Vinhos Os vinhos que faltavam à Adega Mãe

Os vinhos que faltavam à Adega Mãe

Sete vindimas depois, a adega de Torres Vedras apresentou dois vinhos topo de gama. Bem feitos, chamarão a atenção dos consumidores para a pouco badalada região de Lisboa.
Os vinhos que faltavam à Adega Mãe
Os dois vinhos da Adega Mãe revelam na perfeição o potencial da região de Lisboa para vinhos de guarda. Seria interessante que mais produtores seguissem este caminho. Cada garrafa custa €39.
Edgardo Pacheco 05 de Novembro de 2016 às 16:00
Quando o projecto Adega Mãe surgiu, em 2010, tinha tudo para dar certo. Nascia a partir de capital do maior grupo empresarial no negócio do bacalhau (Riberalves), resultava de um processo de estudo estratégico aprofundado, associava-se a um dos mais famosos enólogos da nação (Anselmo Mendes), apresentava uma imagem de marca muito bem construída (arquitecto Pedro Mateus), e tinha como objectivo explorar ao máximo a área do enoturismo.

Ora, se tudo isto era perfeito, aparentemente não iriam aparecer problemas, certo? Errado. Primeiro, os vinhos da colheita de 2010 chegaram ao mercado quando a crise económico-financeira estava no auge e, segundo, estes mesmos vinhos são da região de Lisboa. Não são nem do Douro nem do Alentejo. São de Lisboa, que, apesar de ter história e potencial, não é propriamente uma prioridade no espírito dos consumidores quando vão às compras ou pedem uma garrafa no restaurante. Os vinhos nasceram bem e com uma relação qualidade-preço de se lhe tirar o chapéu para as marcas Dory e Adega Mãe, mas comercialmente não brilhavam. Há quem diga que tal também resultou do facto de se terem plantado na região de Lisboa castas ora estrangeiras ora originárias de

outras regiões do país. É possível, mas foi sempre assumido pelo líder do projecto, Bernardo Alves, que nos terrenos de Torres Vedras se fariam vinhos com a máxima frescura, a partir das melhores castas nacionais e internacionais. Vinhos que tinham como objectivo chamar a atenção dos consumidores para o terroir específico de uma região que sofre a boa influência atlântica (em linha recta, o mar fica a 16 km da propriedade).

Apesar de tudo, a marca com sete vindimas feitas lá foi ganhando terreno para, no último ano, registar crescimentos de vendas tremendos na área da restauração, o que significa que os consumidores começam a perceber o carácter diferenciador destes vinhos, sendo que a cereja em cima do bolo é bem capaz de ser estes dois novos vinhos Adega Mãe Terroir, um branco de 2013 e um tinto de 2012. E falamos em cereja porque, num mundo inundado de vinho novo, fazia falta à Adega Mãe vinhos que tivessem capacidade de revelar diferença e potencial de guarda. Cá estão eles.

Não há uma receita fixa para estes vinhos em matéria de castas, pese embora os enólogos Anselmo Mendes e Diogo Lopes (o enólogo residente) terem já uma ideia das castas com maior potencial. O princípio é este: acompanhar na adega a evolução dos melhores vinhos na cave de barricas e ver como se comportam no tempo. Alguns já nascem com pergaminhos (nesses, a coisa fica facilitada), mas outros precisam de tempo para revelarem todo o seu potencial.

No caso do Adega Mãe Terroir branco, temos um vinho que, feito com Alvarinho, Viosinho e Chardonnay, tem a particularidade de revelar a mineralidade e salinidade dos vinhos atlânticos, mas com um perfil que faz lembrar com intensidade os brancos da Borgonha (cortesia do Chardonnay). No caso do tinto, resultante de um lote de Touriga Nacional e Merlot, coloca-se o nariz no copo e a memória leva-nos para Bordéus (culpa do Merlot). Vinho profundo, notas de frutos de baga pretos, com uma boca elegante e taninos secos. E o interessante é que estes dois vinhos, assumidamente estrangeirados, ainda vão continuar a surpreender no tempo, tanta é a riqueza que têm.



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