinha uma fixação: libertar os moscovitas dos seus variados vícios. Tentou acabar com a bebida, o tabaco, os bandolins e algumas danças, onde costumavam cruzar-se mulheres nuas com actos sexuais pouco comuns.

A corrupção grassava na corte e a orgia de violência teve o seu auge com a acção de uma das figuras mais influentes do poder, Bogdan Khmelnitsky, um oficial cossaco, que virou a sua acção repressiva contra católicos e judeus. Cerca de 100 mil judeus terão sido massacrados na altura.

Por falar em Romanovs, Pedro I mandou torturar até à morte o seu filho. Isto enquanto mandou construir uma nova cidade, São Petersburgo, e elaborou um código de boas maneiras para os seus cidadãos. Quem falasse com a boca cheia, por exemplo, poderia ser vergastado. A história contada pelo autor termina em Nicolau II, um homem que tinha uma visão um pouco inocente do mundo, que acabaria por ser executado ao lado dos seus filhos.

Por essa altura, São Petersburgo era um cenário de apocalipse: as prostitutas (e prostitutos) representavam 1/50 dos habitantes da cidade, onde o hedonismo se cruzava com o fim esperado. Depois da queda dos Romanov a matança mudou-se apenas para as mãos dos novos mestres. Este livro surge, claro, no centenário do fim dos Romanov e no início da nova era comunista.

Não deixa de ser curioso, como percebemos, o carácter quase caótico dos primeiros cem anos de dinastia Romanov. Não havia uma ordem fixa de sucessão e a coroa não passava necessariamente de pai para filho, como era habitual nas monarquias. No meio das lutas pelo poder e das carnificinas, encontramos também aqui o outro lado da governação: dos grandes sonhos de Pedro I ao expansionismo de Catarina, a Grande (muito importante até para percebermos melhor as lógicas do poder russo da actualidade, especialmente no que se refere à Crimeia, ao Mediterrâneo e à Ásia Central), ou as reformas um pouco hesitantes de Alexandre II. Tudo acabou por conduzir ao inexorável declínio. Montefiore conta-nos tudo isto com um estilo cintilante, como se nos estivesse a relatar uma história. E isso acaba por tornar o livro muito atraente, muito dentro da escola britânica de História.






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